*Sob supervisão de Luiz G. Lopes
São apenas três filmes do Rio Grande do Sul na nova lista de “100 filmes brasileiros essenciais”, organizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e divulgada em maio deste ano. A votação passou por uma mudança: ao invés de eleger os 100 melhores filmes brasileiros, como no ranking de 2016, a associação decidiu nomear os mais importantes para a história do cinema no Brasil. Quem são, portanto, os escolhidos para entrar nesse cânone cinematográfico? Entre os gaúchos, todos têm uma característica em comum: são obras que passaram por restaurações.
Considerado um dos maiores cineastas do Rio Grande do Sul, Jorge Furtado ocupa duas posições na lista, com “Ilha das Flores” no 69° lugar e “Saneamento básico, o filme” em 87°. Em 2025, ambos foram restaurados em 4K através do projeto Sessão Vitrine Petrobras, que também relançou as cópias nos cinemas. A partir da recente circulação, os filmes alcançaram mais públicos e hoje contam com uma nova onda de popularidade. Cenas da personagem de Camila Pitanga em “Saneamento Básico”, por exemplo, são frequentemente revividas nas redes sociais.
Já na 40° posição, “Um é pouco, dois é bom”, primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta negro no Rio Grande do Sul, era um filme de difícil acesso até ser restaurado e digitalizado em 4K pela Cinemateca Capitólio, em uma parceria com a plataforma Indeterminações e a Mnemosine Serviços Audiovisuais. Dividido em dois episódios, só a primeira parte estava disponível no digital, em baixa resolução. O único jeito de assisti-lo na íntegra era em película, que foi exibida pela última vez em 2024, no Dia da Consciência Negra, para então preservar a cópia e dar espaço à versão restaurada.
Após o processo, o filme de Odilon Lopez, antes desconhecido, rodou em festivais, salas de cinema e cineclubes de todo o Brasil. Para Daniela Mazzilli, coordenadora de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura, resgatar obras do cinema gaúcho ajuda a reconstituir a história do estado. “Um é pouco, dois é bom' entrou na lista muito por conta dessa digitalização e restauração da Cinemateca, porque as pessoas puderam assistir esse filme. Muita gente nem conhecia. Então posiciona nossa cinematografia de uma outra forma inimaginável”, comenta.
Com o sucesso do relançamento do filme, a Cinemateca Capitólio estabeleceu a restauração de filmes gaúchos como um projeto anual. Em 2026, em parceria com a Cinemateca Brasileira, foi restaurado “Vento Norte”, primeiro longa-metragem de ficção sonoro rodado inteiramente no Rio Grande do Sul, outro marco do cinema no estado. A cópia estreou no Festival de Cinema de Rotterdam, na Holanda, consolidando a presença das produções gaúchas no cenário brasileiro e internacional, recuperando tanto o passado quanto o presente do cinema nacional. Já para 2027, a Cinemateca Capitólio escolheu restaurar “Aqueles Dois”, de Sergio Amon. Referência do cinema LGBTQIA+ no estado, o longa é inspirado no conto de Caio Fernando Abreu e traz imagens únicas da Cinemateca nos anos 80.
Cinemateca Capitólio - Acervo de Filmes
Manter vivo o cinema brasileiro
Muitos dos filmes presentes da lista da Abraccine passaram por restaurações. “Limite”, que ocupa o primeiro lugar, foi um filme que tinha seus negativos deteriorados e era tido como perdido até sua recuperação em 1978, pelo trabalho da Cinemateca Brasileira. “Também Somos Irmãos”, de José Carlos Burle, estrelado por Grande Otelo e pioneiro em debater a questão do racismo no Brasil, também não podia ser visto antes da restauração e atualmente ocupa a 4° colocação no ranking. “São Paulo Sociedade Anônima”, na 24° posição, “Terra Em Transe”, em 32° e “Os Homens Que Eu Tive", em 46°, são alguns dos outros exemplos restaurados pela instituição.
“Se a gente pega essa lista da Abraccine, a maioria desses filmes estão confiados à Cinemateca, foram digitalizados pela Cinemateca, foram restaurados pela Cinemateca, com esse compromisso de garantir o acesso contínuo por diferentes gerações que vão se apropriar dessa obra e vão continuar desenvolvendo reflexões, trabalho, mantendo viva a história do nosso cinema”, afirma Gabriela Sousa de Queiroz, diretora técnica da Cinemateca Brasileira. Completando 80 anos em outubro deste ano, a instituição conta com mais de 250.000 rolos de filmes e 60.000 títulos, além de mais de um milhão de documentos que qualificam e contextualizam as obras. É o maior acervo audiovisual da América do Sul.
Após o fechamento durante o governo Bolsonaro, período em que ficou sem nenhum técnico, e depois de enfrentar episódios como a enchente em 2020 e o incêndio em 2021, a Cinemateca passa ela própria por uma restauração. O processo inclui a recuperação das áreas de preservação de filmes, dos laboratórios de imagem e som e do setor de restauração, além de fortalecer a difusão nas salas de cinema por meio de uma programação gratuita que recebe, em média, 74.000 pessoas. “Foi todo um trabalho para colocar a Cinemateca no lugar de onde ela nunca deve sair, que é justamente a maior instituição de preservação e difusão do nosso cinema e do nosso audiovisual”, relata Gabriela.
O Centro Técnico Audiovisual (CTAv) é também um dos responsáveis pela preservação audiovisual brasileira. Com um acervo de mais de 24 mil itens, relativos a mais de 8.600 títulos, o órgão do Ministério da Cultura tem como uma das suas missões o apoio ao cinema independente de baixo orçamento, com foco em curtas e médias-metragens. Em seu canal no YouTube, a instituição disponibiliza programas como o Passarela 04, que reúne quatro filmes do acervo que, a partir de temáticas escolhidas, dialogam entre si. “Hoje em dia o que a gente tenta fazer é dar acesso às informações e, dentro do possível, aos filmes, para que esses filmes possam ser revistos, voltem a circular, possam gerar pesquisas, tanto para pesquisa quanto para exibição mesmo”, conta Natália de Castro, preservacionista audiovisual do CTAv.
Para 2027, a Cinemateca Brasileira escolheu mais um dos filmes que está na votação da Abraccine para restaurar. “O Bandido da Luz Vermelha”, clássico de Rogerio Sganzerla, passará por uma restauração digital 4K e voltará às salas de cinema. Essa circulação é de interesse para a instituição, que organiza desde 2023 uma mostra itinerante que percorre todo o país com filmes do acervo. “A difusão potencializa e ajuda as pessoas a entenderem e reconhecerem o que é de fato a apresentação de um filme, que é você ter a possibilidade de ver um filme de 1929, um filme de 1948, com qualidade em 2026”, diz a diretora. “Você traz de volta à vida”, ela também afirma.
Para além do cânone
Para além dos filmes essenciais, há um universo de cinematografias deixadas de fora das listas e cânones. Assim como nos casos de “Um É Pouco, Dois É Bom” e “Vento Norte”, existem esforços para ampliar cada vez mais o que é inserido dentro da história do cinema nacional. Uma dessas iniciativas é o Cine Limite, organização que, desde 2020, é dedicada à digitalização, restauração, curadoria e distribuição do cinema brasileiro de repertório.
Algumas das mostras já organizadas pelo projeto, que já digitalizou mais de 800 filmes, são “Cinema Marginal Piauiense”, “A Onda de Filmes Queer em Super-8 na Paraíba” e “Mulheres: Uma Outra História”, que resgatam as histórias não-contadas do cinema nacional. “A gente não conhece de fato o que é a história do cinema brasileiro. A gente tem uma ideia, uma noção. A gente tem um mapa. Cada vez que a gente olha esse mapa, estamos vendo cada vez mais as lacunas. E quando a gente olha onde tem lacunas, tão fora do Sudeste, fora do Rio de Janeiro, de São Paulo, são lacunas de mulheres, são lacunas de formato, então, filmes feitos em 8mm, 16mm, e são de pessoas negras, de pessoas que foram apagadas nessa história”, diz William Plotnick, um dos fundadores da organização.
“Cada vez que a gente cria uma noção de uma história, estamos criando um círculo e essas obras que a gente conhece, elas compõem essa história com H maiúsculo. E, ao fazer esse círculo, é tanto um ato de curadoria quanto um ato de apagamento”, comenta ele. O americano conta que, após participar de um curso sobre Cinema Novo, se apaixonou pelo cinema do Brasil e criou o Cine Limite junto ao brasileiro Gustavo Menezes, que conheceu pela rede social de cinema Letterboxd. Hoje um grande entusiasta do cinema nacional, William está ansioso para assistir à restauração de “Vento Norte”, trabalho da Cinemateca Capitólio.
O futuro da preservação audiovisual
“Se a gente quer uma indústria audiovisual brasileira forte, não basta investir só em produção, que é uma característica do nosso modelo, os recursos indo mais para produção. Você precisa criar as condições de circulação comercial desses filmes nas nossas salas de cinema. Você precisa entender que a preservação é parte estratégica disso, porque essas instituições mantêm viva a história do nosso cinema”, afirma Gabriela, da Cinemateca Brasileira. Entre esses esforços, está o Programa de Preservação do Audiovisual Brasileiro e Rede Nacional de Arquivos Audiovisuais, instituído pelo governo federal em junho de 2025. A política busca implementar a Rede Nacional de Arquivos Audiovisuais e a institucionalizar a criação de um Inventário Nacional de Bens Culturais Audiovisuais, um sistema para identificar, registrar e mapear obras e acervos com valor histórico, artístico e cultural.
Para Natália de Castro, do CTav, a expectativa diante da proposta é boa, ainda que considere um grande desafio. “Eu acho que é muito importante essas informações estarem públicas, porque é a partir daí também que as pessoas conseguem chegar aos filmes”, diz ela.
Chegar aos filmes parece ser a grande questão. O cânone, afinal, não é um ponto de chegada, mas uma construção permanente e a memória do cinema brasileiro segue sendo escrita por diferentes mãos. Preservar o audiovisual não é apenas olhar apenas para o passado, é também definir quais imagens farão parte da história do cinema no futuro. “A história não está dada, né? Ela não é fixa, ela também muda de acordo com essas peças entrando na engrenagem, peças que nunca foram consideradas”, conclui Daniela Mazzili, diretora da Cinemateca Capitólio.