A escrita autoficcional de Édouard Louis é de um lirismo pop lindo, mas ao mesmo tempo dura, visceral, que tem a cumplicidadade do leitor. O ator Tiago Martelli convidou Malu Galli para viver um papel muito instigante entre os personagens do autor, o da mãe do autor, Monique Bellegueule, retratada principalmente em dois livros dele, publicados no País pela Todavia: “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”. A adaptação dos dois textos por Pedro Kosovski, com direção de Inez Viana, fez com que estreasse em janeiro o espetáculo “Mulher em Fuga”, com Tiago no papel de Édouard e Malu no de Monique. A peça tem temporada no Teatro Simões Lopes Neto (Riachuelo, 1089) de hoje a domingo: sexta e sábado, 20h, e domingo, 18h, com ingressos no site do Theatro São Pedro.
A montagem estreou em São Paulo. A trama acompanha Monique, a mãe do autor, em diferentes momentos de sua vida, expondo engrenagens sociais que silenciam e subjugam mulheres da classe trabalhadora. Entre luta e libertação, Monique insiste em recomeçar. Édouard Louis participa da peça por meio de voz off, na cena em que ele e a mãe conversam ao fone.
A adaptação e a direção
A adaptação de Pedro Kosovski aproxima as duas vozes – mãe e filho – em um gesto cênico que evidencia o conflito e o afeto, a memória e a insurgência presentes na obra de Louis. A direção sensível e precisa de Inez Viana potencializa essa dimensão íntima e política, construindo um espaço onde literatura e performance se encontram para iluminar temas urgentes.
A visão do idealizador
Idealizador do projeto, Tiago Martelli integra a criação artística desde a origem. “Na obra de Louis, encontrei uma narrativa que nos confronta com a coragem, a vulnerabilidade e a reinvenção de uma mulher que se recusa a desaparecer. A adaptação é um gesto de cuidado, um ato político e uma homenagem às mulheres que lutam para reconquistar as próprias vozes.”,
A força da personagem Monique
“Tudo que acontece na peça é do livro. O trabalho do dramaturgo Pedro Kosovski. É um tiro, uma explosão de dramaticidade e potência. A Monique é uma mulher extraordinária. Poderia ser uma mulher comum, dona de casa, mãe de cinco filhos, mas nenhuma mulher é comum, principalmente naquele cenário desolado, de miséria. A Monique não se rendia a todas as violências que ela sofria. Ela fugiu três vezes das realidades com os homens, mas sempre acreditando no amor. Acabava caindo em relação abusiva de novo, mas sempre saía fora e pegava as crianças, sem garantia, sem dinheiro”, conta Malu, lembrando da força de Monique. “Ela é uma fortaleza, com bom humor e tiradas geniais. Uma mulher com pulsão forte, uma guerreira, revolucionária, que queria viver. E a história tem um final feliz, pois a gente tem oportunidade de conversar com o Édouard e ela está ótima atualmente”, pontua a atriz.
O impacto da montagem
A montagem marca um encontro importante entre literatura contemporânea e cena teatral brasileira, propondo reflexões sobre violência de gênero, apagamento das histórias da classe trabalhadora e o poder das narrativas pessoais na construção da memória coletiva.
Confira a entrevista com a atriz Malu Galli: