Arte & Agenda

Diretor de Elenco: ofício que ganhou lugar no Oscar

Nova categoria na premiação, que rendeu indicação para o brasileiro “O Agente Secreto”, é comemorada por profissionais da área

Parte do elenco do filme ‘O Agente Secreto’, que concorre na categoria, na pré-estreia do longa no Teatro do Parque, em Recife
Parte do elenco do filme ‘O Agente Secreto’, que concorre na categoria, na pré-estreia do longa no Teatro do Parque, em Recife Foto : Nicole Rodrigues / Divulgação / CP

O que seria do “Poderoso Chefão” sem a química entre Marlon Brando e Al Pacino, ou de “Central do Brasil” sem Fernanda Torres? Antes que o diretor diga “ação”, muitas coisas acontecem em uma produção cinematográfica, entre elas a escolha dos atores.

Esse trabalho, que muitas vezes pode ser considerado invisível, ganha destaque pela primeira vez em uma das maiores premiações do cinema. Após 97 anos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entregará uma estatueta do Oscar para a Melhor Direção de Elenco. A nova categoria ganha um sabor especial com a indicação da produção brasileira “O Agente Secreto”. O longa de Kleber Mendonça Filho contou com a Direção de Elenco de Gabriel Domingues e disputa, no dia 15 de março, a estatueta com “Hamnet”, “Marty Supreme”, “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”.

O elenco de “O Agente Secreto” reúne grandes estrelas brasileiras como Wagner Moura (que concorre a Melhor Ator), Alice Carvalho (“Cangaço Novo”), Maria Fernanda Cândido (“Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore”) e Gabriel Leone (“Senna”). Além disso, trouxe revelações como Robério Diógenes e Tânia Maria (reconhecida como Melhor Atriz Coadjuvante no prêmio da International Cinephile Society e destacada por sua atuação no New York Times).

Com a criação da categoria no Oscar, a profissão ganha prestígio e foi celebrada entre profissionais do setor, que há décadas atuam nos bastidores, conectando roteiros a intérpretes e transformando personagens em presenças vivas na tela.

“Com certeza!” foi a resposta em comum entre as produtoras de elenco Daniela Silveira e Laila Garroni, quando questionadas sobre se a nova categoria deve impulsionar a profissão. Daniela destacou que a categoria específica para produção de elenco no Oscar é um reconhecimento histórico para a profissão. Ao que Laila complementa, “a gente sabe que o Oscar é um grande parâmetro para a indústria cinematográfica mundial. Então, quando eles dão esse destaque, essa importância pro nosso trabalho, uma valorização da categoria pode ser esperada. Pelo menos eu espero que sim”.

Para Daniela, “O Agente Secreto” trata-se de “um exemplo incrível do talento e da criatividade do nosso audiovisual”. Ela destaca o cuidado e as sutilezas na construção do elenco. A diretora e produtora de elenco Laila Garroni também elogia o resultado:

“O elenco apresentado em ‘O Agente Secreto’ é incrível e notavelmente produto de um trabalho muito bem feito pela direção de elenco. Tão incrível que tu vê os atores considerados coadjuvantes ganhando destaque, como a própria atriz Tânia Maria, que interpreta a Dona Sebastiana e saiu do filme como garota propaganda pra de uma grande marca de fast food. É um reconhecimento que pode parecer fútil, mas é muito legal se levarmos em conta que esse tipo de oportunidade é para poucos atores.”

Um ofício que requer imersão

Daniela, que conta com 24 anos de experiência na área e participou da seleção de elenco de longas como “Vai Dar Nada” e “Muito Prazer”, ambos dirigidos por Jorge Furtado, explica que o trabalho começa com imersão profunda no roteiro. “A leitura do roteiro é fundamental, não apenas para compreender os personagens, mas para captar o tom, o ritmo e o universo da história. A partir disso, inicio um diálogo próximo com a direção e a produção para alinhar expectativas, referências e intenções artísticas.”

É nesse primeiro momento que elementos como os perfis dos personagens, as necessidades específicas de cada papel, o cronograma disponível e as condições de produção são discutidos. “Esses elementos ajudam a definir estratégias de busca e seleção de elenco de forma realista e criativa”, aponta Daniela.

Laila Garroni reforça a ideia de que o processo começa muito antes dos testes. “Tudo começa no roteiro, leio e releio algumas vezes, faço as minhas anotações sobre o que está no papel sobre cada personagem e preencho as lacunas.” A partir disso ela dá início às conversas com o diretor para entender a visão que a produção tem de cada personagem. “Precisamos ‘ver’ a mesma coisa, para daí sair a campo atrás desse ator ou atriz”, explica.

Diretora de elenco Laila Garroni no set de "Malick", ao lado ator principal, Modou Kar | Foto: Luis Ferreirah / Reprodução / CP

Já quando as expectativas e ideias estão alinhadas, os testes começam. “Os testes são feitos a partir da entrega de cenas específicas, selecionadas pela direção para revelar a essência do personagem e como o ator se conecta com a história”. Neste momento, os produtores observam presença, interpretação, expressividade e a forma como o ator interage com outros membros do elenco.

O processo vai além da técnica. Daniela avalia presença, expressividade e interação entre os atores. “É um espaço de experimentação e o momento em que o personagem sai do papel para ganhar vida”, diz. “Não é apenas avaliar técnica, mas também descobrir as possibilidades criativas que possam enriquecer o projeto. Cada teste é um espaço de experimentação e o momento em que o personagem ‘sai do papel para ganhar vida’”, complementa a produtora. Já Laila começa analisando os “reels” dos atores (vídeos com compilação de trabalhos anteriores) antes de convocar para testes com cenas do próprio filme.

Ela destaca ainda que o trabalho não termina na escolha final. “Continuo acompanhando o processo para garantir que as necessidades do elenco e da produção estejam alinhadas”. Ambas apontam que isso inclui resolver ajustes de agenda, acompanhar mudanças de última hora, participar de ensaios e, muitas vezes, atuar como ponte entre direção e atores.

“No meu caso, a produção de elenco é uma presença constante, o que ao meu ver ajuda a manter a coerência artística e a apoiar os atores para que possam entregar o melhor em cena. Em muitos casos, essa proximidade se estende até o final das gravações, fortalecendo os laços, o trabalho coletivo e o resultado final do projeto”, diz Daniela.

Daniela Silveira em uma diária externa | Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução / CP

Formada em teatro pelo estúdio Stella Adler, em Nova Iorque, Laila também atua como atriz e diretora de cinema, uma combinação que, segundo ela, facilita o diálogo entre criação e execução. “Tenho que entender o que o diretor tem em mente e qual o ator mais indicado para fazer essa entrega.”

Laila diz que a função é também organizacional e estratégica. “Precisamos entender o tamanho do projeto, orçamento, quantidade de diárias, se haverá ensaios, se os atores têm agenda disponível. Tudo isso impacta diretamente as escolhas.”

Repercussão na categoria

Segundo as profissionais, a notícia foi celebrada entre os colegas da área. “Produtores de elenco, diretores e outros integrantes do audiovisual celebraram o reconhecimento e a valorização de uma função que sempre foi essencial, mas muitas vezes invisível ao público”, comenta Daniela. Laila destaca que houve até mesmo uma mudança na nomenclatura da profissão:

“Uma das coisas que eu notei foi o pessoal agora clamando o título de direção de elenco, até então comumente chamada de produção de elenco. Acho que isso indica pra indústria que nosso papel é tão determinante para qualidade do filme quanto a direção de foto ou direção de arte”.

*Colaboração de Larissa Har

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta sexta-feira, dia 16 de outubro de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio