As oito mulheres que inspiram a nova geração da indústria calçadista

Elas romperam barreiras, transformaram trajetórias e mostram que inovação, sensibilidade e liderança podem caminhar juntas no setor que mais emprega mulheres no país

As protagonistas da segunda temporada do projeto Memórias representam diferentes trajetórias femininas
As protagonistas da segunda temporada do projeto Memórias representam diferentes trajetórias femininas Foto : FTZ Audiovisual / Divulgação / CP

A presença feminina na indústria calçadista é um fenômeno que vai além das estatísticas. Embora elas representem 30,2% da força de trabalho na indústria de transformação brasileira, no setor de calçados esse número quase dobra e alcança 49,4%, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Por trás desses percentuais estão histórias de persistência, sensibilidade e visão estratégica que hoje redesenham a forma de liderar.

Até recentemente, elas ocupavam majoritariamente funções de costura, montagem, acabamento e revisão, atividades de alta responsabilidade que exigem precisão e cuidado, mas que historicamente receberam pouca visibilidade. Esse cenário começa a se transformar à medida que profissionais que nasceram e cresceram dentro das fábricas assumem papéis de liderança e passam a influenciar os rumos do negócio.

O projeto Memórias, criado pelo Sindicato da Indústria do Calçado de Igrejinha (Sindigrejinha), é o retrato mais recente desse movimento coletivo. As oito mulheres retratadas — Cristine Grings Nogueira, Ana Paula Grings, Ana Carolina Grings, Patricia Garcia Valejos, Micheli Doring, Daniela Paula Colombo, Gabriela Petzinger e Luciane Manica — personificam essa transformação. São gestoras e empreendedoras que desafiaram a tradição e mostram que o olhar feminino é também um vetor de inovação e crescimento para toda a cadeia produtiva.

Uma mulher à frente do sindicato

Ana Paula Grings, diretora administrativa e financeira (CFO) da Calçados Piccadilly, foi a primeira mulher eleita para presidir o Sindigrejinha em 46 anos de história, no período de 2026 a 2028. Sua irmã, Ana Carolina Grings, vice-presidente e diretora de Produtos, Inovação e ESG da mesma empresa, iniciou sua trajetória em 1993, quando era a única mulher no setor de Desenvolvimento de Produto. “Digo que abri a porteira para elas, porque hoje somos 43%. Mas ainda há muito espaço a conquistar. A pergunta que sempre faço é se falta oportunidade ou estímulo para que mais mulheres ocupem especialmente as áreas técnicas, que ainda são predominantemente masculinas”, reflete.

Para o atual presidente do Sindigrejinha, Vinícius Mossmann, a presença feminina em cargos de liderança já faz parte da realidade do setor. Ele avalia que as mulheres trazem um olhar diverso e essencial para os novos tempos. “A ruptura já foi feita e elas fazem parte desse ecossistema como protagonistas, trazendo uma visão que reposiciona a indústria para o futuro.”

O dirigente cita como exemplo o avanço da representatividade na região, com a eleição de Ana Paula para o Sindigrejinha e o movimento semelhante em Três Coroas, onde a diretora criativa da Valentina Calçados, Ana Paula Roldo, está prestes a assumir o sindicato local. “Também temos uma mulher à frente da CDL das duas cidades, o que reforça que esse protagonismo já é estrutural”, observa.

O dado mais recente da Abicalçados reforça a tendência: 29% dos cargos diretivos no setor calçadista brasileiro já são ocupados por mulheres, um número que cresceu significativamente na última década. Na indústria de transformação nacional, esse percentual é de apenas 19,8%.

Avanço social e econômico

O avanço não é apenas social, mas também econômico. Um estudo global da consultoria McKinsey indica que o aumento da presença feminina em cargos de liderança pode acrescentar até US$ 12 trilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) mundial até 2025. No Brasil, o impacto potencial seria de US$ 410 bilhões.

Entre as entrevistadas, há consenso de que a conquista de espaço vem acompanhada de persistência e reinvenção. A empresária Patricia Garcia Valejos, sócia-administrativa da Lenna Rios Calçados, acredita que a formação de novas lideranças depende de um ambiente favorável e de redes de apoio. “Apesar da resistência por parte da sociedade, estamos aqui, seja sozinhas, seja ao lado de parceiros de vida ou sócios. Isso me deixa muito feliz, porque sei que esta história vai continuar por muitos anos”, afirma.

A diretora jurídica e de DHO da Usaflex, Daniela Colombo, também faz parte da série e resume em sua fala o esforço de muitas mulheres que conciliam múltiplos papéis. “Comecei aos 17 anos, conciliando trabalho, estudos, maternidade e muito compromisso com aquilo que eu queria construir. Assim como eu, vejo mulheres corajosas, preparadas e determinadas, que estão ocupando espaços com sua própria voz e com um olhar que transforma. Mulheres que não precisam mais abrir caminhos sozinhas, porque hoje já existe um chão mais firme, construído por outras que vieram antes”, avalia.

Para ela, participar do Memórias foi um exercício de autoconhecimento. “Foi uma oportunidade de olhar para trás com gratidão, entender tudo o que me moldou e reforçar o compromisso com aquilo que ainda quero construir. Mais do que uma homenagem pessoal, esse projeto é um ato coletivo de valorização da presença feminina na indústria”, completa.

Convergência na história de mulheres: a maternidade

A executiva do Sindigrejinha Jaqueline Ramos, responsável pelo desenvolvimento e condução das entrevistas, conta que uma das convergências entre as histórias foi a relação com a maternidade. “Todas mencionaram a culpa que carregam por terem deixado em algum momento os filhos em segundo plano, por não terem podido levar ao médico ou assistir a uma apresentação na escola para cumprir compromissos profissionais. Por isso, o Memórias é também uma celebração dessas mulheres que se desdobram e constroem um legado de amor e dedicação”, explica.

