Saiba como a arquitetura pode promover bem-estar para os mais velhos

Mais do que estética, segurança e funcionalidade são peças-chave para transformar casas em espaços de autonomia e acolhimento para os idosos

Detalhes da arquitetura e decoração podem garantir uma vida mais tranquila para os moradores acima dos 60 anos
Detalhes da arquitetura e decoração podem garantir uma vida mais tranquila para os moradores acima dos 60 anos Foto : Moe Magners / Pexels / CP

A famosa frase do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, “A arquitetura não é para ser vista, é para ser vivida”, ganha um significado ainda mais profundo diante do aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Com um crescimento significativo da população acima de 60 anos – de acordo com o Censo 2022 –, essa faixa etária corresponde à quase 16% do total da população do país.

Com a chegada do Dia Internacional do Idoso, celebrado em 1º de outubro, é importante refletir sobre como a arquitetura e a decoração podem contribuir para o bem-estar dessa faixa etária. Mais do que um detalhe, unir estilo, segurança e funcionalidade se tornou uma necessidade real e um compromisso social.

Mais do que instalar barras de apoio, uma vez que a proteção residencial não se consiste apenas nesse recurso, a arquitetura para a longevidade envolve um planejamento que promove adaptações para um futuro em médio e longo prazo, como também entrega soluções imediatas para moradores acometidos por questões de mobilidade.

Pequenas adaptações, muitas vezes imperceptíveis ao olhar, transformam o lar em um espaço ideal tanto para o idoso, como para a família que vive com ele.

A seguir, confira alguns dos pontos de atenção nos projetos:

🪑 Mobiliário estratégico: altura certa para conforto e segurança

O mobiliário é um dos pontos-chave para garantir bem-estar e independência dentro de casa, especialmente para pessoas idosas.

Sofás e poltronas precisam ir além do design: devem oferecer firmeza no estofamento e uma ergonomia que facilite os movimentos de sentar e levantar. Um assento muito baixo, mole demais ou sem apoio adequado pode se transformar em um obstáculo diário, aumentando o risco de quedas e sobrecarga nas articulações.

A altura ideal é aquela que permite apoiar totalmente os pés no chão ao sentar-se, mantendo a postura correta e evitando desconfortos. Além disso, o encosto deve respeitar a curvatura natural da coluna, proporcionando sustentação adequada e ajudando a prevenir dores lombares.

Pensar no mobiliário estratégico é, portanto, pensar em autonomia: cada detalhe que favorece a mobilidade amplia a sensação de segurança e acolhimento no dia a dia.

🔸 O dilema dos tapetes

Longe de ser um item proibido, o tapete pode trazer conforto e aconchego, mas exige alguns cuidados importantes. Afinal, grande parte dos acidentes com idosos acontece dentro de casa, segundo dados do Ministério da Saúde, e esse elemento da decoração pode se tornar um risco se não for bem pensado.

Para evitar quedas, é essencial alinhar bem as pontas — a fixação com fita dupla face é uma solução prática — e optar por modelos com base antiderrapante, descartando aqueles que dobram com facilidade. Também vale atenção às medidas: o ideal é que o tapete avance de 20 a 30 cm sob sofás e poltronas, evitando bordas soltas que possam se transformar em obstáculos.

Na sala de jantar, onde o tapete é amado por muitos pelo conforto, é fundamental calcular não só o espaço da mesa, mas também o das cadeiras em movimento. Por isso, recomenda-se acrescentar de 75 a 100 cm além da área da mesa, garantindo segurança no uso diário.

Já nos dormitórios, o tapete tem a vantagem de afastar a sensação desagradável do chão frio, mas também pede cautela. Para uma circulação tranquila, especialistas indicam uma sobra de 60 a 70 cm nas laterais. No caso das passadeiras, é importante que comecem embutidas na base da cama, reduzindo riscos de tropeços.

👉 A importância da largura das portas

A arquitetura parametriza as dimensões das portas para uma utilização cotidiana das pessoas, como para aquelas com algum tipo de dificuldade de locomoção.

Em portas de entrada, salas e dormitórios, 80 cm (mínimo) e 90 cm (ideal), comportam a acessibilidade para uma cadeira de rodas ou um andador. E embora, em via de regra, o banheiro deva ter, minimamente, a largura de 60 cm, padronizar a mesma medida aplicada nos demais ambientes não restringe a vida dos idosos.

🍴 Cozinha segura

A cozinha precisa de um acompanhamento minucioso em diversos itens. Sem contar o espaço de circulação conveniente e a ausência de quinas em bancadas, o piso não pode ser escorregadio – caso dos porcelanatos polidos, que em contato com a água e gordura são perigos iminentes.

Todavia, a gravidade também se encontra no fogão, levando em consideração que o tipo de abastecimento é o mais comum nas residências brasileiras. Para evitar vazamentos de gás GLP ou natural, incêndios ou queimadas em decorrência do fogo, o cooktop de indução é ótimo para as casas com idosos. Isso acontece, pois o aquecimento do eletrodoméstico ocorre apenas no contato com a panela, e não na superfície.

🏡 O corrimão é obrigatório!

É verdade: o corrimão é um apoio essencial em qualquer idade, mas se torna ainda mais indispensável para os idosos, que podem apresentar limitações de equilíbrio e mobilidade. Muito além de um detalhe, ele garante segurança, autonomia e confiança ao circular por escadas ou desníveis dentro de casa. Ter esse recurso bem posicionado pode significar a diferença entre um deslocamento tranquilo e o risco de uma queda.

O corrimão iluminado atribui mais segurança à escada | Foto: Sidney Doll / Divulgação / CP

No projeto deste duplex, por exemplo, a arquiteta Rosangela Pena exemplifica como unir praticidade e estética. O corrimão com iluminação em LED embutida não só favorece a visualização dos degraus durante a noite, como também adiciona sofisticação ao espaço, mostrando que funcionalidade não precisa abrir mão do design.

A escolha do piso também merece atenção. Assim como na cozinha, acabamentos acetinados são os mais indicados, pois oferecem maior estabilidade e reduzem significativamente a chance de escorregões, sobretudo em áreas de circulação intensa.

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💡 Dicas extras

➡️ A altura da cama faz toda a diferença: modelos muito baixos ou altos demais dificultam o movimento de levantar-se. O mesmo vale para colchões excessivamente moles, que podem prejudicar a postura e até intensificar dores crônicas.

➡️ No banheiro, a atenção deve ser redobrada. Além das barras de apoio, que são indispensáveis, o piso precisa ter um bom coeficiente de atrito para evitar escorregões em áreas molhadas.