A segunda noite de desfiles do Grupo Especial - a elite das escolas de samba do Carnaval carioca - começou na segunda-feira e virou a madrugada - teve a ancestralidade africana como principal tema de destaque. Três das quatro escolas – Unidos da Tijuca, Beija-Flor e Salgueiro - abordaram o assunto de alguma forma nos enredos. A Unidos de Vila Isabel, que fechou a noite, preferiu assombrar o público com um enredo que apresentava também elementos de diversão.
Poucos minutos depois das 22h, a juventude do Borel, como diz trecho do samba-enredo da Unidos da Tijuca, desceu o morro para cantar em louvor a Lógun Edé, personagem principal do enredo da escola de samba. Nas arquibancadas, o público saudava a agremiação, que abria a noite de desfiles. A cantora Anitta é uma das compositoras do samba-enredo, mas não compareceu ao desfile por questão de agenda.
No último carro, via-se a representação do morro do Borel que, por meio da música do afro funk e do grafite, amplificava para o mundo mensagens da juventude preta periférica. A primeira porta-bandeira, Lucinha Nobre, que está há 41 anos no Carnaval, estava radiante com o desfile. “Fazer um desfile brincando com o samba que você gosta, uma história que você respeita e admira, é uma honra”, completou a porta-bandeira “Comecei em 1984, junto com essa passarela e, a cada ano, eu quero mais”.
A Beija-Flor começou o seu desfile nos últimos minutos da segunda-feira. Entrou na avenida praticamente soltando fogo. O público delirou ao ver as chamas saindo do carro abre-alas. Dona de 14 títulos na elite do Carnaval do Rio, a Beija-Flor de Nilópolis, município da região Metropolitana do Rio de Janeiro, entrou na avenida para um desfile histórico - a despedida do intérprete Neguinho da Beija-Flor, após 50 anos representando a voz da azul e branca.
A escola apresentou ao público da Marquês de Sapucaí o enredo Laíla de Todos os Santos, uma homenagem ao diretor de Carnaval que figura entre as maiores personalidades da agremiação e do carnaval carioca. Laíla participou de 13 dos 14 títulos da escola. Laíla morreu em 2021, vítima da covid-19.
Um dos pontos altos do destaque foi a quinta alegoria - Vem Comandar Sua Comunidade - que representou um reencontro de baluartes da escola: o homenageado Laíla e o carnavalesco Joãozinho Trinta, falecido em 2011, que ajudou a escola a conquistar cinco títulos. A porta-bandeira Selminha Sorriso, que, ao lado de Claudinho forma o casal mais antigo do grupo de elite (29 anos) - destacou o papel do homenageado, Laíla, como uma das personalidades do Carnaval.
O Salgueiro foi a terceira escola da noite a levar, de alguma forma, o tema ancestralidade para a Sapucaí. A escola, também do bairro da Tijuca, atravessou a Passarela do Samba, com o enredo Salgueiro de Corpo Fechado. A vermelho e branco busca o 10º título na elite do Carnaval. Na avaliação do diretor de Carnaval, Wilsinho Alves, o Salgueiro teve um grande desfile.
“O Salgueiro se apresentou brilhantemente, com emoção, com a galera reagindo ao nosso samba, que viralizou, porque o enredo comunica-se muito bem com as pessoas. É um samba valente pra caramba, é um samba em que a gente apostava muito”, descreveu. Ele ainda ressaltou a postura técnica da escola. “As pessoas falavam que o Salgueiro iria abrir buraco, está aí a prova de que o Salgueiro é técnico. Eu sei do meu trabalho, eu sei da minha equipe. A gente está na briga”, acentuou.
A Vila Isabel foi a quarta e última a desfilar. A agremiação levou para a avenida elementos, pelo menos em teoria, assustadores. Fantasmas, lobisomens, caveiras, dragões, monstros, mascarados, bicho-papão, espantalhos, cuca, vampiros, bruxas, lobo mau e zumbis estavam presentes em fantasias e alegorias.
A escola da zona Norte do Rio, que é dona de três títulos da primeira divisão - sendo o último em 2013 - expôs para o público e jurados o enredo Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece, desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros. O desfile se desenvolveu a partir de uma viagem de trem imaginária, mostrando como assombrações fazem parte de nossas vidas, porém, esbanjando a diversão de um trem fantasma.
Durante a paradinha da bateria de mestre Macaco Branco, um drone que simulava uma abóbora de Halloween arrancou aplausos do público. No entanto, durante uma manobra o equipamento caiu no chão. "Acho que o público gostou, dava um sustinho e abriu um sorrisinho", disse o ator José Loreto, que desfilou na comissão de frente.
A prova de que a escola não queria mesmo assustar o público estava no quinto dos seis carros alegóricos, Quem Tem Medo de Bicho-Papão, que era repleto de personagens infantis, inspirados no cinema, para divertir e transformar o pânico em brincadeira. Um dos baluartes da Vila Isabel, o cantor e compositor Martinho da Vila atravessou a Passarela do Samba no carro abre-alas e não escondeu a emoção. "Agora acalmou um pouco. O coração está quase ficando normal, mas ele bateu muito", garantiu.
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Três noites
Pelo regulamento, cada escola teve o limite entre 70 e 80 minutos para cruzar a Passarela do Samba. Todas ficaram dentro do intervalo. Até o ano passado, os desfiles da Grupo Especial do Rio aconteciam no domingo e na segunda-feira de Carnaval, mas a partir de 2025 ocorreu em três noites.
No domingo, desfilaram Unidos de Padre Miguel, Imperatriz Leopoldinense, a atual campeã Unidos do Viradouro e Mangueira. Na noite desta terça-feira, será a vez da Mocidade Independente de Padre Miguel, Paraíso do Tuiuti, Acadêmicos do Grande Rio e Portela, a maior campeã de todas, com 22 conquistas.
As escolas são avaliadas por 36 jurados, quatro para cada um dos nove quesitos: bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira. As notas serão lidas na tarde desta quarta-feira, quando serão conhecidas a campeã do carnaval 2025 do Rio e a escola a ser rebaixada.