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Arquitetura popular busca aproximar profissionais de moradores de periferias

Arquiteta Karol Rosa apresentou a Kopa Coletiva na CasaCor RS

Arquiteta Karol Rosa apresentou a Kopa Coletiva na Casacor RS
Arquiteta Karol Rosa apresentou a Kopa Coletiva na Casacor RS Foto : Renê Almeida / Especial / CP

Você, morador de periferia ou de bairros populares, já fez um orçamento com um arquiteto para construir ou reformar sua casa? Provavelmente, a resposta foi não. E você não está sozinho. Essa é a realidade de 82% da população brasileira, que afirma nunca ter contratado profissionais tecnicamente habilitados, como arquitetos e engenheiros. O dado é de uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2022.

“Quem é da comunidade não pede nem orçamento para arquiteto”, afirma a arquiteta e urbanista Karol Rosa, fundadora da Kopa Coletiva – Arquitetura Popular. Durante a programação da CasaCor RS 2026, ela apresentou a empresa criada para atender moradores de periferias e bairros populares.

A mãe de Karol, Dona Alice, trabalhou como babá e vive há mais de 30 anos em uma casa no bairro Restinga, periferia no extremo Sul de Porto Alegre. A residência foi autoconstruída aos poucos, conforme as condições financeiras da família. Quando surgiam problemas como umidade, mofo e goteiras, ela recorria ao pedreiro da família para fazer os reparos. As soluções, porém, duravam pouco e os problemas voltavam a causar transtornos. Com o tempo, os filhos começaram a apresentar problemas respiratórios, como bronquite.

A situação vivida pela família de Karol se repete em diversas periferias do Brasil. Além de um déficit habitacional de quase 6 milhões de moradias, o país possui 27 milhões de domicílios inadequados, que correspondem a 40,8% do total de residências urbanas consideradas duráveis. Os dados são da Fundação João Pinheiro. São considerados inadequados os domicílios que apresentam problemas como umidade, falta de ventilação e precariedade em pisos, forros e instalações elétricas e sanitárias.

“O arquiteto vê beleza, ele gosta de fazer coisas bonitas, coisas belas, coisas que aumentam a autoestima das famílias. E aí, quando tu chega nessas casas e vê que a prioridade é fazer a parte elétrica, que vai ficar escondida embaixo do forro, é muito difícil para o arquiteto formado na universidade tradicional e com ensino tradicional entender que aquilo ali também é arquitetura. Que tu também está conseguindo colocar o teu trabalho a serviço de quem mais precisa”, afirma Karol.

O alto custo atribuído ao trabalho de arquitetos também afasta a população de baixa renda. A origem elitista da profissão contribui para essa percepção, mas, segundo a fundadora da Kopa Coletiva, atualmente há um número crescente de profissionais dedicados a atender moradores de periferias.

“Na nossa cabeça, o arquiteto é muito caro. Mas, às vezes, tu vai pedir um orçamento e nem é. Então, também é cultural, as pessoas já têm esse bloqueio de não pedir. Também se confunde muito arquitetura com decoração, sendo que não é. O arquiteto faz muitas outras coisas. Então, as pessoas podem, sim, pedir orçamentos. Hoje, a gente também tem mais arquitetos trabalhando com o público de baixa renda, com as populações das periferias. Tem mais possibilidades”, conclui.

Arquiteta e urbanista Karol Rosa apresentou a Kopa Coletiva na Casacor RS | Foto: Mauro Schaefer

Kopa Coletiva

Moradora da Restinga, Karol revela que o acesso da população de baixa renda à arquitetura sempre foi uma inquietação.

“Eu venho da periferia e entrei na universidade através de política pública. E a universidade de arquitetura não te dá insumos técnicos para trabalhar em territórios. Então, o que eu via quando chegava em casa era completamente diferente do que eu via durante os seis anos em que cursei arquitetura. E daí eu pensei: eu engravidei muito cedo, no segundo semestre. Não tranquei a faculdade porque sabia que não ia voltar. Saí desempregada e com filho para criar e pensei: como eu vou fazer para devolver o conhecimento que busquei por seis anos, à noite, todos os dias, para a minha comunidade?”, se perguntou.

Assim, a arquiteta passou a gravar vídeos para as redes sociais sobre a elitização da profissão e a falta de acesso da população de baixa renda à arquitetura. As gravações ganharam alcance, colegas se conectaram com o trabalho até que ela recebeu o primeiro pedido de orçamento.

“A partir do primeiro pedido, do primeiro projeto, eu estruturei uma forma de oferecer projetos acessíveis e parcelados para atender esse público. E aí fui divulgando nas redes sociais, começaram a vir os clientes e, posteriormente, consegui fazer várias parcerias para realizar obras para famílias em situação de vulnerabilidade.”

Em seis anos de existência, a Kopa já realizou mais de 200 obras de melhorias habitacionais, além de mais de 50 projetos acessíveis e parcelados para moradores de periferias e bairros populares de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Os serviços já impactaram diretamente mais de 2,5 mil pessoas, sendo 93% mulheres — entre elas, 38% mães solo.

A exposição

A Casacor RS 2026 acontece no antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, na Avenida dos Estados, 747, em Porto Alegre. Os ingressos custam a partir de R$ 48 e podem ser adquiridos no site da mostra. Os visitantes também podem votar no melhor espaço por meio de um totem eletrônico, que registra os votos ao final do circuito. O vencedor do Prêmio Correio do Povo Casacor RS 2026 será conhecido na cerimônia de encerramento do evento, em 4 de outubro.

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