A primeira sensação que temos ao sair das 2h45min do até hoje maior show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, sábado à noite no Estádio Beira-Rio, é que há algo de transcendente e de viver o Brasil verdadeiro dos últimos 60 anos em uma só noite. Estar diante dos sons e das ideias, da fluidez estética, do respeito ao humano demasiadamente humano, seja ele de qual credo, etnia, raça ou gênero, faz de Gilberto Passos Gil Moreira, em seus 83 anos, uma lenda viva da música. E foi assim neste show em Porto Alegre. A começar pelo total encanto do público com a seleção das 30 músicas escolhidas para serem interpretadas por Gil e por banda familiar, que tem três filhos (Bem, José e Nara), um neto (João) e uma nora (Mariá). Nem sempre Gil teve um público tão favorável. Carlos Calado em seu livro “Tropicália” lembra aquele pocket show de fevereiro de 1969 para 150 soldados e oficiais do Regimento de Paraquedistas num quartel em Deodoro, quando estava preso por causa da ditadura militar.
Mas vamos ao show de sábado. Ao iniciar com “Palco” e seguir com “Banda Um” e “Tempo Rei”, Gil nos oferece as suas principais canções do início dos anos 1980, quando a abertura gradual do processo de ditadura militar passou a “transformar as velhas formas de viver”. O tempo de Gil é o salto quântico e a transcendência desde Ituaçu, Salvador, São Paulo, Londres, Rio de Janeiro, ocupando dois locais em tempos diferentes nas lembranças e vivências dos fãs brasileiros. Gil mostrou porque é o mais transcendente artista brasileiro em atividade.
CANÇÕES DE LUTA
Entre canções e ideias de luta, Gil tocou “Cálice”, com introdução de Chico Buarque, no vórtex de LED, falando da importância da canção às novas gerações. Antes de “Refavela”, Gil falou do Festac 77 (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra), em Lagos, na Nigéria, que reuniu 50 mil artistas e intelectuais negros e cujos alojamentos, tipo BNH, como Gil definiu, ficaram de legado à população. Entre as canções “Vamos Fugir” e “Nos Barracos da Cidade”, Gil exaltou os povos africanos do Caribe, como Jamaica, Cuba e Porto Rico, as suas culturas, os seus costumes e as suas canções. Um momento bem inusitado da apresentação foi a participação da cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto, na música “Punk da Periferia”. Ela que é conhecida por músicas mais calmas, reflexivas e com um embalo mais lento, entrou com a energia de roqueira e funkeira que a música exige, deixando o clima da apresentação lá em cima.
Os momentos de enlevo foram tantos que para citá-los precisaríamos de tempo, um tempo rei, que não fica restrito aos relógios, celulares e demais dispositivos digitais e eletrônicos. A parte mais balada e espiritual da apresentação histórica teve “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Drão”, “Estrela” e “Esotérico”. O conjunto de canções vai do divino ao cósmico, de uma separação de Sandra Gadelha, a mãe de Preta Gil, em “Drão”, até a separação entre vida e morte com a perda precoce da filha Preta Gil, aos 50 anos, em 20 de julho deste ano. Ele já havia perdido o filho Pedro, baterista e percussionista, em 1990.
A BAHIA
A Bahia apareceu forte no show, com as duas canções que carregam o estado natal de Gil nos seus nomes: “Eu Vim da Bahia” e “Back in Bahia”. A primeira é um samba que exalta este estado que é a gênese da sua verve musical, desde Ituaçu, aquele acordeon e aquele violão manuseado com nove anos de idade, ele queria ser músico, que queria “ser musgueiro e pai de menino”. “Eu vim da Bahia/ Mas algum dia eu volto pra lá”. A segunda “Back in Bahia”, de 1972, do disco “Expresso 2222”, é a sua “Canção do Exílio”, a sua versão do poema de Gonçalves Dias de 1843. O fato de estar de volta a Salvador depois daqueles anos forçados em Londres, mas que foram vividos com muita intensidade. “Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui/ Vez em quando, quando me sentia longe/ dava por mim/ Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo para não cair.” Nesta música, o solo de guitarra do neto João Gil, um dos integrantes dos Gilsons, é daqueles de trazer de volta Moraes Moreira e outros guitarristas brasileiríssimos que já partiram.
BLOCO FINAL
O bloco final do show teve a espiritualidade em alta com direito a percussão inventiva e bem engendrada de Leo Reis e Gustavo di Dalva nas canções “Andar com Fé”, “Emoriô” e “Toda Menina Baiana”, que encerra o show, junto com um trecho de “Atrás do Trio Elétrico”, quando Gil sai e só permanece a banda. Aliás, a apresentação da banda é algo à parte no show de Gil. Ele apresenta a banda em conta-gotas, estendendo a apresentação até o sax de Thiagô Oliveira, faltando seis músicas para o show terminar. Nas músicas finais, Gil também ensaiou passos de dança e correu pelo palco, tudo isto aos 83 anos. Um show de alguém que fez da sua carreira um exemplo de que a música pode salvar, formar, informar, protestar e ainda entreter, embalar e emocionar 30 mil pessoas em uma noite fria de Porto Alegre, que chegou aos 12 graus. Ao final, o público foi para casa de alma regozijada entoando as músicas de Gil e um mantra político do momento; “Sem Anistia”.
A direção artística do show é de Rafael Dragaud, a direção musical é de Bem e José Gil. Gilberto Gil é acompanhado por banda composta pelos filhos Bem Gil (guitarra/baixo), José Gil (bateria), e Nara Gil (voz); o neto João Gil (guitarra/baixo); além da nora Mariá Pinkusfeld (voz), Diogo Gomes (sopro), Thiagô Oliveira (sopro), Marlon Sette (sopro), Danilo Andrade (teclado), Leonardo Reis (percussão), Gustavo Di Dalva (percussão), Mestrinho (sanfona), e o quarteto de cordas com Monique Cabral (violino), Tamara Barquette (violino), Janaína Salles (violoncelo) e Clara Santos (viola). Assistida por mais de 500 mil pessoas, a turnê segue para São Paulo (17 e 18/10), Rio de Janeiro (25 e 26/10), Fortaleza (15 e 16/11), Recife (22, 23 e 28/11), Salvador (20/12) e Belém (21/3/26).
SET LIST
Palco
Banda um
Tempo rei
Eu só quero um xodó
Eu vim da Bahia
Procissão
Domingo no parque
Cálice
Back in Bahia
Refazenda
Refavela
Não chore mais (No Woman, No Cry)
Extra
Vamos fugir
Nos barracos da cidade
A novidade
Realce
A gente precisa ver o luar
Punk da periferia
Extra II (O rock do segurança)
Se eu quiser falar com Deus (Intro: Retiros espirituais)
Drão
Estrela
Esotérico
Expresso 2222
Andar com fé
Emoriô / Dia da caça
Aquele abraço/Funk-se quem puder
Esperando na janela
Toda menina baiana/Atrás do Trio Elétrico