A memória, a justiça e as feridas que o tempo não consegue apagar ganham destaque na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com a primeira exibição, na noite desta quinta-feira, dia 22, de “Retorno a Buenos Aires”, novo filme de Marco Bechis. O cineasta, aliás, recebeu no palco, antes da exibição do filme, o Prêmio Humanidade, das mãos da própria organizadora do evento, Renata de Almeida, nesta edição histórica do evento. Vencedor do Prêmio Francesco Pasinetti de Melhor Filme no Festival de Veneza, o longa chega à Mostra com uma história potente e desafiadora, marcada por atuações talentosas e por uma abordagem sensível das consequências da ditadura militar argentina.
A produção, uma coprodução entre Brasil e Itália, foi filmada em Porto Alegre e Torino, cenários para recriar Buenos Aires. A construção cinematográfica dessa geografia é parte importante do projeto. Por meio da simulação da capital argentina, o filme reconstitui ambientes e atmosferas fundamentais para uma narrativa que transita entre o presente e as lembranças traumáticas de um passado que continua vivo.
A trama se passa em Buenos Aires, em 2008. Depois de 33 anos na Itália, Mariano Guerra retorna à Argentina para testemunhar no julgamento dos ex-militares responsáveis por seu sequestro, tortura e escravização durante a ditadura. Hospedado em uma acomodação disponibilizada pelo Ministério da Justiça, ele reencontra outros sobreviventes que compartilharam seu cativeiro e aguarda o momento de prestar depoimento.
Confira o trailer oficial:
Nesse período, encontros, conversas e relatos reabrem histórias que permaneceram sem solução por décadas. Mariano está entre os poucos que sobreviveram à tragédia e carrega uma experiência que nenhuma sentença judicial é capaz de reparar integralmente. Seu retorno não representa apenas o reencontro com o país de origem, mas também o confronto com a própria sobrevivência, com a memória e com as marcas deixadas pela violência de Estado.
A força de “Retorno a Buenos Aires” está na capacidade de transformar um processo judicial em uma reflexão profundamente humana. Sem perder de vista a importância da responsabilização dos culpados, o filme investiga os limites da justiça diante de sofrimentos irreversíveis e mostra como a reconstrução da memória depende também da escuta daqueles que atravessaram a violência. As interpretações dão corpo a esse universo de silêncios, lembranças e emoções contidas, sustentando uma narrativa exigente e de grande intensidade dramática.
A recepção em Veneza confirmou a relevância da obra. Além de conquistar o Prêmio Francesco Pasinetti de Melhor Filme, o longa provocou uma longa salva de aplausos, reconhecimento que reforça a potência de sua abordagem e a capacidade de dialogar com públicos de diferentes países. A chegada à Mostra paulistana amplia esse percurso internacional e oferece ao público brasileiro a oportunidade de conhecer um trabalho que conecta a história latino-americana a questões universais de memória, dignidade e reparação.
A exibição integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, realizada de 15 a 29 de outubro, que celebra cinco décadas de dedicação à diversidade e à descoberta cinematográfica. São 380 títulos de 93 países, entre longas-metragens, curtas e séries, distribuídos por 57 salas, espaços culturais e Centros Educacionais Unificados (CEUs) da capital paulista. A dimensão do evento reafirma sua importância como uma das principais vitrines do cinema internacional no Brasil.
A abertura oficial para convidados ocorreu no dia 14, na Sala São Paulo, com “Tigre de Papel”, de James Gray, exibido na competição de Cannes. O diretor norte-americano também assina a arte do cartaz desta edição e estará presente no evento. Antes do longa, foi programada a exibição do curta “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho.
Entre obras premiadas nos grandes festivais, produções autorais, experiências experimentais e filmes de diferentes origens, a Mostra reafirma sua vocação de aproximar culturas e ampliar perspectivas. Nesse panorama, a primeira exibição de “Retorno a Buenos Aires” ganha significado especial: ao revisitar uma das páginas mais dolorosas da história argentina, o filme lembra que o cinema pode preservar a memória, questionar o presente e dar voz àqueles cujas histórias não podem ser esquecidas.
Ao homenagear Marco Bechis com o Prêmio Humanidade, a 50ª Mostra reconhece também a importância de um cinema que enfrenta temas difíceis sem abrir mão da complexidade humana. Em uma edição que celebra a trajetória do festival e renova seu compromisso com o mundo, “Retorno a Buenos Aires” se destaca como um convite à reflexão sobre o passado, a justiça e o significado de continuar vivendo depois da tragédia.