Verão

Um ano e meio depois de ciclone, famílias do Caraá ainda tentam voltar para casa

Município do litoral Norte teve 700 famílias atingidas em junho do ano passado

Caraá - um ano e meio após a enchente
Caraá - um ano e meio após a enchente Foto : Pedro Piegas

O caminho ainda tem escombros. Pedaços de concreto, cerâmicas que revestiam o piso e partes do que um dia formaram o reboco pintado com tinta amarela não estão no lugar exato em que a água os deixou. O mato já encobre o terreno que um dia já foi lar, é preciso pisar com cuidado no local, mas não é capaz de impedir a família Quaresma de fazer planos.

Passados ​​558 dias da noite em que o Caraá, município do litoral Norte específico pelo número significativo de morros e encostas cortadas pelo Rio dos Sinos e afluentes, foi devastado pela força das águas, o casal Ângela, 62 anos, e Celso Quaresma, 64, lutar para voltarem a ter uma casa. Assim como outras 700 famílias da localidade que sofreram perdas, eles tiveram a casa levada rio abaixo em 15 de junho de 2023.

“Não foi só a nossa vida, a nossa família mudou, tínhamos a nossa casa como referência, e agora estamos em um lugar exclusivo. E tem como outras famílias, algumas se dividiram porque parte teve de ficar aqui trabalhando e uma parte mudou para outro município por não ter onde morar”, contou Celso.

Amor pela cidade de Caraá: Ângela e Celso mostram o que sobrou do imóvel e revelam planos para reconstrução | Foto: Pedro Piegas

Até o momento, quem perdeu seus imóveis aguardava a construção de moradias populares anunciadas pelo município após a tragédia. Contudo, a entrega está prevista apenas para 2026. “Tem o aluguel social, ele só passou a ser pago há seis meses”, diz o morador.

Quem tem alternativa financeira busca resolver a situação do seu próprio jeito. Por isso Ângela está tratando com o município a liberação para reconstruir no mesmo local da casa que perdeu.

“Nunca recebeu formalmente um aviso de que não planejamos reconstruir aqui, que poderia virado uma área de risco. Mesmo sem ajuda, não podemos mais esperar. Vamos limpar o terreno e construir aos poucos”, explica.

Mesmo com as lembranças da tragédia, Ângela e Celso estão ansiosos pela volta. “A minha filha diz que não consegue mais dormir perto do rio, porque não aceita o que aconteceu, mas vamos voltar, porque aqui sempre foi refúgio, mudamos para cá em 2011, e vamos fazer novas e boas memórias”, projeta.

Casal luta por recomeço | Foto: Pedro Piegas

As marcas daquela noite devastadora ainda estão por diversos lugares do município. Um ano e meio depois do ciclone, felizmente não faltam outros exemplos de quem conseguiu tocar a vida. A comerciante Sandra de Ávila, 51 anos, e a filha Isadora Benedetto, 21, recomeçaram. “Meu pai inaugurou o primeiro mercado desta região, há 50 anos. Sou professora, estava exercendo a profissão e decidia reabrir o comércio, dias depois foi tudo destruído, gravou Sandra, sem esconder a inquietação.

O estabelecimento fica na rua Salvador de Ávila, a aproximadamente 500 metros da margem do Rio dos Sinos, na localidade chamada Alto Caraá. Naquele ponto, o manancial tem por volta de dois metros de profundidade. A rua onde fica o prédio, que além do ponto comercial abriga o lar dos comerciantes, fica a cerca de três metros acima do leito, mas a água não respeita limites e bateu incríveis 1,20 metro dentro do mercado.

“Foi desolador, havia feito um empréstimo para pagar em 20 anos. Não desisti, fiz mais um empréstimo; endividada, mas estou aqui, firme no propósito”, exalta Sandra.

Mãe e filha comemoram um ano de recuperação do estabelecimento. Sorridentes, as parceiras de luta dizem que vale a pena. “No início não foi nada fácil, não recebemos ajuda dos órgãos públicos, o seguro que também negociamos, alegando que não cobria enchente. O que nos deu força, coragem e motivação para continuar foi a ajuda de familiares, amigos e principalmente dos clientes que a cada dia nos fortalecem e nos dão a certeza de que tudo valeu. Passamos por isto e estamos mais unidos”, garante.

Obras

Estradas prédios públicos e pontes destruídas ainda estão em recuperação. Conforme o prefeito Magdiel Silva, que encerra o mandato agora em 31 de dezembro, as unidades de saúde, escolas e outras estruturas mantidas pelo município estão operando normalmente.

As novas casas para as famílias desabrigadas serão construídas em um loteamento que será praticamente criado em frente ao prédio da prefeitura, na região central e longe da beira de rios e arroios. A medida em que busca, além de trazer a população para perto de serviços básicos como educação e saúde, evita a reocupação de áreas agora consideradas de risco. A previsão de entrega é para 2026, confirma Madgiel.

“Foram cerca de 700 famílias atingidas, 202 tiveram sua casa com avarias ou perdas completamente. Dessas, 40 solicitações de moradias com recursos da Defesa Civil Nacional, um investimento de R$ 6 milhões. O projeto está pronto e não estamos no processo de contratação para a terraplanagem da área e infraestrutura como água e luz”, detalha o prefeito.