Selfie: da diversão à compulsão
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Selfie: da diversão à compulsão

Para a semióloga francesa Pauline Escande-Gauquié, “acima de tudo, a lógica é criar ou fortalecer o vínculo com sua comunidade, com seus fãs se você é famoso, com os cidadãos se você é político”.

Por
Correio do Povo

Egor Tetiushev fazendo uma selfie

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A selfie diz muita coisa sobre esta época: o predomínio da imagem, do instantâneo, o jogo sobre as emoções, a abolição das distâncias no mundo virtual. É um coquetel que pode ser inofensivo, mas que também pode se tornar tóxico, segundo especialistas.

“Estamos realmente em uma sociedade da imagem, da imagem efêmera”, afirmou a filósofa e psicanalista francesa Elsa Godart, para a agência AFP. “A selfie é a chegada de uma neolinguagem no mundo do afeto, da emoção.” Trata-se de uma nova forma de comunicação que invadiu as redes sociais. Seja um adolescente com seu gatinho, um turista em frente à Torre Eiffel, recém-casados na Disneylândia, um fã posando com Neymar ou uma celebridade americana em Bali, a selfie nos põe em contato com muitas pessoas mais, afirma o psicanalista brasileiro Christian Dunker. A selfie é um simulacro, destaca o professor de Psicologia da Universidade de São Paulo.

“Exerce uma pressão permanente para que sejamos muito mais livres e felizes do que podemos ser na realidade.”

Para a semióloga francesa Pauline Escande-Gauquié, “acima de tudo, a lógica é criar ou fortalecer o vínculo com sua comunidade, com seus fãs se você é famoso, com os cidadãos se você é político”.

A selfie pretende dar fascínio à vida. Tiramos fotos de nós mesmos em poses que nos favorecem, com um cenário atraente ao fundo. Com um controle total da imagem que vamos publicar. O autor de uma selfie está centrado em si mesmo. A selfie perfeita faz com o autor se sinta excepcional, exibindo-se em situações excepcionais e as vezes perigosas. “São comportamentos de alto risco que dão a sensação de que podemos flertar com a morte”, afirma Elsa Godart.

No outro extremo, a selfie da depreciação de si mesmo também ganha cada vez mais adeptos, sobretudo de jovens com gostos menos convencionais, que querem denunciar a ditadura da beleza e a proliferação das chamadas “fakes”, fotos manipuladas digitalmente. Da mesma forma, muitas pessoas depressivas também tiram selfies, “o que também permite existir”, avalia Godart.

Cada vez mais criativa, a selfie também é um objeto de militância 2.0, como para os ecologistas que publicam fotos de uma praia “antes e depois” de limpá-la ou para as mulheres pró-aleitamento materno que tiram fotos amamentando seu bebê. “É algo muito íntimo, mas por trás há uma mensagem verdadeira”, afirma Pauline. O artista chinês Ai Weiwei fez da selfie uma arma política contra o regime de Pequim ou para dar visibilidade aos migrantes do Mediterrâneo.

Além forma de luta, porém, as selfies também são um negócio e uma ferramenta extraordinária de comunicação para celebridades como Kim Kardashian, seguida por 141 milhões de usuários no Instagram. As selfies tiradas perto do corpo de entes queridas são um desafio à morte. Para a psicanalista, é “fazer viver de novo a pessoa, que não está mais. A virtualidade é o lugar onde não morremos mais”. A selfie também pode ser totalmente viciante. “Como em todo fenômeno, há desvios”, afirma Pauline Escande-Gaudié. “Certas pessoas entram em uma compulsão e uma dependência do olhar do outro”. 

Múltiplos aplicativos permitem agora refinar os traços do rosto, apagar rugas ou mudar a cor dos olhos para se aproximar de um ideal sonhado de beleza. “É um travestismo”, avalia a semióloga. “Se não se tomar como um jogo, vamos rumo à patologia, já que existe uma dissonância identitária que pode ser perigosa, especialmente para adolescentes.”