Na TV, pelo celular, em casa ou na rua, a gastronomia tem, nos últimos tempos, conquistado sua posição de elemento cultural e vem ganhando um espaço ainda maior no dia a dia das pessoas. Ligado essencialmente ao lazer, esse cenário favorável decorreu de uma combinação de fatores em um momento propício: em pouco tempo, dezenas de programas de TV com chefs renomados e celebridades, realities shows que viciam o público e canais do YouTube seguiram a mania mundial de compartilhar fotos de pratos de comida pelas redes sociais.
Todo esse estímulo midiático impulsionou uma reorganização do mercado gastronômico, que começou a se tornar mais democrático e acessível. Quem atesta é Alex Atala, paulistano carimbado como um dos principais chefs do mundo e que reconhece a internet como a grande propulsora da adaptação desse novo perfil do universo da culinária. “Isso, sem dúvida, deixou a cozinha mais popular e provou que mesmo um negócio mais conservador, e até fechado, consegue se adaptar às demandas das novas gerações”, afirmou durante uma visita a Porto Alegre.
Food trucks e os jovens
Essencial, o papel dos jovens consumidores e profissionais da área nesse novo panorama foi o de impor iniciativas diferentes ao setor, mesmo sem garantias de sucesso. O exemplo mais nítido é o food truck, uma tendência global que se difundiu em Porto Alegre no último ano ao se deparar com o entusiasmo e a receptividade da população. Para o chef de cozinha e professor de gastronomia gaúcho Felippe Sica, essa e outras vontades da chamada “geração comida de rua” levaram o mercado a seguir um caminho mais popular, almejado por um grande público. “As pessoas querem sair, comer, conhecer pratos diferentes… Elas veem isso pelas redes sociais, têm acesso a outras realidades e querem que sentir pertencentes a esse movimento também”, reflete, explicando um ciclo natural que faz com que algumas iniciativas ganhem êxito quase imediato.
No caso dos food trucks, foi realmente isso que aconteceu. Eles começaram a despontar no mercado em 2008, nos Estados Unidos, em função da crise financeira, que diminuiu as possibilidades de abrir e manter grandes restaurantes. A saída teve boa aceitação, mas chegou de vez ao Brasil só em 2014, crescendo muito desde então. Para se ter uma noção, a Associação de Food Trucks de Porto Alegre estima que só na capital gaúcha o número desses veículos automotores de comida itinerante saltou de sete para 30 no período – considerando apenas aqueles que já receberam um parecer favorável da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) e da Vigilância Sanitária.
Fora isso, é preciso considerar que eles impulsionaram o cenário de comida de rua. De acordo com a coordenadora do curso de gastronomia da Unisinos, Ágata De Britto, tudo isso gerou novos comportamentos, que se consolidam como uma opção mais fácil de aproximar as pessoas da culinária, já que agrega o interesse de se reunir e o de comer fora de casa. “Só é preciso cuidar para que o sentido do termo não seja abandonado, que não deixam de fazer esses eventos ao ar livre para fazer em shoppings e praças de alimentação… E também evitar que se 'gourmetize' demais a iniciativa, que é uma boa apropriação do mercado”, pondera.
A ressalva diz respeito a outra modinha, que começou a batizar vários produtos com o título de “gourmet”, ou seja, com toques mais refinados, no último ano. Apesar do frenesi, a onda passou, e, conforme os especialistas, os novos movimentos indicam que a aposta de agora é em uma alimentação mais simples. “Acho que o futuro reserva uma comida sempre mais acessível e também menos requintada, favorecendo, em contrapartida, a história dos nossos produtos”, acredita o chef Sica.
Além do prato feito
Esse lado mais “normal” da culinária, com menus organizados com pratos caseiros e tradicionais, é incentivado também por Alex Atala, que aproveita o currículo e a credibilidade para levar à frente o projeto “Eu Como Cultura”. Depois de entregar ao governo federal um abaixo-assinado pedindo que a Lei Rouanet seja revisada e passe a incluir também investimentos em pesquisas e publicações relacionadas à gastronomia, ele aguarda o desfecho da ação chamando a atenção da sociedade brasileira para os pratos e receitas regionais. “Nós precisamos reposicionar nossos discursos, pois há muitos ingredientes locais que ainda não são explorados pela cozinha brasileira, que não é nova”, afirma.
Segundo Atala, além da chamada democratização, a exposição midiática trouxe também um marketing do “bem comer”, explorando uma necessidade cada vez mais urgente de se alimentar melhor e aproveitar toda a cadeia produtiva, considerando efetivamente a agricultura no mercado gastronômico. No entanto, ele avalia que esse processo só irá se firmar na medida em que os chefs estejam mais preparados e conscientes da importância da natureza, e do saber utilizá-la para culinária – algo que começa ainda em sala de aula.
Nesse sentido, as faculdades também têm a função de incentivar a cozinha local, mas o eixo principal continua sendo criar um ambiente que inspire a nova geração. Sica acredita que esse momento atual, encabeçado justamente pelos jovens, é um reflexo dos cursos de gastronomia, que ainda estão em fase de expansão, mas já possibilitam que cozinha seja a primeira opção na hora de prestar vestibular. “Eles permitem a formação de chefs jovens, que começam a trabalhar na área desde cedo, algo que não acontecia antes porque, no caso aqui do RS, o primeiro curso foi implementado em 2004. Então, em função deles, a qualificação tende a aumentar cada vez mais, acompanhada de maiores possibilidades de avanços na área”, projeta, enxergando um futuro ainda mais promissor para a área que até então só decola.
Gastronomia se recicla e ganha perfil democrático e cultural
Com ajuda da mídia e das redes sociais, culinária está se tornando cada vez mais acessível