Gaúcha relata vivências de guerra e de reconexão em livro

Agente humanitária gaúcha Letícia Zenevich reúne experiências em zonas de conflito e na busca por reconexão com o corpo em “Notas de Rishikesh”

Letícia Zenevich relata no livro Notas de Rishikesh a travessia entre zonas de guerra, trauma e reconexão com o corpo
Letícia Zenevich relata no livro Notas de Rishikesh a travessia entre zonas de guerra, trauma e reconexão com o corpo Foto : Letícia Zenevich / Arquivo Pessoal / CP

Entre missões em zonas de conflito, violações de direitos humanos e o contato cotidiano com a violência, a gaúcha Letícia Zenevich construiu uma trajetória marcada por cenários extremos. Hoje radicada em Moçambique, a agente humanitária lança o livro “Notas de Rishikesh”, em que transforma essa experiência em relato sobre trauma, esgotamento e reconstrução.

Formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e mestre em Direitos Humanos e Ação Humanitária Internacional pela Sciences Po Paris, Letícia atuou em diferentes países da África, da América Latina e da Europa. Na obra, escrita a partir de diários de viagem, ela entrelaça memórias de guerra, deslocamento e violência com a busca por reconexão com o corpo por meio da yoga, vivida em Rishikesh, na Índia.

Ao Correio do Povo, Letícia fala sobre o papel da ajuda humanitária em um mundo atravessado por guerras, o agravamento da violência de gênero em contextos extremos e o caminho pessoal que encontrou para seguir em frente depois de encarar a brutalidade de perto.

| Foto: Letícia Zenevich / Arquivo Pessoal / CP

Correio do Povo - Sendo agente humanitária, você acompanha de perto situações extremas de vulnerabilidade. Em um cenário global marcado por guerras e conflitos, como o que envolve o Irã, qual é hoje o principal papel do trabalho humanitário?

Letícia Zenevich - O agente humanitário tem como dever levar ajuda humanitária para quem precisa de maneira neutra e imparcial. Isso quer dizer chegar onde a ajuda é mais necessária, sem se importar com nacionalidade, religião ou opinião política de beneficiários. No mundo atual, essa é uma missão urgente: levar o essencial para quem perdeu tudo da noite para o dia em um conflito armado. Atuar de maneira ética e humana, sem elucubrações políticas sobre quais vidas valem e quais não, sem dois pesos e duas medidas, mas atenuando o sofrimento humano mais urgente onde for possível.

CP - Onde você está atuando agora? E de que forma tem feito esse trabalho?

LZ - Estou terminando a minha missão em Moçambique e avaliando para onde seguir. Lá, coordeno a ajuda humanitária na minha zona de operações e recebo vítimas de violações do direito humanitário internacional, as leis da guerra. São civis que passaram por situações de maus-tratos ou tortura, crianças recrutadas para grupos armados, mulheres e outras pessoas vítimas de violência sexual, entre outros casos, para que possamos oferecer ajuda específica de acordo com as necessidades de cada situação.

CP - Além de situações de vulnerabilidade extrema, você frequentemente presencia contextos de violência estrutural, como a de gênero. Em seus anos como agente humanitária, o que mais chama a sua atenção em relação às opressões sofridas pelas mulheres?

LZ - Ser mulher é uma guerra à parte, onde você estiver. Vivi algumas situações curiosas, como debater feminismo com uma comandante de um grupo armado, que contou as estratégias dela para viver e se destacar em um ambiente profundamente patriarcal e heteronormativo da América Latina. Para nossa surpresa, as experiências dela em relação ao gênero não eram tão distintas da minha, como trabalhadora humanitária em uma grande organização europeia.

Além disso, a guerra potencializa situações de desigualdade de gênero. A violência de gênero se acentua em contextos extremos, em campos de deslocados ou de refugiados. A diminuição de recursos força famílias a priorizar a nutrição e a educação de apenas alguns filhos, e, geralmente, os meninos são priorizados. Se em tempos de paz ser mulher já apresenta desafios particulares, durante a guerra é uma batalha dupla.

| Foto: Letícia Zenevich / Arquivo Pessoal / CP

CP - Você já ministrou capacitações sobre direitos das mulheres na América Central e na América Latina. Que avanços percebe em relação ao tema? E que obstáculos ainda persistem?

LZ - Na América Latina, ser mulher é um risco de vida. As estatísticas sobre feminicídio e femicídio são avassaladoras. Todos os dias pessoas morrem por ser mulher, ou por apresentar uma identidade ou expressão de gênero distinta da heteronormatividade compulsória. Todos os dias crianças são forçadas a ser mães contra a sua vontade, todos os dias meninas grávidas se suicidam, e existe um silêncio imperdoável sobre isso. Há muito por ser feito para que o corpo das mulheres seja um espaço de paz, e não de guerra suja, como é atualmente.

Ao mesmo tempo, na América Latina, as mulheres protagonizam movimentos para avançar em temas-chave, como violência, direitos sexuais e reprodutivos, visibilização, metrificação e pagamento pelo trabalho do cuidado, que é quase inteiramente feminino por aqui. As mulheres são capacitadas, sabem se organizar, sabem avançar e vão conquistando espaços com muita luta e articulação política. Há muitos movimentos trazendo consciência e propostas concretas nos âmbitos social, cultural e legislativo. É necessário dar espaço para que essas propostas sejam debatidas com seriedade pela sociedade, mas, se depender das mulheres e de sua articulação, o progresso é inequívoco.

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CP - Há oito anos, você decidiu viver apenas em países do Sul Global. O que a levou a tomar essa decisão?

LZ - Eu queria estar junto das pessoas que estavam tentando, de uma maneira muito prática e concreta, mudar as coisas para melhor, atenuar o sofrimento humano. Quando tomei essa decisão, eu morava em Amsterdã e sentia um aperto cada vez maior ao deixar meus colegas no Congo, em El Salvador ou na Guatemala, ou ao falar com colegas arriscando suas vidas no Sudão. Acho que é possível fazer a diferença de qualquer parte, mas, nessa fase da vida, eu queria estar junto, construindo propostas e possibilidades do Sul Global para o Sul Global.

CP - O livro que você está lançando relata que a yoga ajudou você a superar limitações corporais e a se reconectar com o corpo depois de experiências traumáticas. Que limitações e experiências foram essas?

LZ - Estar próxima da morte, documentando-a diariamente, me fez muito mal. Sentia que havia olhado para o mal nos olhos, e isso pode te paralisar, te deixar cínica e desesperançada. Sentia dor e raiva o tempo todo: pelas pessoas que matavam umas às outras, pelos interesses mesquinhos de quem podia tentar impedir isso localmente e não se importava, e pelo mundo que permitia que assassinatos ocorressem impunemente, sem merecer sequer uma notinha no jornal, como se aquelas vidas não valessem nada.

Tentei parar a dor com a comida, como desse. Cheguei ao limite do que meu corpo podia suportar para aguentar aquele nível de sofrimento. E aí precisei mudar a minha relação com o trabalho, com a vida e, sobretudo, entendi depois, com o meu corpo.

| Foto: Letícia Zenevich / Arquivo Pessoal / CP

CP - E como a yoga contribuiu para essa reconexão com você mesma?

LZ - O yoga me ensinou sobre não violência e sobre como ela começa na gente mesma. Enquanto eu tentava ajudar os outros, não me passava pela cabeça me tratar bem durante esse processo. Depois, o yoga foi me mostrando a potência do meu corpo quando eu me conectava com ele, o quanto ele era meu aliado, e não um inconveniente, como eu o tratava. Fui me movendo por dentro e por fora, sendo gentil comigo mesma, esticando bem os braços. Pode parecer pouco, mas é, de um jeito realista, extremamente transformador.

CP - Por fim, que reflexões compartilhadas em seu livro podem ajudar outras mulheres que também vivenciaram traumas?

LZ - Por isso escrevi esse livro. Não acredito em soluções únicas ou pasteurizadas, mas queria compartilhar o que me trouxe de volta para uma vida cheia de significado, uma vida mais integrada comigo mesma, uma vida longe de ser perfeita, uma vida que segue ocorrendo, em sua maior parte, em zonas longínquas de guerra civil. Mas que agora consigo levar com mais leveza e aceitar a sua complexidade e os dias ruins como parte do processo. Eu queria contar que a gente pode olhar o mal nos olhos, sentir seu cheiro, e escolher ir por outro lado, para dentro da gente mesma. É um caminho desafiador, mas também bonito demais.