Depois de viver por dentro a maior catástrofe climática do Rio Grande do Sul – atuando como voluntária em abrigos, no apoio a equipes de resgate e no acolhimento e escuta de vítimas, de outros voluntários e também na mobilização de redes de apoio –, a historiadora e psicoterapeuta Angélica Boff decidiu contar em livro as histórias que vivenciou naquele nem tão distante mês de maio de 2024.
Em “A enchente que não acabou – o que a tragédia revela sobre nós” (Carta Editora, 2026), articula conhecimentos da história, da antropologia e de diferentes abordagens psicológicas para apresentar aos leitores uma vigorosa reflexão sobre os diversos aspectos do trauma que a enchente impôs a diferentes pessoas.
Ao longo de 240 páginas ilustradas por fotografias em preto e branco que compõem uma narrativa à parte sobre perdas, danos e solidariedade, a autora revela como os impactos não apenas podem ser duradouros na vida dos atingidos, como revelam estruturas psicológicas de cada pessoa e culturais, de toda uma sociedade e ajuda a entender os efeitos sociais e psicológicos da enchente.
São histórias de vida distribuídas em 12 capítulos que convidam a uma reflexão sobre valores humanos, reconstrução, trauma, memórias e a vida após a baixa das águas – sem esquecer o que a catástrofe representou para os seres sencientes, os milhares de pets e outros animais atingidos pelo flagelo.
“Mesmo vivendo em um mundo cada vez mais marcado por desastres socioambientais, continuamos agindo como se tudo pudesse voltar ao normal. Mas que normalidade é essa? O que uma tragédia é capaz de revelar sobre a forma como vivemos, sentimos e organizamos a sociedade? Foi a partir dessas perguntas que nasceu este livro”, explica a autora.
Segundo Angélica Boff, são histórias que mostram como a ruptura do cotidiano é capaz de expor tanto aspectos da natureza humana quanto da cultura que construímos: “nossos valores, escolhas morais, formas de cuidado, relações com os animais, modos de viver em sociedade e maneiras de atribuir sentido ao sofrimento”.
“Mais do que registrar uma catástrofe climática, este livro investiga aquilo que ela tornou visível. Porque algumas tragédias não terminam quando a água baixa. Elas continuam ecoando naquilo que revelam sobre nós”, resume.
A autora
Angélica Boff é historiadora, mestre em História Cultural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e psicoterapeuta do Método Grisa (Florianópolis, Santa Catarina). Durante 25 anos atuou com pesquisa histórica, dedicando-se especialmente ao estudo da cultura, do comportamento humano e da construção dos saberes. É autora de “Expresso 25 – 50 anos: Uma História do Canto Coral no Brasil”, sobre o grupo Expresso 25.
Moradora de Porto Alegre há mais de quatro décadas, participou como voluntária da enchente de 2024 em diferentes frentes de atuação: abrigos de pessoas e de animais, apoio a equipes de resgate, acolhimento e escuta de vítimas e voluntários, além da mobilização de redes de ajuda. A experiência vivida em campo, somada à escuta de relatos e à sua trajetória como pesquisadora e terapeuta deram origem a este livro.
Serviço:
Lançamento do livro “A enchente que não acabou – O que a tragédia revela sobre nós” (Carta Editora, 2026, 240 p.), de Angélica Boff.
Capa (imagem abaixo) de Everson Godinho, com apresentação de Rodrigo Lopes e prefácio de Walter Moura.
Sessão de autógrafos: quarta-feira, dia 21/10, a partir das 18h
Local: Espaço Amelie (rua Vieira de Castro, 439, Santana), em Porto Alegre.