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As mulheres que conquistam os espaços na festa do Oscar

De Lina Wertmüller a Chloé Zhao, de Meryl Streep a Emma Stone, há um fio de continuidade e confronto que habita dos tapetes vermelhos às telonas

Vencedora de vários prêmios na temporada, Jessie Buckley, de "Hamnet" é força feminina atual
Vencedora de vários prêmios na temporada, Jessie Buckley, de "Hamnet" é força feminina atual Foto : Universal Pictures / Divulgação / CP

Em 1977, quando a italiana Lina Wertmüller atravessou o tapete vermelho do Oscar como a primeira mulher indicada à direção, o gesto tinha algo de insurgência. Não era apenas uma cineasta disputando uma estatueta. Era uma fresta aberta num teto que parecia inquebrável. A imagem de Lina, de óculos brancos e personalidade indomável, ecoa quase meio século depois, em 2026, quando a Academia anuncia um número histórico. São 74 mulheres indicadas, superando as 71 de 2023. Recorde. Palavra que brilha, mas também provoca. Lina morreu no final de 2021, aos 93 anos, na Itália.

O Oscar 2026 será entregue no próximo domingo, dia 15, e nunca tantas mulheres ocuparam tantas categorias. Ainda assim, quando se olha de perto, percebe-se que elas representam cerca de 30% dos indicados. Trinta por cento é avanço, mas também é lembrete. A maioria ainda tem rosto masculino. A festa é grande, mas a disputa por espaço continua, cotidiana, estrutural e política.

Na direção, apenas um nome feminino aparece este ano. Chloé Zhao, indicada por “Hamnet”, que já conhece o gosto da consagração, mas sua presença é solitária na categoria. Se em 1977 uma mulher era um acontecimento, em 2026 ainda é um acontecimento quando deveria ser regra. A história avança, mas a passos lentos.

Entre as indicadas a Melhor Atriz, o leque é diverso e vibrante. Jessie Buckley surge por “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, enquanto Rose Byrne concorre por “Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria”. Kate Hudson aparece com “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois”, Renate Reinsve por “Valor Sentimental” e Emma Stone por “Bugonia”. Cinco trajetórias distintas, cinco maneiras de ocupar a tela e reivindicar complexidade para personagens femininas que já não aceitam ser apenas suporte narrativo.

Emma Stone, aliás, transforma estatística em símbolo. Aos 37 anos, torna-se a mulher mais jovem a alcançar sete indicações ao Oscar. Ela supera o marco que pertencia a Meryl Streep, que chegou à sétima aos 38. Streep, com 21 indicações e três vitórias, segue como recordista absoluta entre intérpretes. O feito de Emma Stone não apaga o reinado de Streep, mas sinaliza a nova geração que aprendeu a negociar poder também atrás das câmeras. Indicada por “Bugonia” como atriz e como produtora, Emma encarna a mudança silenciosa e decisiva. Mulheres interpretam histórias e também as financiam, moldam e decidem.

Nos bastidores, outras presenças reforçam essa transformação. Autumn Durald Arkapaw concorre pela fotografia de “Pecadores”, área historicamente dominada por homens. Emilie Lesclaux é indicada como produtora por “O Agente Secreto”. Cada nome amplia o território. Cada crédito nos letreiros finais é uma conquista que vai além do glamour da noite de premiação.

Mas nem tudo são aplausos. A ausência da brasileira Tânia Maria na lista final de atriz coadjuvante lembra que reconhecimento é também disputa geopolítica. Quem é visto? Quem é lembrado? Quem tem campanha forte o bastante para atravessar fronteiras?

O Oscar 2026 pode ser celebrado como marco de representatividade feminina. A quantidade de indicadas é resultado de décadas de insistência, talento e enfrentamento. Mas o verdadeiro triunfo talvez esteja menos no número e mais na mudança de narrativa. Não se trata apenas de contar quantas mulheres sobem ao palco, mas de perceber como elas estão redesenhando o cinema. Elas dirigem épicos intimistas, fotografam mundos sombrios, produzem histórias arriscadas e recusam papéis unidimensionais.

De Lina Wertmüller a Chloé Zhao, de Meryl Streep a Emma Stone, há um fio de continuidade e confronto. A presença feminina no Oscar deixou de ser nota de rodapé para se tornar manchete. Ainda são 30%, ainda é luta, mas é também revolução em curso.

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