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“Gota d’Água – no tempo” volta ao palco 20 anos depois em Porto Alegre

Montagem chega ao 33º Porto Alegre em Cena nesta segunda e terça-feira

"Gota d’Água" volta ao palco 20 anos depois com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi
"Gota d’Água" volta ao palco 20 anos depois com Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi Foto : Barbara Campos / Divulgação / CP

Vinte anos depois de interpretarem Joana e Jasão, Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi, ao lado do elenco e músicos da Cia. Coisas Nossas de Teatro (SP) voltam aos personagens em “Gota d"Água – no tempo”, montagem do clássico de Chico Buarque e Paulo Pontes. O espetáculo será apresentado nesta segunda e terça, às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto (Riachuelo, 1089), dentro da programação do 33º Porto Alegre em Cena, com ingressos disponíveis no site do evento.

A nova versão mantém princípios da montagem realizada em 2006, mas incorpora as experiências acumuladas pelos artistas ao longo de duas décadas. Georgette, que interpreta Joana, também assina a direção geral, em parceria com Cristiano na codireção.

“Vinte anos é bastante coisa. A vida muda a gente e o teatro carrega o que a vida traz”, afirma. Segundo ela, a maturidade trouxe uma atuação mais precisa. “Hoje a gente vai mais direto ao ponto. É uma atuação mais sintética, talvez com mais compreensão do que está sendo dito”, explica.

Para Cristiano, que retorna ao papel de Jasão, o reencontro também exigiu novas escolhas. Em 2006, o ator estava mais próximo da idade do personagem e agora precisou construir em cena um homem mais jovem. “Esses 20 anos trouxeram muita coisa, tanto para a nossa vida pessoal quanto para o país e para o mundo”, diz.

Escrita em 1975, durante a ditadura militar, a peça transpõe a tragédia de “Medeia”, de Eurípides, para a fictícia Vila do Meio-Dia, comunidade periférica do Rio de Janeiro. Joana é abandonada por Jasão, que decide ascender socialmente ao se casar com Alma, filha de Creonte, proprietário do conjunto habitacional onde vivem. A história de amor rompido se transforma, assim, em uma tragédia marcada por desigualdade, luta de classes e relações de poder.

Um texto se torna um clássico ao manter sua essência ao abordar temas contemporâneos. “Medeia”, sendo um épico, transfere sua permanência para “Gota d"Água” , o que não surpreende Georgette. “É uma peça extremamente atual. A gente não precisa nem falar sobre isso, porque se a gente remontar daqui a 30 anos, ela ainda será atual”, afirma.

A atriz destaca principalmente as questões relacionadas à condição da mulher e à luta de classes.

“Acho que a gente vai assistir durante muitas décadas a mulherada ainda ter que se dizer igual, se proclamar igual e não sofrer nenhum tipo de abandono, que é o caso do espetáculo”, afirma.

A diretora também identifica na peça uma discussão que permanece ligada às estruturas econômicas e sociais. Para ela, “Gota d"Água” é, fundamentalmente, uma obra sobre luta de classes. Algo com que Cristiano concorda. “É uma repetição da engrenagem. Ela continua acontecendo. Hoje, daqui a dez anos, a gente vai se reconhecer ali”, afirma o ator.

Dirigir de dentro da cena

Uma das particularidades de “Gota d"Água – no tempo” está no fato de Georgette dirigir o espetáculo enquanto interpreta sua protagonista. Para ela, a própria natureza de Joana favorece essa dupla função. “Ela é forte, ela é mandona, ela ocupa o palco. Então, de Joana mesmo, você está fazendo a cena. Você pode falar: "Levanta essa luz, abaixa isso aqui, vem para cá, entra fulano"”, conta.

A encenação, construída em formato de arena e com poucos elementos, também permite que a atriz mantenha atenção simultânea à interpretação e à organização do espetáculo. “Eu não preciso necessariamente me ausentar da minha função de atriz para poder trabalhar como diretora”, explica.

Cristiano também assina a codireção, mas encontrou uma dinâmica diferente. Como Jasão, preferiu concentrar os direcionamentos principalmente nos momentos em que estava fora de cena. “Dentro de cena ficava uma coisa quase hierárquica, difícil de lidar. Ali tinha que ser mais de ator para ator”, afirma.

O processo também contou com a participação dos demais integrantes do elenco. Segundo Georgette, os atores contribuíram diretamente para o trabalho de direção, observando as cenas e apontando mudanças necessárias. A experiência resultou em uma montagem que os artistas consideram mais rigorosa que a anterior. “A nossa exigência de qualidade subiu”, diz Georgette. “A montagem anterior era uma imagem boa, fez bastante sucesso, mas tinha muitos buracos, muitas coisas não estudadas. Dessa vez a gente fez um trabalho mais preciosista, mais delicado.”

Mais música e proximidade ao público

Uma das novidades é a ampliação do trabalho musical. Canções que estavam no texto original, mas não haviam sido utilizadas na primeira montagem, como “Flor da Idade” e “Bem-querer”, passam a integrar o espetáculo.

Com músicos em cena, a produção amplia a dimensão sonora da peça e busca construir uma paisagem que ajude a caracterizar a comunidade. “Trouxemos mesmo essa Vila do Meio-Dia, essa paisagem sonora que antes não existia”, afirma Cristiano.

A encenação mantém a estética crua da versão anterior, com poucos recursos tecnológicos, sem microfones e em formato de arena. Parte do público poderá acompanhar a apresentação a partir do próprio palco, ficando próxima dos atores. “O objetivo é bem simples: transformar o público na Vila do Meio-Dia”, explica Cristiano. A proximidade reforça a proposta de um teatro direto, no qual o corpo dos atores e a força do texto ocupam o centro da cena.

Em Porto Alegre, o espetáculo encontra ainda uma plateia que teve contato com a obra no ambiente escolar: “Gota d"Água” integrou a lista de leituras obrigatórias do vestibular da Ufrgs em 2018. Para os artistas, retornar à Capital pelo festival também representa uma espécie de reencontro com a própria história da montagem, que esteve no Porto Alegre em Cena há duas décadas.

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