No Cine-Theatro Brasil, a 20ª CineBH chegou ao fim na noite deste domingo, dia 27, sem oferecer exatamente uma sensação de encerramento. Talvez porque os filmes que saíram vencedores da noite tenham deixado perguntas abertas, feridas expostas e a impressão incômoda de que o cinema ainda pode ser uma forma de desobediência.
Na noite de premiação, duas obras concentraram vc os holofotes. Do México veio “Nuestro Cuerpo es una Estrella que se Expande”, de Semillites e Tania Hernández Velasco, vencedor da Mostra Território. De Cuba, Espanha e Colômbia veio “Cuba y la Noche”, de Sérgio Fernandez Borras, escolhido como melhor filme da Mostra Horizonte. Dois títulos, dois gestos distintos, e a inquietação do que pode o cinema quando o mundo parece cada vez mais estreito.
Em “Nuestro Cuerpo es una Estrella que se Expande”, o corpo deixa de ser apenas personagem para virar território de invenção. Primeiro prêmio recebido pela dupla, o reconhecimento encontrou um filme interessado no jogo, no risco, na experimentação e na possibilidade de imaginar outras maneiras de habitar o mundo. O júri destacou justamente essa capacidade de transformar o cinema em território vivo, sensível e em permanente movimento.
No palco, a emoção tinha algo de político. Semillites falou de um “cinema transrevolucionário que resiste”. Tania Hernández Velasco evocou os ancestrais e Abya Yala. Num festival dedicado a pensar os territórios do cinema contemporâneo, o México respondia com um filme que parece dizer que nenhum corpo, nenhuma identidade e nenhuma linguagem precisam aceitar as fronteiras que lhes foram impostas.
Se Território premiou a expansão, Horizonte premiou a tensão.
“Cuba y la noche”, vencedor da mostra competitiva pela primeira vez, trabalha com mínimos elementos para produzir uma narrativa carregada de eletricidade. O júri ressaltou a articulação entre forma e discurso e o uso do mundo virtual para investigar as contradições entre Estado e sociedade.
Ao receber o prêmio, Sérgio Fernandez Borras dedicou a conquista a artistas perseguidos e às mães cubanas que buscam uma solução para o país.
A noite também reservou espaço importante para o cinema brasileiro. “Telúrica: a íntima utopia”, de Mariana Lacerda, recebeu destaque do júri de Território por sua capacidade de “produzir presença” ao acompanhar os processos criativos da Cia. Teatral Ueinzz. Já “Sabes de mim, agora esqueça”, de Denise Vieira, foi celebrado na mostra de longas de estreia pela liberdade estética, pela diversidade dos corpos e pela abordagem franca do desejo e da prostituição. Denise resumiu o espírito da noite numa convocação direta: fazer filmes “com muito tesão”.
O Júri Jovem acrescentou outra camada ao evento. “Jankee”, de Yamel Thompson, do México, foi reconhecido na Mostra Horizonte por desmontar linearidades, subverter o pacto documental e tensionar a intimidade entre câmera e personagem. Um prêmio que aponta também para o olhar de uma nova geração sobre os limites de quem filma e de quem é filmado.
E outro coração pulsante da festa foi o Brasil CineMundi e sua premiação. Em sua 17ª edição, o encontro mostrou que o cinema precisa encontrar produtores, parceiros, coproduções e caminhos para existir.
O principal prêmio do júri oficial foi para “Muganga”, de Rodrigo Ribeyro, produzido por Julia Alves. O projeto foi escolhido por “reunir visão cinematográfica, relevância contemporânea, direção artística e uma produção capaz de conduzir o filme para além das fronteiras brasileiras”.
Outros projetos saíram fortalecidos, entre eles “Bom retorno”, de Breno Alvarenga, “Fogo adentro”, de Daniel Calil, “A luta que não pode parar”, de Ewerton Belico, “Aña, de Mariana Lacerda, e Primas, de Bruno Gularte, que receberam diferentes reconhecimentos dos parceiros do CineMundi.
No fim, talvez o grande prêmio da 20ª CineBH seja reunir projetos que ainda nem chegaram à tela, mas já disputam um lugar no cinema que virá.
LISTA DE PREMIADOS
MOSTRA HORIZONTE
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem – JURI OFICIAL HORIZONTE
CUBA Y LA NOCHE
Direção/Dirección: Sérgio Fernández Borrás
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL HORIZONTE
SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
Direção/Dirección: Denise Vieira
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem – JURI JOVEM HORIZONTE
JANKEE
Direção/Dirección: YAMEL THOMPSON
MOSTRA TERRITÓRIO
Mejor Largometraje / Melhor Longametragem JÚRI OFICIAL TERRITÓRIO
NUESTRO CUERPO ES UNA ESTRELLA QUE SE EXPANDE
Direção/Dirección: Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL TERRITÓRIO
TELÚRICA: A ÍNTIMA UTOPIA
Direção/Dirección: Mariana Lacerda
PRÊMIO ABRACCINE
LA VIDA QUE VENDRÁ
Direção/Dirección: KARIN CUYUL
PRÊMIOS PROJETOS 17º BRASIL CINEMUNDI
JÚRI OFICIAL – 17BCM – Joana Oliveira, Fred Burle, Jesús Pimentel
MUGANGA, DIREÇÃO DE RODRIGO RIBEYRO E PRODUÇÃO DE JULIA ALVES.
WIP - O2 PÓS – Ana Sanz
PRÊMIO 1º PROJETO
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
PRÊMIO 2º PROJETO
FOGO ADENTRO, DIREÇÃO DE DANIEL CALIL, PRODUÇÃO DE RENATO OGATA, ELIANE FERREIRA, LUDMILA RODRIGUES.
WIP – MISTIKA – Eduardo Gasparian
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
WIP - THE END - Maisa Joanni
SOL A PINO, DIREÇÃO DE ANA DO CARMO E PRODUZIDO POR RUBIAN MELO.
FOCO MINAS – CINECOLOR, CTAV, EDINA FUJII, PARATI FILMS – Yanis Gaye
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR, DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
DOCBRASIL – CINECOLOR, CTAV, DOT, EDINA FUJII, O2 PÓS, PARATI FILMS – Leonard Cortana
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
CONECTA – Paola Castillo
AÑA, COM DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA E PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
DOCSP – Paulo de Carvalho
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO BARRETO E PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
DOCSP STUDY CENTER– Paulo de Carvalho
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
#LINK – Isona Admetlla
1º PREMIO
EM NOME DO PAI E DO FILHO, DIREÇÃO DE GABRIEL FREIRE, PRODUÇÃO DE MARÍLIA CUNHA.
2º PRÊMIO
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
RIDM – Séverine Roinssard
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
EURODOC – Leonard Cortana
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
CASA LATINA FILMS – Gregório Rodriguez
1º PREMIO
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
2º PRÊMIO
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
NUEVAS MIRADAS – Ivette Liang
O PRESIDENTE NEGRO, DIREÇÃO DE GABRIEL F. MARINHO, PRODUÇÃO DE CAROLINA VILLALOBOS
BURNING – Diego Castillo
CAVALO, COM DIREÇÃO DE VALENTINA HOMEM E PRODUÇÃO DE MAYRA FAOUR AUAD.
MECAS – Paulo de Carvalho
BOI DE CONHAS, DIRECCIÓN DE DANIEL BAROSA, PRODUCCIÓN DE SABRINA GARCIA E NIKOLAS MACIEL.
MAFF / PROJETO PARADISO – Leo Ordonez
KIKI – UMA PONTE ENTRE MUNDOS, DIRIGIDO POR DARIO ALDANA, WERÁ ALEXANDRE E PATRICIA PARA YXAPY, E PRODUZIDO POR SIRLI FREITAS.
FILMES DE PLÁSTICO – Maurílio Martins e André Novais
DONA DA MINHA CABEÇA, DIREÇÃO DE NASH LAILA, PRODUÇÃO DE LETÍCIA SIMÇES E JOÃO VIEIRA JR.
MENÇÃO ESPECIAL, com consultoria coletiva
BPM: BATIDAS PELO MUNDO, DIREÇÃO DE GABRIEL MARCOS, PRODUÇÃO DE MARINA SOARES