Arte & Agenda

Espaço Força e Luz recebe prêmio do Iphan por promover inclusão de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+

O projeto premiado desenvolve ações de incentivo à diversidade no setor da economia criativa desde 2021

Em sua 37ª edição, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade é um mecanismo de reconhecimento criado pelo governo brasileiro com foco na área de patrimônio cultural
Em sua 37ª edição, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade é um mecanismo de reconhecimento criado pelo governo brasileiro com foco na área de patrimônio cultural Foto : Victor Scub / For Real Company / Divulgação / CP

Entre os vencedores da 37ª edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), está o Espaço Força e Luz, centro cultural localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, na Rua dos Andradas.

O reconhecimento veio pelo desenvolvimento do “Programa de Inclusão para Promoção da Diversidade de Agentes na Economia Criativa”, que, desde 2021, promove ações afirmativas voltadas à democratização do acesso de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ à atuação na economia criativa e na proposição de projetos culturais.

A premiação, considerada a mais importante do país na área de patrimônio cultural, teve como tema em ao implementar estratégias que vão desde editais inclusivos até oficinas, feiras, exposições, seminários e ações educativas com foco em representatividade.

Veja Também

Sobre o projeto premiado

O programa, segundo dados institucionais apresentados ao Iphan, impactou mais de 44 mil pessoas entre 2021 e 2023. Todas as 24 iniciativas culturais realizadas nesse período foram lideradas por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, com destaque para a presença de mulheres (50%), pessoas não binárias (20%), travestis (12,5%) e pessoas negras (8%) entre as proponentes.

A ação nasceu de uma demanda social identificada pela equipe da instituição, a partir da escuta com frequentadores, parceiros e agentes culturais da região. A ideia foi romper com entraves históricos de acesso e criar um modelo de gestão mais horizontal, com oportunidades reais para artistas dissidentes ocuparem espaços institucionais com autonomia.

Além da programação voltada ao público, a própria composição da equipe passou a refletir esses valores.

Atualmente, 100% das lideranças dos núcleos do Espaço Força e Luz são ocupadas por mulheres e/ou pessoas LGBTQIAPN+.

“A representatividade no campo interno da instituição muda completamente o que a gente produz como conteúdo. A gente vive o que propõe. Não é curadoria sobre o outro, é com o outro, é sendo o outro”, afirma Verônica Mattos, diretora-presidente da Fundação Força e Luz.

A gestora do núcleo Educativo-Cultural, Marina Feldens, destaca o impacto das ações no público escolar. “Sabe aquele exercício de tu olhar uma turma de crianças ou adolescentes e tu te identificar com uma delas? Tipo ‘eu era aquela criança’. Isso aconteceu várias vezes”, relata a gestora.

“Eu tenho olhares na minha memória. Das crianças que eu vi que, visivelmente, tiveram uma experiência transformadora. Elas sabem que estão num lugar onde elas podem ser elas mesmas. Essa é a sensação mais marcante: ver crianças se identificando.”

Entre os destaques da programação esteve a exposição “Ser Trans – Des/Identidades e Impermanência”, de Gabz 404, artista trans não-binário, que transformou a galeria em espaço de fala e memória da comunidade trans.

A mostra foi encerrada com um baile de Ballroom aberto ao público. “...Quando as pessoas imaginam um museu de preservação, de história, já pensam em uma moldura, um vidro, uma proteção. Esse lugar quase intocável que a moldura representa”, lembra. “Já o lambe é uma coisa que eu encontro na rua. Assim como nós, pessoas trans, que estão nessa marginalização.”, contou Gabz.

Além das exposições, o programa realizou feiras como a Calçada Cuir, que reuniu artistas e empreendedores trans; oficinas de mediação cultural, de desenho e de contação de histórias; rodas de conversa sobre representatividade e inclusão; e eventos com coletivos como o MUTHA — Museu Transgênero de História e Arte.

Essas atividades não só movimentaram a cena cultural da cidade, como também atuaram na preservação de saberes populares e dissidentes, como a cultura ballroom, por meio de treinos, eventos e registros audiovisuais que garantem sua difusão.

De acordo com a gestão do centro cultural, ao premiar o Espaço Força e Luz, o Iphan reconhece não apenas um programa, mas um modelo de atuação que “entende o patrimônio como algo vivo, plural e em constante disputa. Um patrimônio onde cabem outras vozes, outros corpos, outras formas de existir”.

“Eu sei que é pequeno, é uma gota no oceano de coisas que a gente tem para fazer, mas me toca de uma forma que eu penso ‘meu Deus, estamos fazendo certo o trabalho. Está tudo bem’,” finaliza Verônica. “É uma gota no oceano, mas é a nossa gota.”


Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta terça-feira, dia 21 de julho de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio