Mesmo após quase 50 shows da turnê "Encontro", celebração de 40 anos da icônica banda Titãs com os sete integrantes originais, os três remanescentes do grupo – Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto – não estavam cansados. Inclusive, já tinham planos à frente. No dia 27 de junho, esses planos foram ao mundo: "Microfonado", um projeto audiovisual desenvolvido por Rick Bonadio, que assina a produção do trabalho junto a Sergio Fouad.
Com o objetivo de colocar o ouvinte como se estivesse ao lado do artista no instante das composições, o álbum traz canções de sucesso e as do recente disco “Olho Fruta Cor” (2022) em formato acústico e em uma reaproximação mais íntima com o público. No lugar dos amplificadores, alto-falantes e caixas de retorno, entram os violões, baixo acústico, bateria e microfones. O repertório, os ouvidos já conhecem. Há, porém, diferenças: a sonoridade é adaptada e a banda empresta o microfone a artistas de diferentes gêneros e gerações.
A escolha da montagem do repertório de canções do álbum, entre uma vasta quantidade de sucessos da banda, foi um problema – no bom sentido, e nada diferente do já estavam acostumados, lembra Tony Bellotto em entrevista por áudios ao Correio do Povo. “A escolha de repertório sempre é um excelente problema para nós, tanto em discos quanto em shows. Quando a gente vai fazer um disco de inéditas, é um ‘problema’ nesse bom sentido também, porque sempre tem muita música”. Para Microfonado, o grupo apostou no ineditismo, como trazer as canções do disco mais recente de estúdio do grupo: “Apocalipse Só”, “Como É Bom Ser Simples” e “Raul” foram as escolhidas.
Mas não ficam de fora os grandes sucessos, como “Sonífera Ilha”, que lançou o grupo à fama em 1984. A novidade é que a música conhecida pela voz de Paulo Miklos está agora sendo cantada pela primeira vez por Tony Bellotto. Também está presente o estrondoso “Marvin”, versão em português do country soul britânico "Patches", composta por General Norman Johnson e Ron Dunbar, sucesso dos anos 70. Essa já havia sido gravada por Nando Reis, mas nunca por Sérgio Britto. "Cabeça Dinossauro" traz uma versão rap quase gangsta do carioca Major RD, rapper da nova geração. “Mesmo com os grandes sucessos, tem algum ineditismo ali; não tem nada por acaso”, resume Belotto.
A coletânea dos artistas convidados segue nessa mesma linha, desde nomes que estão despontando até figuras lendárias e emblemáticas da música nacional. Ney Matogrosso traz seu timbre melodioso em "Apocalipse Só", do disco de 2022. "Como é Bom ser Simples" é com a voz da carioca Preta Gil, amiga de longa data dos Titãs. Vitor Kley traz seu astral solar no reggae "Marvin", do álbum de 1984. "A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana" carrega, agora, um novo timbre na voz de Branco Mello. Cyz Mendes, rondoniense vocalista da banda potiguar Plutão Já Foi Planeta, está junto ao piano em "Um Mundo". "Porque Eu Sei que É Amor" apresenta o vocal doce da paraense Bruna Magalhães, ouvinte dos Titãs desde os cinco anos de idade. “Sem dúvida faz parte da reputação dos Titãs essa diversidade na estética”, justifica Bellotto a lista de artistas que emprestam a voz para interpretar as canções. “A gente sempre operou muito nessa liberdade, nessa diversidade, tá no no DNA da banda. Na hora de escolher os convidados, a gente seguiu essa linha”, acrescenta.
O projeto conta, ainda, com a turnê "Microfonado", com a mesma promessa de releitura intimista de sucessos. De acordo com os integrantes, a atmosfera será implantada desde a parte cênica e de luz, com a ambientação dos teatros para as apresentações. "A gente também tem uma instrumentação mais culta, e a nossa performance é também mais calma", atesta Sérgio Britto. "Esse formato é mais rico, mais dinâmico do que um show puramente acústico", complementa.
Infelizmente, ainda não há uma previsão de retorno do grupo a Porto Alegre para a turnê. "A nossa vontade é estar aí, mostrar a nossa solidariedade ao povo gaúcho e também fazer um espetáculo para trazer entretenimento e diversão. Assim que for possível, a gente com certeza vai estar de volta aos palcos", promete Britto.
Sendo uma banda ativa há tanto tempo, com músicas que conquistaram diferentes gerações, quatro décadas depois a banda enxerga o público ouvinte como "equilibrado", de acordo com Britto, apesar da maioria ainda ser acima dos 30 anos. "Acho que a gente também atrai um tipo de público mais família, por assim dizer; você vê pais com filhos e até netos indo aos nossos shows", complementa. "Acho que até a turnê do ‘Encontro’ favoreceu muito esse resgate e esse interesse de novas gerações pelo nosso trabalho", reconhece.
Confira o projeto “Microfonado”:
*Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes