Por Carolina Santos e Leticia Pasuch
A escritora Eliane Marques ainda segurava o troféu da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), que ganhou em narrativa longa pelo seu romance “Louças de Família”, quando se viu no palco para repudiar a fala considerada racista do presidente da entidade, Airton Ortiz. O fato ocorreu no dia 12 de dezembro. A notícia logo tomou conta de diversos jornais, incluindo de fora do Estado.
Durante o seu discurso, comentou sobre a grande tradição literária do estado, e apontou que o motivo é a imigração alemã e italiana no Rio Grande do Sul, diferentemente do restante do Brasil, “colonizado por escravizados”. “Não passou nada pela minha cabeça, não houve nenhum pensamento pré formulado. Não houve nenhum discurso pronto”, disse Eliane ao Correio do Povo lembrando do momento em que ouviu tais palavras. Além da fala apontada como racista, o que também incomodou Eliane foi o silêncio dos presentes diante do pronunciamento. “Temos que considerar que não se trata apenas da fala do presidente, que trata também do silêncio, que corresponde a um assentimento da academia que representa parte da nossa sociedade. Então houve uma fala e um silêncio acolhendo essa fala”.
No palco, a escritora rebateu a fala do presidente. Apontou diversos nomes de escritores negros da literatura do Rio Grande do Sul, e lembrou aos presentes que quem fundou a Academia Brasileira de Letras foi Machado de Assis. “Não é mais possível, senhor presidente, acadêmicos, acadêmicas, que ouçamos em silêncio afirmações como essa, de que o Rio Grande do Sul é então pioneiro nas suas Academias de Letras em razão da imigração alemã, da imigração italiana e que o restante do país não teria seguido esse pioneirismo em razão da sua predominância escrava, quer dizer, negra”, disse a escritora.
O acontecimento reverbera algo presente na sociedade: o racismo estrutural. Entre tantas pessoas presentes na plateia, Eliane se viu em uma posição de defesa e, como escreveu em uma publicação nas suas redes sociais, foi colocada em um local de “‘negra louca e barraqueira’, vestida de vermelho, incomodava os festejos ao ouvir ‘racismo em tudo’”. Ela, ao ouvir as falas de Ortiz, sentiu que não deveria ficar calada. "Eu levantei e pedi permissão, porque era uma cerimônia solene para falar. Foi me dada essa permissão e eu me dirigi então ao público, e disse para as pessoas que estavam no entorno, aos escritores, escritoras brancas: 'eu vou se vocês forem, sozinha, não vou'." Eliane era a única mulher negra na premiação.
Eliane chegou a se culpar e se questionar por que não disse nada. Mas entendeu que não deveria, por mais que tivesse consequências. Também não cogita devolver o prêmio. “Não é caso de desenvolver o prêmio, porque esse prêmio é uma conquista de toda a população negra, é uma conquista nossa e nós não vamos devolver nada daquilo que nós conquistamos.”
No dia posterior ao discurso, na sexta-feira, dia 13 de dezembro, a Academia Rio-Grandense de Letras, divulgou em suas redes uma nota de retratação com os seguintes termos:
“Ontem, durante a entrega do Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras, ao fazer um histórico do surgimento precoce das instituições culturais no Rio Grande do Sul, falei que isso em muito se devia aos imigrantes alemães e italianos, pois eles tinham liberdade para se reunirem em associações, publicarem seus jornais e praticarem suas culturas. Enquanto isso, nas regiões colonizadas por escravos, infelizmente eles não tiveram liberdade para esse tipo de atividade. Por culpa, obviamente, de quem os escravizava. Dito de improviso e sem completar o raciocínio acima exposto, minha fala teve cunho racista. Assumo a responsabilidade pelo meu erro, pois acabei dando uma conotação distorcida do que eu queria dizer. Reconheci tão logo me foi chamada a atenção e imediatamente pedi desculpas diante do mesmo público que ouviu o que eu havia falado. É óbvio que eu condeno toda e qualquer manifestação racista, tenho um histórico de vida que comprova isso, e por isso essa retratação pessoal, que em nada envolve a Academia Rio-Grandense de Letras”.
Invisibilidade
Especialistas ouvidas pela reportagem reforçam que o sul do país construiu um estigma da branquitude, invisibilizando a cultura negra, cujas tradições fazem parte da construção da história do Rio Grande do Sul. O mesmo acontece com a literatura. “A literatura negra não é invisível, ela é invisibilizada na medida em que ela traz outra estética”, afirma Eliane.
A professora Liliam Ramos, dedicada ao estudo da literatura afro-latino-americana, destaca diversos nomes no Rio Grande do Sul, mencionando o pioneirismo, no século XIX, da professora Luciana de Abreu (1847-1880). E no século XX, dois grandes nomes que reverberam em estudos acadêmicos: Maria Helena Vargas da Silveira (1940 – 2009), a Helena do Sul, e Oliveira Silveira (1941 – 2009). E por fim, chega na atualidade, “com um grande número de autorias negras que vêm publicando nos mais variados gêneros literários e ganhando prêmios devido à qualidade de seus escritos”, aponta Liliam.
Ela lembra que Porto Alegre tem cada vez mais destaque literário, com vozes como as de Paulo Scott, José Falero e Jeferson Tenório. Ainda, menciona dois livros, escritos coletivamente, lançados ainda este ano: “Escritoras negras do Rio Grande do Sul”, da Editora Pontes e “Antologia poética de autoria negra brasileira”, da Editora Mazza. Ambos livros trazem diversos nomes, entre eles: Ana dos Santos, Dóris Soares, Fátima Farias, Fernanda Bastos, Heloisa Pires Lima, Isabete Fagundes Almeida, Jacira Fagundes, Lilian Rocha, Maria Helena Vargas da Silveira, Maria Py Dutra, Taiasmin Ohnmacht, Vera Lopes e Zeli de Oliveira Barbosa. Ela ainda dá destaque para oito poetas sul-rio-grandenses selecionados: Maria Helena Vargas da Silveira, Ronald Augusto, Jorge Fróes, Liliam Rocha, Eliane Marques, Richard Serraria, Ana dos Santos e Marcelo Martins da Silva.
"Nós temos dentro da história do Rio Grande do Sul expoentes, escritores importantes como Paulino Azurenha, Luciana de Abreu, o próprio Oliveira Silveira, a Maria Helena Vargas e todos os outros contemporâneos. Então, essa escrita sempre esteve presente das mais variadas formas, mas muitas vezes em alguns momentos invisibilizada, por não estar em grande em grandes editoras", diz Lilian Rocha, poeta, escritora e responsável pela primeira curadoria de Literatura e Cultura Negra da Feira do Livro de Porto Alegre. Para ela, a fala dita pelo presidente da ARL fere a toda uma população que sempre esteve presente construindo conjuntamente com outras a cultura brasileira.
A professora Liliam alega que é “inadmissível” que, em 2024, falas como a do presidente da Academia Rio-Grandense de Letras Airton Ortiz sejam proferidas e defendidas por alguns de seus pares. “Minha opinião, enquanto professora de literatura, de formadora de professores de literatura e de pessoa antirracista, é a de que, mais do que a retratação apresentada – protocolar e patética –, que o presidente Airton Ortiz peça renúncia do cargo que ocupa como forma de preservar alguma dignidade e algum respeito para a referida academia”, comenta.
Por meio da lei 10.639/03, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. Porém, Liliam avalia que, 20 anos após a criação da lei, “ainda é muito pouco o que se faz no ambiente educacional”. Para ela, a resposta sobre a resistência é o racismo estrutural, escancarado com a fala do presidente da ARL e com o silêncio na plateia. “Já passou da hora de nós, pessoas brancas antirracistas, não aceitarmos mais essas respostas e de nos manifestarmos com afinco sobre as situações racistas que vêm ocorrendo em espaços públicos e não públicos”, finaliza a professora.