Um estudo conduzido pela Embrapa Pecuária Sul, em Bagé, poderá estabelecer o farelo de mamona como uma alternativa vantajosa ao farelo de soja na alimentação de bovinos de corte. Iniciada em 2022 e ainda em primeira fase, a pesquisa deverá ser levada a campo a partir de 2025.
De acordo com a pesquisadora Cristina Genro, responsável pela condução dos trabalhos, a fase atual é de verificar “até que nível” pode ocorrer a substituição. No momento, é avaliado o consumo, a digestibilidade e a segurança do uso do insumo na dieta dos animais. “O farelo de mamona pode chegar até 60% de proteína bruta, enquanto que a soja chega a 45%”, afirma Cristina.
Para ser oferecido ao rebanho, é preciso destoxificar o farelo. Isso porque a mamona apresenta a ricini, em sua composição original. Essa proteína é perigosa à saúde animal. A partir da destoxificação realizada na indústria, o farelo tem grande potencial de nutrição de ruminantes. “Certamente será uma economia e tanto”, avalia Cristina, sem quantificar o percentual na redução de custos.
Testes prévios com pequenos ruminantes demonstraram a inexistência de efeito nocivo do farelo destoxificado na alimentação dos animais, considerados poligástricos. Animais monogástricos, como aves, peixes e suínos, não têm tolerância ao farelo de mamona, e não podem consumir o coproduto. A mamona é cultivada com o objetivo de extração do óleo da semente. O farelo sobra como resíduo, até então usado apenas como fertilizante orgânico, devido à toxicidade. A proteína tóxica é capaz de inativar os ribossomos, prejudicando a síntese proteica e causando morte celular.
Redução de metano
O estudo, desenvolvido em parceria com a Embrapa Algodão e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é classificado como mundialmente inédito. “A Índia é a grande produtora e a China a segunda produtora no mundo, e nenhum desses países consegue utilizar o farelo de mamona na alimentação animal. Então, realmente, esse passo que estamos dando é uma novidade mundial”, diz Liv Severino, pesquisador da Embrapa Algodão, que trabalha com mamona há cerca de 20 anos.
Além de mais eficiente e mais barato, o coproduto também terá seu uso avaliado quanto ao potencial de redução da emissão de metano entérico pelos bovinos de corte, tornando a pecuária cada vez mais competitiva e sustentável. “Uma das principais fontes que contribui para a emissão desse gás é o processo de fermentação entérica em ruminantes, sendo o metano um gás muito relevante para o objetivo de reduzir o aquecimento global. Como o Brasil apresenta um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, um dos caminhos para que o país cumpra os compromissos assumidos internacionalmente, de reduzir a emissão de metano, é através do manejo e formulação de dietas mais eficientes”, destaca Bruna Machado, zootecnista responsável pelos estudos em sua tese de doutorado.
A tese tem como título “Uso seguro do farelo de mamona como alimento para animais ruminantes e para a redução das emissões de metano entérico”. O projeto conta com a colaboração do Laboratório de Pastos e Suplementos da UFSM. Ao todo, 20 fêmeas da raça Brangus de um ano de idade, divididas em quatro grupos de cinco animais, têm acesso à alimentação disponível em um determinado tratamento.
Os animais recebem dieta base para todos os tratamentos, composta de 1% de concentrado e 2% de pré-secado de aveia, com oferta à vontade. Os tratamentos são de diferentes níveis de inclusão de mamona destoxificada em substituição ao farelo de soja. Os níveis de substituição são de 10, 20 e 30%, além do tratamento controle, sem adição do farelo de mamona. “Cada animal tem acesso somente a um dos quatro cochos da baia com seu respectivo tratamento de nível de inclusão de mamona”, explica Bruna.