Mãe de Vicente e Nicolas, Ana Paula Grings reconhece o peso da dupla jornada e o valor simbólico da iniciativa. “Vejo o Memórias como um reconhecimento por nossa dedicação e empenho em provar que é possível conciliar carreira, família e também o cuidado com a gente. Quem nos vê hoje não imagina tudo o que passamos”, afirma.

O impacto do projeto foi reconhecido também fora do Vale do Paranhana. A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) selecionou o Memórias como case de boas práticas sindicais e o apresentou no 3º Congresso Sindical da Indústria, realizado em Bento Gonçalves. A entidade destacou a iniciativa por valorizar pessoas e trajetórias e por resgatar a dedicação, a inovação e o empreendedorismo que sustentam o setor calçadista gaúcho.

Mais do que um registro histórico, o projeto se tornou um espelho do presente. As vozes que emergem do Memórias reforçam que o protagonismo feminino já não é uma exceção na indústria calçadista, mas uma transformação em curso, que combina sensibilidade, competência e visão de futuro.

As protagonistas do Projeto Memórias – Segunda Temporada

1️⃣ Cristine Grings Nogueira: CEO da Calçados Piccadilly, Cristine representa a terceira geração da família à frente de uma das maiores indústrias calçadistas do país. Com mais de 20 anos de experiência, foi a primeira mulher a assumir o cargo de CEO no setor e transformou a empresa em referência de inovação, tecnologia e sustentabilidade. Movida pela fé e pela convicção de que o trabalho é um legado, equilibra a intensidade do comando com o papel de mãe de Isadora e Valentina, inspirando novas gerações com coragem e propósito.

2️⃣ Gabriela Petzinger: Executiva da Calçados Status, Gabriela iniciou sua trajetória aos 14 anos e se destacou pela combinação de técnica e sensibilidade. Formada pelo SENAI e em Psicologia, liderou o desenvolvimento do e-commerce da marca e defende a sustentabilidade como caminho irreversível da indústria. Mãe e gestora, enxerga o equilíbrio entre carreira e vida pessoal como parte do crescimento humano. Para ela, o futuro do setor depende de estudo, colaboração e constante atualização.

3️⃣ Luciane Manica: Diretora financeira da Metalização Igrejinha, Luciane construiu uma carreira sólida em um ambiente majoritariamente masculino. Iniciou na administração da empresa do pai e assumiu a direção após anos de dedicação, consolidando um modelo de gestão baseado em qualidade e inovação. Defensora da presença feminina no chão de fábrica, valoriza o olhar detalhista das mulheres e vê na sustentabilidade e na formação contínua os pilares para o futuro da indústria calçadista.

4️⃣ Micheli Doring: Sócia-proprietária da Ponto a Ponto Bordados, Micheli começou separando peças de cabedal e se tornou referência em eficiência produtiva. Apostou na tecnologia de corte a laser e reduziu o desperdício, transformando sobras de couro em novas palmilhas. Para ela, inovação e sustentabilidade caminham juntas. Mãe de Eduarda e Antônio, acredita que o amor à família é sua maior fonte de força e que a dedicação é o caminho para inspirar outras mulheres.

5️⃣ Patricia Garcia Valejos: Diretora comercial e de marketing da Lenna Rios Calçados, Patricia iniciou como representante e consolidou-se como uma das principais líderes do setor. Enfrentou o desafio de migrar para a rotina intensa da fábrica e conquistou espaço pela coragem e visão estratégica. Mãe de Guilhermo e Ehros, defende o olhar feminino como diferencial competitivo e acredita que a liderança é uma construção diária, sustentada por empatia e consistência.

6️⃣ Ana Carolina Grings: Diretora de Criação e Design da Piccadilly, Ana Carolina é uma das principais referências em inovação no setor calçadista. Desde jovem, enfrentou o desafio de se afirmar em um ambiente técnico e hoje lidera processos com design 3D e prototipagem virtual. Mãe de Davi e Arthur, vê a sustentabilidade como parte do produto e defende que o trabalho deve refletir propósito. Encoraja outras mulheres a conhecerem seu valor e a ocuparem espaços de decisão.

7️⃣ Ana Paula Grings: Diretora administrativa e financeira da Piccadilly, Ana Paula iniciou na empresa como telefonista e trilhou uma trajetória marcada por superação e coragem. Formada em Fonoaudiologia, migrou para a área financeira e foi reconhecida com o Prêmio IBEF Equilibrista em 2022. Coordenadora de governança e conselheira, equilibra família e gestão com naturalidade. Mãe de Vicente e Nicolas, acredita que o sucesso está na constância e no equilíbrio entre profissão e afeto.

8️⃣ Daniela Paula Colombo: Diretora da Usaflex, Daniela iniciou aos 16 anos no setor de PCP, formou-se em Direito e hoje lidera áreas estratégicas como governança, sustentabilidade e experiência do cliente. Responsável por impulsionar a transformação cultural da empresa, defende a diversidade e a liderança feminina como forças para a inovação. Mãe de Gabriel, valoriza a presença e o equilíbrio como formas de amor e acredita que a sustentabilidade é o que garante a perenidade dos negócios.

📍Serviço:

  • Projeto Memórias - Segunda Temporada
  • Episódios serão lançados semanalmente no Instagram do Sindigrejinha (@sindigrejinha) e também serão disponibilizados no Youtube (https://www.youtube.com/@Sindigrejinha)

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