A 71ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre enaltece a literatura feminina. Diversos nomes já passaram - e ainda passarão - pela Praça da Alfândega, que segue com o evento literário até o dia 16 de novembro. A programação desta sexta-feira, dia 7, é plural. Na conversa "Mulheres e processos de criação nas artes e na literatura". Daniela Kern e Isabel Nogueira, mais conhecida como Bel Medula, mediam o encontro, que acontece no Clube do Comércio (Rua dos Andradas, 1085), às 16h30min, propondo uma reflexão sobre os caminhos da criação artística a partir da experiência de duas mulheres que transitam entre a música, a literatura e as artes visuais.
“Eu sou compositora, artista sonora, produtora musical e escritora”, apresenta-se Isabel. Natural de Pelotas e radicada em Porto Alegre, é doutora em musicologia pela Universidade Autónoma de Madrid e professora da Ufrgs e coordena o Grupo de Pesquisa Sônicas: Gênero, Corpo e Música. Recentemente lançou, junto ao álbum “Fermentação”, “Metodologia do Encantamento” (Dec Studio), seu primeiro livro de poesias, canções e práticas criativas. As duas obras dialogam entre si: enquanto o álbum valoriza a palavra poética em sua dimensão sonora, o livro reúne poemas e exercícios de criação que convidam a exercitar a sensibilidade.
Já Daniela Kern, professora do Instituto de Artes da Ufrgs, é formada em Artes Plásticas (Ufrgs), mestre e doutora em Letras (PUCRS). Além de atuar na universidade, escreve ficção e poesia, desenha e compõe. “Convivo intensamente com pessoas criativas, muitas delas mulheres”, afirma.
Na mesa, ela pretende, junto de Isabel, discutir a criação sob uma perspectiva feminina e regional: “Vamos partir de nossas experiências de anos trabalhando com processos criativos e de nossas próprias produções, para pensarmos juntas a configuração desse campo para as mulheres, tal como podemos perceber daqui, do sul do Brasil. Também traremos alguns exemplos e relatos de vivências no campo da criação.”, explica Daniela. Ao que Isabel complementa,
“a gente vem há muitos anos, a Daniela e eu, trabalhando com processos criativos e também mantendo as nossas próprias produções. Pretendemos pensar sobre esse campo da criação, como é para mulheres, e trazer as nossas vivências”.
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Sobre seu próprio processo criativo, Daniela vê fortes conexões entre palavra, imagem e som. Ela autografa a obra "Sobre aquele coração que eu desenhei na pedra" (Ed. Patuá), às 18h, na Praça de Autógrafos. “No livro que estou publicando há letras de canções misturadas com poemas mais recentes. Expus também alguns desenhos de figura feminina que também aparecem nos poemas. As vozes e linhas que aparecem em meus desenhos, poemas e canções saem de um mesmo mundo, bem introspectivo”, comenta.
“A obra traz vozes cambiantes e um diálogo pulsante com personagens de teatro e letras de música. Fala de amor, de cotidiano e de constâncias cósmicas.”
Apesar de uma gradual expansão da presença feminina em diversos meios, inclusive na literatura, Daniela aponta os obstáculos que persistem:
“Ainda percebo falta de incentivo e de espaço. Os números mostram que não somos premiadas na mesma proporção dos homens. Ainda não há tantas oportunidades quanto as que eles recebem”. Isabel também destaca os desafios que as mulheres ainda enfrentam ao se afirmarem em seus campos. “Falta incentivo, espaço e modelos. Ainda existe uma supremacia de homens nos repertórios tocados por orquestras, nas premiações, nas bienais. E há também a questão da sobrecarga de trabalho. O campo da arte, da poesia e da música ainda não oferece tantas oportunidades para mulheres como oferece para os homens”, finaliza.