*Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes
Quando se pensa no gaúcho, o que vem à mente? A representação campeira, que toma chimarrão de bombacha e pilcha, é relembrada como parte essencial da tradição gaúcha, que é celebrada neste domingo, dia 20 de setembro, data que marca o início da Revolução Farroupilha em 1835. Olhando para as comemorações, é difícil lembrar que gaúcho, um dia, já foi ofensa.
“Sempre brinco quando eu dou alguma aula assim, se a gente pudesse pegar uma máquina do tempo, fosse falar com o Bento Gonçalves e chamasse ele de gaúcho, provavelmente ele ia dar um tiro na gente”, ironiza Jocelito Zalla, professor do Colégio de Aplicação e do programa de pós-graduação da Ufrgs. Zalla conta que o gaúcho, durante o século 19, era associado a um tipo errante e marginal e foi apenas a partir das décadas de 1920 e 1930 que esse estigma começou a ser ressignificado. Ao mesmo tempo, esse processo mesclou a figura do gaúcho e do farrapo, criando o símbolo do gaúcho heroico, embranquecendo e idealizando a memória desse personagem. “Tende a ser uma imagem muito fantástica em relação ao que era o gaúcho histórico”, completa o professor.
O tradicionalismo, com figuras como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, resgatou o imaginário que é homenageado atualmente. Entretanto, ao observar a diversidade do pampa, nem todos os gaúchos se parecem com o Laçador. Em um processo de resistência a essa representação única, há artistas que, com seus trabalhos, buscam repensar e ampliar a imagem que simboliza o Rio Grande do Sul.
Cultura sempre em movimento
Clarissa Ferreira é uma das artistas que dedicam sua obra a investigar quem construiu o que hoje é visto como cultura gaúcha, quais sujeitos foram colocados no centro da narrativa e quais foram silenciados ou deixados às margens. No espetáculo “Sul-Realismo”, em uma brincadeira com a sonoridade da palavra surrealismo, ousa-se imaginar um Rio Grande do Sul cem anos no futuro, misturando ritmos do Sul e da fronteira, música eletrônica, literatura, dança, projeções e elementos da indumentária gaúcha. Também é autora do livro “Gauchismo Líquido”, que traz reflexões sobre a cultura do Rio Grande do Sul.
“Meu trabalho procura pensar o folclore não como uma coleção de objetos congelados no passado, mas como um processo vivo de criação, transmissão, seleção e disputa. O folclore não caiu pronto do céu”, diz a compositora e pesquisadora. A partir do entendimento que as culturas estão sempre em movimento, Ferreira defende que não existe apenas uma cultura gaúcha e que o Rio Grande do Sul é formado por experiências indígenas, negras, fronteiriças, rurais, urbanas, litorâneas, missioneiras, serranas e periféricas. “Talvez, portanto, eu já nem pense ‘num gaúcho’. Penso em muitas pessoas tentando responder, cada uma à sua maneira, o que significa pertencer ao Sul”.
Novos protagonismos
Em um caldeirão de referências, a peça “Día de Yerra – Um Certo Édipo”, dirigido por João Monteiro, utiliza-se do mito de Édipo para falar sobre como a cultura gaúcha afeta os corpos dissidentes, para modificar o imaginário, trazendo o gaúcho para o centro da questão a questão da sexualidade.
A partir do termo “Yerra”, que designa o dia de marcação do gado a ferro quente na pecuária dos pampas, Monteiro propõe questionar a sociedade gaúcha sobre a marca que existe antes mesmo do homem nascer. Com um nome em portuñol, a produção também destaca a identidade mista do gaúcho brasileiro, que se mistura com a figura do gaucho no Uruguai e na Argentina.
Ocupar espaços
“Tem esse lado meio vulgar, meio de um não purismo, uma coisa meio bagaceira. Então, também esse não purismo da minha dança, porque a minha dança ela de pura não tem nada e, na verdade, o gaúcho também não”, conta Emily Borghetti, idealizadora do espetáculo “CHULA”. Embora a tradição gaúcha a considere historicamente uma dança masculina, Emily Borghetti pratica a chula, dança de sapateado rápido baseada em desafios.
Nesta Expointer, Borghetti foi chamada para uma apresentação. Na coreografia original, era ela que ganhava o desafio. A artista, contudo, deu outra ideia. “Bah, mas o que que vocês acham se a gente, no final da coreografia, chulear juntos? Ninguém vai ganhar, ninguém vai perder, todo mundo tem que ganhar”, disse ela aos outros chuleadores. “Achei muito bonito, mas ainda assim eu era uma mulher e 12 homens. Tomara que num próximo ano, nós [mulheres] sejamos 12”, ela enfatiza.
Quando começou a dar aulas em CTGs, a artista conta que percebeu que todas as prendas sabiam dançar chula. “Também me dei conta que eu aprendi a dançar chula com a minha mãe. Então não é que as mulheres não dançam chula, é realmente que não tem espaço para isso e que não se fala disso, porque dançar, dança”, ela chama atenção.
Tradições cada vez mais modernas
“A tradição é uma imagem construída por alguém. Tudo é imagem e acho que quando tu questiona a própria imagem em si, daquilo que tu tá fazendo, a própria criação de imagens, tu já tá questionando a tradição”, diz o artista Fabio Spolti. Em seu trabalho “Livro dos gaúchos imaginários”, Spolti cria, a partir de um remix de imagens, fotografias de gaúchos geradas por inteligência artificial.
Elementos gaúchos tradicionais aparecem misturados a referências à moda e à cultura urbana. Seja misturando camisetas de time com bombacha ou um chimarrão e um Tamagotchi (personagem virtual em formato de chaveiro), o artista questiona os limites entre tradição e modernidade, o real e o irreal.
Surgem novas vozes
Rosa Nika, ao trazer uma linguagem pop à canção gaúcha, também aproxima a tradição da modernidade. “Eu cresci muito bagual”, brinca ela, ao comentar sua relação com a música tradicionalista. A cantora destaca a música “Cavala Xucra”, que entende como uma releitura do que os cantores missionários faziam, ao falar sobre a relação entre cidade e campo, patrão e proletário.
Rosa Nika ressalta que o objetivo não é renegar o legado gaúcho, mas ampliar a visão do que é essa identidade. “Quero que outras pessoas possam se reconhecer como muito baguais e muito presentes dentro da sua própria cultura”.