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Conheça a trajetória do escritor e jornalista Zuenir Ventura

O membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) morreu nesta terça-feira, dia 22

A trajetória de Zuenir Ventura se confunde com a história do jornalismo brasileiro
A trajetória de Zuenir Ventura se confunde com a história do jornalismo brasileiro Foto : VAlmoci Vasconcelos / CP Memória

O escritor, jornalista e "imortal" da Academia Brasileira de Letras Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, dia 22, aos 95 anos. Sua trajetória se confunde com a história do jornalismo brasileiro. No País, ele foi pioneiro ao implementar recursos literários no texto jornalístico, enquadrando-se no chamado New Journalism, movimento que teve entre seus expoentes Gay Talese, Tom Wolfe e Truman Capote. "Jornalismo e literatura são irmãos gêmeos que nasceram muito diferentes e que hoje são mais parecidos do que nunca", afirmou certa vez.

Seu livro mais emblemático, "1968: O Ano Que Não Terminou”, tornou-se um clássico ao revisitar o período da ditadura sob a ótica da cultura e da política. O livro recuperava importantes personagens, obras e músicas que fizeram parte daquela época e, assim, detalhava um dos anos mais intensos da história brasileira, reconstruindo episódios como a Passeata dos Cem Mil e a transgressão da peça Roda Viva, que colocaram uma geração de jovens de esquerda em confronto com a repressão do regime militar.

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O título serviu também de inspiração para a minissérie "Anos Rebeldes”, produzida pela TV Globo. Segundo dados da Academia Brasileira de Letras, as 48 edições da obra já venderam mais de 400 mil exemplares. O capítulo “Um Herói Solitário” inspirou o filme “O Homem Que Disse Não”, que o cineasta Olivier Horn realizou para a televisão francesa.

Carreira como professor

Zuenir Ventura nasceu no dia 1.º de junho de 1931, no município mineiro de Além Paraíba. Aos 11 anos, mudou-se para Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, onde, sem abandonar os estudos, ajudava seu pai - que era pintor - e trabalhou como office-boy.

Queria ser professor e, ainda jovem, ganhou uma bolsa de estudos no colégio, em troca de dar aulas para as crianças do então primário. Aos 20 anos, mudou-se para a capital fluminense, onde cursou Letras Neolatinas na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ).

Lá, estudou com professores notáveis, como Cleonice Berardinelli, Alceu Amoroso Lima, Celso Cunha, José Carlos Lisboa, Bela Josef e o mais famoso deles, o poeta Manuel Bandeira, que ministrava literatura hispano-americana.

"Míope e dentuço, ainda assim vaidoso - gostava de ser fotografado, traduzido, musicado, como confessava -, Bandeira, com seu constante pigarro, não constituía por si só uma atração numa sala de aula. O que era originalidade na sua poesia - a falta de solenidade, o gosto humilde da tristeza, como dizia, o jeito espontâneo de transformar em poema seu cotidiano, sua família, seus amigos - nem sempre ajudava o professor, que competia no mesmo elenco com ‘atores’ como Alceu, Lisboa e Cleonice, que faziam de suas aulas espetáculos de expressão verbal e corporal", escreveu Ventura no livro "Inveja: Mal Secreto: Minhas Histórias dos Outros”.

Com o passar dos anos, o autor tornou-se um dos jornalistas mais relevantes do País. Começou a trabalhar como assistente de Carlos Lacerda no jornal Tribuna da Imprensa, do qual foi correspondente em Paris. Depois, construiu carreira em veículos importantes, como Jornal do Brasil, O Globo e Veja, tornando-se referência pelo olhar atento às transformações sociais do País.

Defensor dos direitos humanos

Como autor, Ventura ganhou projeção nacional ao transformar acontecimentos históricos em narrativa acessível, como em “1968: O Ano Que Não Terminou”. Na mesma linha de jornalismo literário, destacou-se também com Cidade Partida, vencedor do Prêmio Jabuti, em que investigava as raízes da violência no Rio de Janeiro, e com “Chico Mendes: Crime e Castigo”, resultado de textos sobre o assassinato do líder seringueiro - em 1989, Ventura ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog pela série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”.

"Chico Mendes acertou quando anunciou que ia ser morto, mas errou ao achar que sua morte poderia ser inútil. Nunca um tiro dado no Brasil ecoou tão longe - até hoje", escreveu ele no livro.

Em 2008, Zuenir recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que "mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no País nos últimos 30 anos". E, no dia 30 de outubro de 2014, foi eleito para a cadeira n.º 32 da ABL.

Em "Inveja: Mal Secreto”, debruçou-se sobre o pecado em um livro que é resultado de uma análise social. "A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde", defendeu.

Para fazer "Sobre o Tempo”, isolou-se em uma fazenda no Rio de Janeiro junto com o amigo Luis Fernando Verissimo a fim de debater diversos temas. Seu último lançamento foi o romance “Sagrada Família”, publicado pela Alfaguara.

Trajetória vira filme

Em 2026, ganhou um documentário sobre sua vida, "Mestre Zu”, dirigido por Zelito Viana. A narrativa se dá a partir de um encontro na casa de Zelito, no Rio, onde jornalistas e amigos que conviveram com Zuenir revisitam memórias e anedotas.

Somam-se a isso depoimentos de nomes como Cacá Diegues, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Miriam Leitão e Heloísa Teixeira - que expressam sua admiração pelo mestre no estilo "cabeças falantes", em que diferentes vozes se alternam para contar a trajetória do biografado. Ventura chegou a conceder duas entrevistas ao documentário, mas sofreu um tombo e precisou interromper as colaborações por problemas de saúde.

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