O espetáculo de dança contemporânea “Mulheres de Plástico” consegue abordar dois temas urgentes em uma única montagem: a misoginia e a sustentabilidade. A estreia deste novo trabalho da Geda Cia. de Dança ocorreu em um final de semana de junho no Estúdio Stravaganza em Porto Alegre. A próxima apresentação está marcada para outubro, no Teatro Olga Reverbel, do Multipalco Eva Sopher (Riachuelo, 1089).
A concepção, a coreografia e a direção são de Maria Waleska Van Helden. Este trabalho aborda com profundidade o tema dos padrões impostos às mulheres e denuncia que muitas “exigências” da sociedade as tornam “perfeitas por fora, silenciadas por dentro”.
As bailarinas entram em cena com as mesmas roupas, cabelos e maquiagem, seguindo um padrão. Aos poucos, cada uma vai contracenando com algum eletrodoméstico ou outro objeto. Em certos momentos, se mostram tão alegres que se percebe a artificialidade da cena, o que resulta em humor. As antigas propagandas são relembradas e, se hoje nos fazem rir, é bom lembrar que não faz muito tempo que elas eram veiculadas.
Todas as artistas no palco estão cercadas de garrafas PET (politereftalato de etileno) de água ou refrigerantes vazias. Os movimentos as fazem caminhar, rolar e encostar nessas embalagens, que ali ficam durante toda a sessão. Os produtos de plástico ora seduzem, ora incomodam. E esta contradição é uma das grandes propostas da coreografia. Uma geração se rendeu aos recipientes plásticos para o armazenamento e conservação de alimentos, com a promessa de praticidade e resistência. E o hábito permaneceu. A resistência é real: objetos de plástico podem levar de 100 a 600 anos para se decomporem na natureza.
Conforme o próprio grupo divulga na proposta deste trabalho, “o plástico, elemento que dá nome ao espetáculo, surge como uma metáfora potente. Material moldável, resistente e onipresente na vida contemporânea, ele simboliza os padrões impostos que tentam dar forma ao corpo e ao comportamento feminino, muitas vezes artificiais, descartáveis e sufocantes. Ao mesmo tempo, carrega uma dimensão crítica sobre consumo, excesso e superficialidade, revelando como essas camadas se sobrepõem à subjetividade das mulheres”.
No decorrer da montagem, cada uma das bailarinas faz um solo em que demonstra algum aspecto da vida feminina a ser questionado. Em certos momentos, elas voltam a se encontrar, agora desgrenhadas e com movimentos repetitivos, que demonstram o cansaço do cotidiano. O elenco é composto por Carini Pereira, Clarissa Gomes, Consuelo Vallandro, Débora Rodrigues e Graziela Silveira. As bailarinas apresentam ótima técnica e interpretação.
Além da dança e da atuação das artistas, este trabalho conta ainda com imagens de vídeo, que vão sendo expostas em um telão enquanto as mulheres dançam. E aqui aparece um extenso trabalho de pesquisa sobre o que a luta feminina já passou ao longo dos séculos para que hoje a mulher possa trabalhar, escolher com quem se casar e o destino que lhe aprouver. Isso quando há chance de escolha.
São várias as mulheres citadas, entre estrangeiras e brasileiras, que marcaram esta luta. Entre estas, a compositora Chiquinha Gonzaga e a escritora Carolina Maria de Jesus.
A questão dos feminicídios e da misoginia também entra através de números e pesquisas, que entram por áudio e vídeo, fazendo com que o espetáculo conte com o poder da informação. Desta forma, o grupo Geda reafirma seu trabalho de uma arte conectada ao seu tempo e às urgências do presente. Este é um espetáculo que merece ser assistido e, se possível, ter uma conversa no final, como ocorreu na estreia. É muito enriquecedor. Sim, ainda há muito a dizer e debater sobre os temas que “Mulheres de Plástico” traz à tona.