A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou como o próprio cinema brasileiro. Veio intensa, cheia de contradições, encontros improváveis e atravessada por política, emoção e desejo de futuro.
Na noite da última sexta-feira, a abertura do evento tornou a Cine-Tenda lugar pequeno para tanta gente disposta a reafirmar, em pleno coração histórico de Minas Gerais, que o audiovisual é mais do que entretenimento. É território de disputa simbólica, de memória e de imaginação coletiva.
Quem acompanhou a cerimônia de abertura sentiu que não foi apenas protocolar. Foi um manifesto. Realizadores, jornalistas, gestores públicos, artistas e representantes da sociedade civil dividiram o mesmo espaço para celebrar o cinema, mas também para discutir suas condições de existência. A coordenadora-geral da Mostra, Raquel Hallak, lembrou que Tiradentes sempre apostou em novos protagonismos, em cinemas que emergem de “muitos Brasis” e desafiam formas únicas de ver e existir. Em sintonia com outros setores e eventos, ao defender a regulação das plataformas, a democratização das políticas públicas e o fortalecimento do audiovisual como força econômica e simbólica, Raquel reafirmou o festival como lugar de pensamento e ação.
A noite foi marcada também pela homenagem à atriz e diretora Karine Teles, que recebeu o Troféu Barroco com emoção visível. Ao longo de mais de duas décadas, Karine construiu uma carreira sólida, inquieta e profundamente conectada ao Brasil real. Suas personagens, trabalhadoras, mães, mulheres em atrito com um mundo hostil, condensam contradições sociais, afetivas e políticas. Em seu discurso, a atriz foi enfática em que persistir na cultura não é romântico, é duro. Ainda assim, é necessário. Sua trajetória, entre o cinema autoral e o audiovisual de grande alcance, sintetiza o espírito da Mostra de Tiradentes.
A presença da ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, e da secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, reforçou o peso político da abertura. Ambas destacaram que o atual reconhecimento internacional do cinema brasileiro não é acaso. “É resultado direto de políticas públicas”. Quando um filme brasileiro entra em cartaz, como lembrou Joelma, é o próprio país que se projeta no mundo.
No segundo dia, Tiradentes viveu um de seus rituais mais potentes: o cinema na praça. Sob o céu limpo depois de um dia de chuvas, e em o frio típico da serra, uma multidão se reuniu para assistir a “Querido Mundo”, de Miguel Falabella e Hsu Chien. O filme fez sua estreia mundial no Festival de Gramado do ano passado e agora arrancou aplausos por aqui. Em preto e branco, a produção emocionou ao narrar histórias de ruína e reconstrução, coroando a noite com delicadeza e silêncio atento. Depois da sessão, o diálogo entre equipe e público, com a presença dos diretores a Miguel Falabela e Hsu Chien, reafirmou o sentido coletivo da experiência cinematográfica.
Entre debates, fóruns, rodas de conversa, homenagens e o vibrante Cortejo da Arte pelas ruas históricas, a Mostra segue pulsando até o dia 31. São filmes, encontros e ideias atravessados pelo tema da “Soberania Imaginativa”, reafirmando Tiradentes como um espaço onde o cinema brasileiro pensa a si mesmo, provoca, incomoda e insiste em existir. Neste domingo o destaque é a presença da atriz Letícia Sabatella, que participa de um dos encontros da Mostra, e a exibição na praça do longa-metragem “Pequenas Criaturas”.