Nada une gerações como os brinquedos. A curiosidade das crianças e a nostalgia dos adultos são a receita para o sucesso da exposição “Uma Viagem ao Mundo dos Brinquedos”, inaugurada nesta terça-feira, dia 14, no Farol Santander Porto Alegre. Já na abertura, o Grande Hall do prédio histórico estava lotado de crianças e adultos fascinados pela coleção de Ana Caldatto.
Diferente da edição realizada em São Paulo, que contou com espaço reduzido e acervo de 1.000 itens, a mostra em Porto Alegre ganhou proporções monumentais: são 1.500 brinquedos das décadas de 1940 a 1980, além de cenários ampliados e interativos totalmente gratuitos para o público gaúcho com visitação até o dia 13 de dezembro, de terça a sábado, das 10h às 19h e domingo e feriados, das 11h às 18h.
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Três núcleos históricos: da intimidade do lar à explosão das ruas
A exposição está dividida em três núcleos temáticos que apresentam a evolução dos brinquedos e sua relação com os costumes da sociedade brasileira. A expografia transforma móveis e televisões antigos em vitrines para brinquedos e reserva espaços interativos para brincadeiras com blocos de madeira para construir com a imaginação ou que recriam um jogo de boliche ou pebolim.
Há também um setor que se assemelha a um verdadeiro gabinete de curiosidades, expondo os álbuns da Copa do Mundo, por exemplo. Toda a ambientação recria cenários domésticos e urbanos que ajudam o visitante a mergulhar no universo das décadas retratadas.
Nos espaços dedicados às décadas de 1940 a 1960, o público encontra brinquedos produzidos em materiais como massa de composição, madeira, metal, papel e porcelana, antes da consolidação da indústria do plástico. A cenografia recria o ambiente interno das residências da época, com cozinhas, geladeiras antigas e armários.
Já as décadas de 1970 e 1980 retratam o momento em que o brinquedo explode para o ambiente externo. É a era do plástico, das bonecas modernas, dos carrinhos de rolimã, dos primeiros robôs eletrônicos, dos videogames rudimentares (como o Telejogo e o Atari) e da febre dos álbuns de figurinhas.
Exposição "Viagem ao mundo dos brinquedos", no Farol Santander
O resgate da corporeidade e o combate às telas
Para o curador da mostra, Gandhy Piorski, a exposição cumpre um papel social em uma época em que a infância é dominada por dispositivos digitais, tema emergente e atual, tratado no novo “Toy Story 5”. Segundo ele, o acervo convida a uma reflexão sobre a necessidade de devolver as crianças ao brincar físico.
"A ideia, na verdade, era ancorar o brinquedo em uma memória material da época, nos mobiliários. [...] Hoje o brinquedo está se virtualizando cada vez mais e, ao mesmo tempo, as crianças também estão desencarnando, saindo do corpo cada vez mais e ficando mais na cabeça, no cérebro. [...] Então, trouxemos essa exposição querendo devolver a criança para o corpo dela", explica o curador Gandhy Piorski.
Ele ainda destaca que o estímulo à memória afetiva dos adultos é o caminho para sensibilizá-los sobre a liberdade das crianças de hoje. "Ao tocar nessa memória, queremos que as pessoas olhem para as crianças hoje e cuidem dessa corporeidade delas, da relação com a matéria, com o espaço da cidade, os quintais", comenta.
Suzi, a "brasileirinha", e a preservação da memória afetiva
O acervo de 1.500 peças pertence à colecionadora e pesquisadora paulista Ana Caldatto, que começou a guardar relíquias ainda na infância para preservar a história de sua própria família, e revela como o acervo segue crescendo por meio da sensibilidade das pessoas. "Às vezes as famílias não têm como preservar os brinquedos antigos, ou alguns netos não os querem mais, e isso acaba indo para acervos. Eu sou agraciada de recebê-los no meu. Então é a memória do brincar sendo preservada."
Entre relíquias que vão de bonecas de papel a clássicos como o robô Arthur, o Ferrorama e os bonecos Falcon, a colecionadora destaca sua paixão pela icônica boneca Suzi, concorrente nacional da Barbie:
"Eu curto colecionar Suzi, assim como qualquer brinquedo, independentemente de serem brinquedos de carrinho, de lata, de bonecas. Mas a Suzi, em questão, o motivo é porque ela é uma boneca que eu chamo de "brasileirinha". Ela veio de um conceito americano, mas foi transformada em uma boneca brasileirinha. Ela tem aqueles trajes, foram criados modelos de roupa para o Brasil."
Um ponto de encontro entre gerações no Centro Histórico
O Head de Cultura do Santander, Marcelo Demétrius, destaca que o espaço foi pensado para promover a interação real entre pais, filhos e avós, funcionando como um contraponto ao isolamento gerado pela tecnologia. "Você observa exatamente isso: pai, filho e avô, todos juntos, mostrando: "Ah, eu tinha isso daqui", com uma memória afetiva impressionante. (...) O brinquedo antigo ativa a criatividade. A tela já traz tudo pronto, você não precisa criar nada. No brinquedo, você é obrigado a criar uma história, a criar uma situação. Isso aguçava muito mais a curiosidade das crianças", aponta.
A montagem em Porto Alegre destaca-se também pela inclusão de itens com forte apelo local, como brinquedos clássicos de futebol de botão com jogadores históricos do Grêmio e do Internacional (como Falcão e Paulo César Caju), além de bonecas que homenageiam a gaúcha Ieda Vargas, eleita Miss Universo em 1963.
Serviço: