Dois anos depois de “As Palavras Vol. 1 & 2”, Rubel lança seu quarto disco. E, com ele, retorna às suas origens, que foram momentaneamente afastadas na viagem que o terceiro álbum realizou pelas diferentes faces da música brasileira. Em “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?”, Rubel continua sua história de amor com o instrumento que o acompanha desde os nove anos de idade: o violão. Sete músicas autorais e duas regravações dão vida ao seu novo lançamento, que carrega influências que vêm da vida do compositor - do que ele sente, dos discos que ama, das histórias que viveu. “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” é a resposta de Rubel ao chamado que a música fez a ele.
Na tarde da última sexta-feira, o Correio do Povo conversou com o cantor sobre o processo de composição do álbum, sua trajetória na música e sobre o que a gente, o ouvinte, faz com isso, agora que o álbum está no mundo. Confira a entrevista abaixo:
O que esse álbum significa para você?
Esse álbum significa uma afirmação do meu compromisso com a música, com a minha paixão pela música, com a minha escolha de vida, com o meu ofício. Com as minhas referências, com meu voto de amor pela música brasileira, pela MPB que tanto me norteou, pelo violão que é meu instrumento desde os nove anos de idade, pela poesia, pela liberdade e pela junção do que pode ser a música pop com uma música que, ao mesmo tempo, é “esquisita” e provocativa e não tão acessível. E acho que é um bom resumo dos meus 34 anos, que acabei de fazer. Acho que ele é uma boa carta de intenção de como eu quero estar no mundo.
Você comentou sobre o seu compromisso com a música. Em uma das faixas no novo álbum, você fala “o canto veio e me chamou". De que forma aconteceu esse chamado?
De uma forma muito bonita, eu acho. Porque eu recusei muitas vezes esse chamado. Eu sempre tive muito medo de viver de música ou de ser cantor. Então, na faculdade, eu escolhi fazer cinema, que não era uma profissão nem um pouco garantida também, mas era, na minha cabeça, um pouquinho mais estável do que a profissão de músico. E lancei esse disco, o primeiro, em 2013, e, mesmo depois de lançado, eu segui duvidando muito de que eu poderia fazer uma carreira a partir dele. De 2013 a 2015, eu me formei na PUC e quase desisti de fazer música. Fui morar nos Estados Unidos para trabalhar com cinema. Mas algo sempre me dizia que não era pra fazer isso e era para eu estar no Brasil, fazendo música. Então, tudo deu errado nessa viagem, e eu voltei. E quando eu voltei, três anos depois do disco já no mundo, eu falei “Tá bom, é isso que eu tenho que fazer”. A música foi generosa comigo no sentido de insistir e falar “Você não vai desistir de mim, você vai ser cantor sim”. E, a partir daí, acho que tive vários outros chamados, vários momentos muito felizes na minha carreira. Acho que esse disco é um deles. É mais uma reafirmação dessa vocação ou dessa escolha.
Então, realmente, a música para você foi “praticar a teimosia”?
Total. Eu acho que a gente tem que ser muito teimoso para viver de música, especialmente para viver fazendo a música que a gente quer e não ceder necessariamente às pressões do mercado para fazer o que esperam da gente, sabe? Acho que, para ser músico independente e para você manter a sua voz como compositor, tem que ser teimoso. Porque nada é garantido, você corre riscos a cada disco. Acho que esse disco é um disco em que eu corro muitos riscos, no sentido de que ele não abre concessão para nada. Ele tem poucos refrãos, ele não é pop, mas ele é muito verdadeiro e, para mim, ele é muito bonito. Agora, “praticar a teimosia” é uma expressão que serve para muita coisa, não é só para a música, não. Acho que, para a gente estar vivo e feliz, a gente tem que ser muito teimoso.
Referências a grandes nomes da música brasileira estiveram muito presentes nas faixas desse novo álbum. De que maneira essas influências contribuíram para a construção dele?
De uma maneira muito indireta, na verdade. Porque eu acho que essas influências fazem parte do meu universo de vida, são coisas que eu ouço desde criança. Então, isso é tão vivo e tão presente dentro da minha vida que eu acho que já tá gravado no meu inconsciente. Quando eu fiz o disco e compus essas canções, eu não fui diretamente influenciado. Quando eu vi, elas existiam. E carregavam algumas características estéticas que dialogam com essa era. Isso foi muito lindo, porque eu amo a MPB dos anos 70 e, pra mim, é uma referência do que existe de mais bonito. Só que sempre me pareceu distante. Mas eu senti que esse disco quase que acidentalmente chegou. E, a partir daí, eu peguei referências um pouquinho mais claras, como João Gilberto, “Amoroso” (1977), “Fina Estampa” do Caetano (1994), e produzi o disco para assumir esse lugar mesmo. Para que ele fosse, de fato, um disco reverente a outros discos que eu amo. Ele é, de certa forma, uma grande homenagem aos meus ídolos.
As faixas abordam temáticas muito diversas, como fé, amor e intimidade. De onde saíram as inspirações para tua composição?
