A coletiva de imprensa da homenageada da 21ª CineOP, no final da manhã desta sexta-feira, foi aula de memória e, sobretudo, de independência intelectual. Aos 88 anos, Helena Solberg chegou sem qualquer disposição para alimentar mitologias sobre a própria trajetória. Preferiu revisitar suas escolhas com o olhar de quem nunca teve interesse em seguir cartilhas, nem mesmo aquelas escritas por movimentos que ajudou a construir.
Enquanto a CineOP dedica sua temática histórica às perguntas "Como elas começaram? Memórias do primeiro filme", Helena provoca colocando ênfase em por que ela decide caminhar por estradas diferentes das que todos esperam.
Foi exatamente isso que fez desde o início.
Ao recordar seus primeiros passos, Helena se reconheceu como integrante da geração do Cinema Novo, mas não uma de suas criadoras. Entrou na universidade, aproximou-se de nomes como Cacá Diegues, Arnaldo Jabor e tantos outros que marcariam profundamente a história do cinema brasileiro. Mas fez questão de estabelecer uma diferença fundamental.
"Eu estava interessada nas minhas questões e não nas questões dos outros, como quiseram os cinemanovistas."
A frase sintetiza uma trajetória inteira. Enquanto grande parte do Cinema Novo voltava suas lentes para as grandes contradições sociais, econômicas e políticas do país, Helena escolheu investigar o universo íntimo das mulheres, seus conflitos, seus silêncios e suas escolhas. Seu cinema nunca foi uma oposição ao Cinema Novo. Foi um deslocamento de olhar. Um contracinema dentro do próprio movimento.
Essa perspectiva já estava presente em "A Entrevista", realizado em 1966 e hoje reconhecido como o primeiro filme feminista do cinema moderno brasileiro. Ao reunir depoimentos de jovens mulheres da classe média sobre casamento, sexualidade, trabalho e submissão, Helena fazia a pergunta de :quem escuta as mulheres quando elas falam de si mesmas.
Durante a coletiva, ela também revisitou um dos episódios que ajudaram a redefinir sua carreira: a realização do documentário "Carmen Miranda: Bananas is My Business", lançado em 1995. Segundo contou, geração se carregava uma visão profundamente equivocada da artista.
"Tinha uma visão absurda dos americanos em relação à Carmen Miranda, como caricatura."
Foi justamente essa percepção que a levou a investigar a personagem para além do estereótipo. Seu cinema nunca aceitou versões definitivas da realidade. Preferiu desmontá-las.
A trajetória internacional consolidou essa postura. Radicada nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, Helena criou a emblemática “Trilogia da Mulher” — "The Emerging Woman" (1974), "The Double Day" (1975) e "Simplesmente Jenny" (1977) — produzida pelo International Women's Film Project, coletivo que liderava em Washington. Na década seguinte, voltou seu olhar para as ditaduras latino-americanas em filmes como "Chile, By Reason or By Force" (1983), ampliando o alcance político de sua obra sem abandonar a dimensão humana de seus personagens.
De volta ao Brasil, continuou interrogando a memória nacional com obras como "Carmen Miranda: Bananas is My Business", "Vida de Menina" (2003), "Meu Corpo, Minha Vida" (2017), sobre os direitos reprodutivos das mulheres, e "Uma Carta para Beatrice" (2022), no qual transforma a própria trajetória em objeto de investigação.
Mas talvez o momento mais surpreendente da conversa tenha acontecido quando Helena recusou qualquer tentativa de simplificar sua identidade artística. Ao ser provocada sobre o feminismo, respondeu de forma direta, sem buscar consensos:
"Para mim, o existencialismo é mais importante que o feminismo."
Longe de diminuir sua contribuição para a história das mulheres no cinema, a afirmação revela justamente a complexidade de uma realizadora que sempre recusou rótulos fáceis. Seu cinema nasce das questões existenciais, da liberdade individual e da permanente inquietação diante do mundo. O feminismo aparece não como um slogan, mas como consequência natural de uma obra que devolveu às mulheres o direito de narrar a própria experiência.
Na CineOP, a homenagem a Helena Solberg ultrapassa o reconhecimento de uma carreira exemplar. É um convite para revisitar uma filmografia que jamais aceitou respostas prontas. A CineOP segue até a próxima terça-feira, olhando o cinema, a memória e a restauração, unindo audiovisual e educação em encontros que transcendem fronteiras.