Arte & Agenda

Gustavo Falcão celebra 31 anos de carreira e papéis importantes

Artista pernambucano estrela "Elize: Sombras de Uma Mulher" na Netflix e "Ben Hur" na Record em outubro

Ator Gustavo Falcão é um dos destaques do filme ‘Elize: Sombras de Uma Mulher’, que estreou no dia 22 de julho na Netflix
Ator Gustavo Falcão é um dos destaques do filme ‘Elize: Sombras de Uma Mulher’, que estreou no dia 22 de julho na Netflix Foto : Leonardo Bonato / Divulgação / CP

O ator Gustavo Falcão é um dos destaques do filme “Elize: Sombras de Uma Mulher”, que estreou no dia 22 de julho na Netflix. Dando vida a Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, ele mergulhou na complexidade emocional do personagem, um homem que caminha entre as sombras e a luz. Contracenando com Henrique Kimura e Lorena Comparato, que interpretam Marcos e Elize, respectivamente, Falcão ressaltou a densidade da dinâmica entre os três personagens. O ator procurou construir, com sua interpretação, uma narrativa complexa e instigante, que vai além do sensacionalismo. Além do filme, também está presente na nova adaptação de “Ben Hur”, da Record, que tem estreia inicialmente prevista para outubro. Na série, ele interpreta Élio, o governador romano da Judeia.

No filme “Elize”, como descreves o personagem Heitor, o melhor amigo de Marcos Matsunaga?

Heitor é ambicioso, narcisista, inescrupuloso e ávido por dinheiro e poder. Tem uma amizade sólida com Marcos e um afeto genuíno por sua família.

Como foi mergulhar na complexidade emocional de teu personagem, um homem que caminha entre as sombras e a luz?

Heitor é um homem diferente de mim em quase tudo, e isso é muito instigante, do ponto de vista artístico, obviamente, mas também do ponto de vista pessoal. Porque me dá a oportunidade de investigar a fundo a complexidade humana, o que é o material de meu trabalho. Ele tinha, no roteiro, alguma inspiração em figuras reais, mas não havia uma correlação direta com ninguém especificamente - como é o caso dos personagens da própria Elize, do Marcos, e de sua família. Então, na minha cabeça, pude criar um personagem completamente ficcional. Heitor surgiu muito das sessões de preparação em que interagi com Henrique Kimura (que interpretou o Marcos) e Lorena Comparato (Elize), conduzidos pela preparadora Maria Silva. Muitos elementos, como o sotaque que criei para o personagem, nasceram das trocas que tive com Felipe Vellas, diretor do filme.

Como encontraste o equilíbrio para interpretar a dualidade entre o vilão e o herói?

Cada personagem é uma teia de descobertas e desafios. No caso do Heitor, que não tem nada de heroico ou virtuoso, exatamente, procurei deixar aflorar instintos enquanto buscava no roteiro onde poderia explorar seus aspectos racionais e também de que maneira poderia manifestar aspectos mais humanos, como afeto e empatia, e vi que isso se dava na relação de amizade com o Marcos e toda a sua família. Percebi que essa conexão poderia ser o esteio de sustentação que daria credibilidade e humanidade a Heitor.

Qual o questionamento que o filme “Elize” deixa no ar?

Espero que o filme possa trazer reflexões a respeito do caso e de aspectos que ele toca. A função da arte é vasculhar a alma humana, seus caminhos, razões e desrazões, nunca decretar sentenças. A perspectiva do filme coloca Elize no centro da história, e isto conecta o espectador com uma personagem que cometeu um ato violento e que, por outro lado, sofria abusos. O filme não toma partidos, para provocar mais perguntas que respostas. E, honestamente, não acho que hajam respostas simples para tudo o que aconteceu, e penso que deixar perguntas reverberarem é o que pode haver de mais interessante para nós e para o espectador.

Em “Ben-Hur”, interpretas Élio, o governador romano da Judeia. Como foi construir o sarcasmo e a astúcia desse personagem em meio ao ambiente de tensões políticas e religiosas da série?

Élio é um homem atrelado à política, às suas virtudes e vícios. Suas características marcantes estão ligadas ao prazer que ele busca incessantemente, e que o privilégio do poder lhe propicia. Ele é um hedonista incorrigível. É muito interessante interpretar personagens tão notadamente imperfeitos, sem deixá-los caricatos.

Houve alguma referência histórica ou contemporânea que te inspirou na construção de Élio?

Sim, tanto referências históricas quanto contemporâneas. A estruturação política e a essência humana se modificaram muito pouco nestes dois mil anos que nos separam da época onde a história acontece. Em termos de comportamento, dinâmica de relações, interações de aspecto político, tudo é muito parecido com os tempos atuais. A política romana ajudou a estruturar as organizações políticas de hoje. Me debrucei muito em estudar as características da região em que se passa a história, entre Antioquia e a região da Judeia (que correspondem a Turquia, Palestina e Israel atuais), assisti ao clássico filme de 1969 e outras produções que retratavam a época.

Nasceste e cresceste no Recife, um celeiro de artistas e movimentos culturais. Quando a arte entrou na rua vida?

Recife me moldou e segue redefinido quem eu sou e o que faço. As minhas raízes, a influência cultural, familiar, pessoal, de tudo o que vi e vivi na infância e adolescência permeiam todos os meus processos. Não sei dizer objetivamente o que o Recife é em mim, mas há esse desejo de transmutar, misturar, ver algo erudito e sofisticado também como popular, sem separação; a inquietação em buscar a originalidade sem se desconectar do público; juntar o que há de particular com o que há de universal… tudo isto é do artista pernambucano, recifense, que sou. De certa forma a arte nasce com a gente do Recife, porque está por todos os lados, está na constituição da gente e da história pernambucanas.

Tua carreira começou em 1995 com a peça “Os biombos”, de Jean Genet. O que te acompanha desde o primeiro trabalho?

Resiste em mim um sentimento que tive no primeiro dia em que subi no palco: de que existe propósito no que faço. A convicção (não na cabeça, mas no coração) de que a arte transforma; e de que há coisas que só a arte transforma. E que por isso ela é fundamental para o ser humano e sua construção social, emocional e política.

Quais dos personagens interpretados ao longo destas três décadas que mais marcou tua carreira? Fala um pouco sobre ele e em que se assemelha contigo.

Todo personagem é marcante, te redefine de algum modo. Um personagem sempre te ensina alguma coisa, se você tiver curiosidade e interesse em investigar a fundo. Mas destaco alguns: Antônio, da peça e filme A Máquina, como uma experiência marcante, pela transformação que provocou na minha vida. O Faísca, da novela As Filhas da Mãe também, pela riqueza de detalhes e delicadeza, em meu primeiro papel na televisão nacional, e o Seu Jujuba, do “Cine Holliúdy”, um personagem versátil e divertido e com o qual pude resgatar minhas raízes e me reconectar com uma história tão brasileira e tão nordestina.

Na atualidade, estás desenvolvendo filme sobre o pintor Cícero Dias em parceria com teu irmão e com a REC Produtores. O que, especificamente, na vida ou obra de Cícero Dias te fascina a ponto de querer adaptá-lo para o cinema?

Muita coisa me fascina nesta história. A trajetória de Cícero, primeiramente. Um "menino de engenho", artista saído ainda criança do interior de Pernambuco que se dedicou à arte e à luta política, que ganhou o mundo e conquistou a confiança e admiração de grandes artistas de seu tempo. Mas, sobretudo, o episódio tem uma força e uma riqueza poética extraordinárias. Ainda não posso comentar muitos detalhes, mas estamos produzindo em parceria com a Rec Produtores, de Recife, e em fase de desenvolvimento do projeto para início de captação.

Dirigiste e roteirizaste o curta “30 Moedas”, que aborda um embate de classes e corrupção sistêmica. A experiência como diretor e roteirista influência nas tuas interpretações?

A experiência como diretor e roteirista tem amplificado minha percepção da cena como um todo, do modo como aquela história está sendo contada, das escolhas de roteiro, direção, fotografia, e também me trazido uma consciência mais expandida do percurso narrativo da história que estou contando. É um sentimento gostoso, a excitação da descoberta de algo novo, de um novo aprendizado sobre algo que já tenho feito há mais de 30 anos.

Transitas entre cinema, teatro e TV. Comparando as experiências recentes — longa da Netflix, "Ben-Hur" e o projeto sobre Cícero Dias — o que cada formato exige de ti, como artista, e como se complementam?

Pensando do ponto de vista dos personagens e seus percursos, os três projetos são oportudades incríveis de investigar a alma e o desejo humano. Heitor é uma criatura mundana, vil, mordaz. Elio é um homem e vulgar, inteligente e poderoso e Cícero é um poeta, um ser político, justo, inquieto. O que você aprende é como desbrava um novo projeto te ilumina e ensina sobre os outros. Em relação aos formatos, também são caminhos e desafios diferentes. O filme da Netflix tinha na sua feitura uma pulsação diferente, intensa e condensada. Ben Hur é muito mais cadenciado, rodado ao longo de meses, muito mais curtido. E o Cícero será um projeto cinematográfico, ainda mais curtido e artesanal. Os tempos de maturação de cada obra se apresentam, e aprender a compreender e respeitar cada processo é essencial.

Que planos tens para o futuro?

Ampliar, diversificar e mesclar as experiências em diferentes áreas artísticas e expandir o alcance dos projetos que tenho desenvolvido. Somente agora estou envolvido em vários projetos, alguns meus, que quero realizar, não somente na atuação. Tenho projetos de teatro, séries e filmes, além de audiolivros que estou louco que aconteçam, que (espero) devem rolar em breve.

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta quinta-feira, dia 15 de outubro de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio