Às vésperas de sua 83ª edição, o Festival de Cinema de Veneza, o mais antigo do mundo, continua ocupando um lugar singular no mapa da criação audiovisual. Ele não é apenas vitrine de prestígio, mas também território de encontro entre tradição e risco, memória e contemporaneidade, estrelas e autores, indústria e invenção.
Entre 2 e 12 de setembro, o Lido di Venezia volta a transformar-se em uma espécie de radar do cinema mundial. Vinte filmes disputarão o Leão de Ouro em uma competição que reúne nomes capazes de provocar tanto reverência quanto expectativa: Danny Boyle, Werner Herzog, Hirokazu Kore-eda, Martin McDonagh, Lee Chang-dong, Nanni Moretti, Florian Zeller, Casey Affleck e outros realizadores que carregam consigo diferentes maneiras de pensar e filmar o mundo. A abertura será com “Ink”, de Boyle, que também concorre ao principal prêmio. É uma escolha que já sinaliza a vocação de Veneza de começar o jogo sem abrir mão da ambição.
O cinema contemporâneo chega carregado de guerras, autoritarismos, crises de identidade, disputas de memória, transformações tecnológicas e mudanças profundas na maneira como consumimos imagens. Um festival internacional não pode fingir que nada disso existe. Nem deve.
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É nesse cenário que a presença brasileira ganha uma dimensão que vai além da bandeira na programação. Depois de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistar em Veneza o prêmio de Melhor Roteiro, o Brasil retorna à competição oficial com “Retorno a Buenos Aires”, coprodução entre Brasil e Itália dirigida pelo ítalo-argentino Marco Bechis. O filme acompanha Mariano Guerra, interpretado por Adriano Giannini, médico italiano que, 33 anos depois de ser sequestrado e torturado durante a ditadura argentina, retorna a Buenos Aires para testemunhar no julgamento dos militares responsáveis por sua prisão. A produção é uma ficção construída sobre a memória, sobre a sobrevivência e sobre o que significa continuar vivo quando tantos outros não tiveram essa possibilidade.
A participação brasileira é ainda mais significativa porque não se resume ao dinheiro ou à assinatura de uma coprodução. “Retorno a Buenos Aires” foi filmado durante quatro semanas em Porto Alegre e outras três em Turim. Tem Paula Cohen e Eduardo Hoy no elenco e reúne profissionais brasileiros em áreas como direção de arte, figurino, produção de elenco e produção executiva. A parceria entre a 34 Filmes, de Brasília, e produtoras italianas mostra um Brasil que quer estar no mercado internacional por competência e capacidade.
E há uma ironia poderosa nessa história. O filme que representa o Brasil em Veneza fala de uma Argentina submetida à violência de uma ditadura. A produção lembra que o regime organizou a Copa do Mundo de 1978 enquanto a repressão clandestina avançava. Cinema e memória, portanto, voltam a se encontrar justamente quando o mundo parece insistir em esquecer.
Para além da competição
Veneza também sabe que cinema não vive apenas de filmes em competição. Fora dela, documentários como “Musk”, de Alex Gibney, e o aguardado “Oasis: Don’t Look Back in Anger” ampliam a conversa entre cinema, cultura popular, música e personagens que moldaram o imaginário contemporâneo. O documentário sobre o Oasis acompanha a turnê de reunião de Liam e Noel Gallagher e chega ao festival com a promessa de transformar um fenômeno musical em experiência cinematográfica.
Essa capacidade de colocar lado a lado o autor consagrado, o astro internacional, o documentário musical, a memória política e coprodução latino-europeia é uma das grandes forças de Veneza. O festival não precisa escolher entre passado e futuro. Precisa fazer os dois conversarem. Veneza chega aos 83 anos sem a obrigação de parecer jovem e segue olhando para o que ainda não foi totalmente compreendido.