Na primeira noite da 21ª CineOP, em Ouro Preto, o público ocupou a praça, nesta quinta-feira, abriu os olhos e aceitou ser atravessado pelas imagens. Sob um céu fechado, quase ameaçando chuva, com temperatura ao redor dos 15 graus, a Praça Tiradentes ficou completamente tomada. A cidade histórica assistiu, reunida, ao nascimento simbólico de mais uma edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, reafirmando que “um país existe, de fato, nas imagens que escolhe preservar”, mote do evento deste ano.
A abertura da CineOP 2026 foi além do protocolo das cerimônias convencionais e apostou na experiência sensível. Concebida por Chico de Paula e Raquel Hallak, a performance de abertura transformou a praça em território de criação, conduzindo o público aos instantes que antecedem toda invenção. Propôs cenas do primeiro gesto, o primeiro olhar e da primeira memória. Sons, corpos, música, projeções e movimento costuraram uma narrativa sobre a origem da vida, do cinema e da própria ideia de preservar. A base da revelação foi expor que antes de qualquer filme existe um impulso, antes da história, existe um corpo, e antes da memória, existe alguém disposto a lembrar.
No palco, artistas mineiros, estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto e criadores de diferentes linguagens deram forma ao conceito que orienta esta edição. A presença da juventude dividindo cena com artistas experientes tratou da dimensão da transmissão, outro viés da preservação. Revelada nas próprias palavras da organizadora da CineOP, Raquel Hallak,
“Não se preserva apenas aquilo que ficou para trás. Preserva-se também aquilo que continua sendo criado”.
A abertura da CineOP 2026 olhou para a criação como gesto feminino, para as mulheres que inauguraram caminhos quando quase tudo lhes era negado e para aquelas que continuam reinventando o cinema.
Essa potência encontrou sua síntese na presença da homenageada da noite. Helena Solberg foi recebida por uma Praça Tiradentes lotada, em uma celebração carregada de emoção e reconhecimento. Ao subir ao palco para receber o Troféu Vila Rica, acompanhada das também realizadoras Tata Amaral e Lúcia Murat, a cineasta representava, além de sua trajetória individual, gerações de mulheres que precisaram disputar espaço para dirigir, filmar, narrar e existir atrás das câmeras. Sua obra permanece atual justamente porque nunca deixou de perguntar quem tem o direito de construir imagens e quais histórias merecem ser contadas.
A sessão especial que exibiu os curtas "A Entrevista" (1966) e "Meio-Dia" (1970) prolongou essa conversa. Filmes realizados no início da trajetória de Helena Solberg mostraram que as perguntas lançadas há mais de meio século permanecem inquietantes.
O evento segue até a próxima terça feira, reunindo 135 filmes de 18 estados brasileiros e seis países. Pelo segundo ano consecutivo, a CineOP realiza a Mostra Competitiva Contemporânea “Arquivos em Questão”, com títulos como “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” (Carlos Adriano), “Apocalipse Segundo Baby” (Rafael Saar), “Universo Circular – Jocy de Oliveira” (Dácio Pinheiro), “Irritante Prodígio” (Luiza Lindner) e “Notas sobre um Desterro” (Gustavo Castro).
A programação também inclui pré-estreias como “Anistia 79” (Anita Leandro), “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário” (Paulo Severo), “Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha” (Luis Abramo e Pedro Rossi), “As Dores do Mundo – Hyldon” (Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues) e “Vivo 76”, de Lírio Ferreira.
Já, na Na Mostra Preservação, destacam-se as pré-estreias de “Os Irmãos Segreto” (Michele Manzolini e Federico Ferrone) e “O Filme Infinito” (Leandro Listorti). Parte da programação está disponível gratuitamente na plataforma CineOP, com filmes de Helena Solberg e outros títulos das mostras Histórica e Preservação.