De Santa Clara do Sul para o mundo: como foi o reencontro de Shirley Mallmann com suas raízes gaúchas

Primeira top model brasileira a conquistar uma carreira internacional revisita suas origens e reflete sobre os caminhos que moldaram sua carreira

Top model Shirley Mallmann, de 48 anos, é natural de Santa Clara do Sul
Top model Shirley Mallmann, de 48 anos, é natural de Santa Clara do Sul Foto : Vini Dalla Rosa / Divulgação / CP

“Felicidade de estar de volta”. Este foi o sentimento da gaúcha Shirley Mallmann, a primeira top model brasileira a conquistar uma carreira internacional, ao retornar para o Rio Grande do Sul em um evento que celebrou e retomou o protagonismo da moda gaúcha. Três décadas depois de sair do estado onde cresceu rumo ao mundo, a modelo de 48 anos reencontrou o público de sua terra natal em um dos momentos mais simbólicos do POAFW, no final de março, e encerrou a programação desfilando para a marca Apartamento 03, sendo aplaudida de pé.

Antes, Shirley participou de um bate-papo onde falou sobre carreira, bastidores, transformações da indústria e inseguranças que enfrentou ao longo do caminho. Recebeu o público com atenção, posou para fotos e respondeu perguntas com o sorriso largo e tranquilo de quem sabe o legado que carrega.

Natural de Santa Clara do Sul, a top model não começou sua trajetória nas passarelas. Antes dos holofotes, trabalhou como costureira em uma fábrica de calçados. Aos 17 anos, deu os primeiros passos como modelo e, pouco tempo depois, já desfilava para as principais grifes do mundo. Com traços marcantes e presença forte nas apresentações, foi uma das primeiras brasileiras a conquistar sucesso no cenário global. Sua ascensão ajudou a projetar a moda nacional e abriu caminho para que outras modelos do país ganhassem visibilidade internacional.

Durante a conversa, relembrou os primeiros anos dividindo apartamentos com meninas que não conhecia, ainda que todas fossem movidas pelo mesmo desejo de fazer a carreira acontecer. Falou sobre os sacrifícios pessoais, a saudade do aconchego de casa e também sobre as inseguranças que a acompanhavam na adolescência.

Quando mais nova, se via como desengonçada, alta e magra demais. Um “patinho feio”, como ela mesma descreve. Mas foi justamente a experiência como modelo que transformou essa percepção. A rotina de desfiles e campanhas despertou uma força até então desconhecida. Aos poucos, passou a enxergar sua imagem com mais clareza. O trabalho, segundo ela, foi o que trouxe confiança e permitiu que desenvolvesse um olhar mais seguro sobre si mesma.

Com mais de 30 anos de carreira, Shirley coleciona participações e colaborações com algumas das maiores maisons do mundo, como Alexander McQueen, Dior, Chanel, Givenchy, Valentino e tantas outras. Também estampou capas e editoriais das principais revistas de moda e beleza.

No entanto, depois de conhecer inúmeros países ao longo da carreira, escolheu retornar para casa e iniciar uma nova fase profissional. Desde o ano passado, vive um momento de transição, com novos interesses e mais tempo ao lado da família. Além da proximidade afetiva, a modelo valoriza o clima mais descontraído dos sets brasileiros, onde o trabalho acontece com leveza e bom humor. Em contraste com a rigidez que enfrentou em outras partes do mundo, diz que a atmosfera por aqui é mais inspiradora.

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Apesar da experiência, ainda sente um frio na barriga antes de entrar na passarela. “Independente de quantas eu já fiz, de pra quem é. É o momento em que é só você e a passarela, e você sabe que vai estar com o foco de tudo”, refletiu, pouco antes de desfilar no POAFW. Para se concentrar, recorre à meditação e à respiração, que a ajudam a se desligar do barulho ao redor e manter a atenção no presente mesmo em meio ao caos do backstage.

Fora dos desfiles, Shirley também é reservada. Ainda que hoje o cenário considere as redes sociais como parte fundamental da profissão, ela prefere manter a vida pessoal longe da exposição. Eventos sociais e momentos de networking nunca foram sua parte favorita do trabalho. “Não tenho muita paciência para isso. Foi uma luta a vida inteira e continua sendo”, riu ao comentar sobre esse lado do ofício.

Ainda assim, de volta ao seu estado, ela se reconecta com o público que acompanha com carinho seus novos passos. Aos 48 anos, com o sorriso de praxe, fala em continuidade e em presença ativa no mercado nacional: “Quero continuar sempre a ajudar, incentivar e ser uma inspiração para modelos.”

*Sob supervisão de Camila Souza