Da vida. Eu acho engraçada essa pergunta, porque muita gente pergunta isso. É muito comum para quem não trabalha com música falar “Mas de onde veio isso?”. E vem da vida, não tem de outro lugar sair senão da própria vida. Porque é o que a gente tem de material. Às vezes é um livro, às vezes é um disco, tem um pouco isso. Mas até isso tá inserido na vida. Então, acho que a gente compõe a partir da matéria prima do que a gente sente. São as minhas histórias de amor, são as minhas amizades, que eu admiro. É o medo da morte, é ver que o tempo tá passando e que eu tô quase no meio dos 30. É viver uma noite de réveillon esquisita e querer captar esse sentimento. Ir numa viagem e conhecer um pouco da história da Maria Padilha, isso ficar gravado na minha cabeça e sair de alguma maneira na música. Então, a inspiração é tudo que tá acontecendo o tempo todo.
Uma das músicas se chama “Pergunta ao tempo”, inspirada pela música “Resposta ao tempo”, do Aldir Blanc. O que te fez mudar essa postura de uma pessoa que não apenas responde ao tempo, mas que se impõe e que pergunta a ele?
Eu acho que, na música do Aldir, o protagonista tem essa postura diante do tempo, ele se coloca de igual para igual. Ele não fica humilde diante do tempo, ele toma uma cachaça, o tempo bate na casa dele e ele fala “Então vamo lá, você quer discutir comigo, e a gente vai discutir e ver quem é melhor aqui, se sou eu ou se é você”. O que é uma postura muito abusada. Na minha, eu tenho uma postura bem mais humilde. Só que, no final da música, dá vontade de dizer o que eu realmente sinto do tempo. Aí, não é humilde, é uma forma até “rancorosa” de falar “Você me tirou os meus amores”. Um pouco mais pessoal, mas “Você me tirou meu pai, você vai me tirar desse lugar”. Mas eu perdoo, que é a última frase da música. É uma briga com o tempo e é uma reconciliação. E tem uma citação direta à música do Aldir, que é “Você adormece o amor, e eu desperto”, que é a grande vitória argumentativa do Aldir Blanc contra o tempo. Quem faz o amor despertar é o humano.
Você acredita que essas faixas do álbum serão capazes de despertar o amor nas pessoas?
Pô, eu acredito. Eu acredito sim, porque elas despertam em mim. Essas músicas, eu já passei por tanta coisa depois que eu compus, que eu escuto esse disco e ele me transforma, ele me afeta, ele me faz querer sentir coisas que eu… [hesitante] eu não posso nem entrar em detalhes, mas ele mexe muito com o amor que tem dentro de mim. E eu acredito muito que, quando a gente sente, as outras pessoas também vão sentir. Então, se ele já me bagunça tanto, se ele mexe tanto comigo, eu acho que ele pode afetar outras pessoas também, de uma maneira muito forte. Seria um belíssimo uso dele no mundo, despertar o amor nas pessoas.
As suas músicas têm bastante repercussão entre o público mais jovem, inclusive já viraram trend no TikTok, como é o exemplo de “Quando Bate Aquela Saudade”. Você acha que, entre essas músicas, alguma pode acabar virando trend entre os românticos?
[Rindo] Eu acho que “Ouro” e “Azul, bebê” são as mais românticas e talvez as mais pop, então eu acho que existe alguma chance, sim, delas virarem trend. Não existe sanfona, né. As pessoas vão ficar decepcionadas porque não vai ter trend da sanfoninha, mas quem sabe elas viram.
Inclusive, muitos fãs da MPB consideram o amor como sendo da cor azul, em referências a músicas como “Azul”, do Djavan, que é citado no álbum. O título “Azul, bebê” tem alguma relação com essa ideia ou tem outras raízes?
Não, ele não tem relação direta com nenhuma citação, ele é uma questão muito palpável, na verdade. A pessoa pra quem eu escrevi essa música, eu conheci quando ela estava usando um biquíni azul bebê. E era uma imagem muito marcante. Então, azul bebê era exatamente a cor dessa roupa que nunca saiu da minha cabeça. Mas é uma boa observação, eu acho que como esse tipo de canção é tão parte da minha vida, às vezes essas referências saem sem a gente perceber, sabe? E eu acho engraçado esse vocativo, porque o azul bebê tem essa duplicidade. Tem a cor azul bebê e você pode falar “azul, bebê”, como se tivesse chamando uma pessoa. Então, o disco opera em vários níveis ao mesmo tempo. Tem a minha vida pessoal e também tem as referências, as coisas que eu gosto. E isso tudo vai se misturando.
Agora a gente, o ouvinte, faz o que com esse álbum?
Chora, ri, namora, bebe, se reúne com seus amigos. Uma coisa que eu queria muito é que as pessoas se reunissem para escutar esse álbum juntas, uma coisa que, hoje em dia, é um pouco rara. Mas, na época do vinil, era muito comum os amigos irem pra casa uns dos outros, botarem o vinil pra tocar e ficarem escutando, deitados, sentados. Então, eu tô tentando incentivar muito os fãs a fazerem esse ritual. Seja com namorado, com namorada, com amigo, com a família, com qualquer pessoa. Mas pra curtir esse momento que pode ser coletivo, essa coisa da audição compartilhada. Eu acho muito, muito rico, porque a emoção de uma pessoa afeta a outra. Então, se eu puder sugerir uma coisa pra vocês fazerem com isso, é: se juntem, escutem com quem vocês gostam. E, depois da audição, cada um faz o que quiser mesmo.
🔊 Ouça “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?”:
🎬 Assista ao filme complementar:
- Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes