Julia Dantas não sabe muito sobre a onda dos bebês reborn nem como poderia colaborar com esta reportagem. Mas a narradora de “A Mulher de Dois Esqueletos”, o mais recente livro da autora gaúcha, lançado pela Dublinense no ano passado, é uma escritora que está chegando aos 40 anos e questionando se ela quer ser mãe, se cabe um bebê em sua vida. Então, ela lembra de um filme americano no qual alunas de uma escola recebem bonecas, às quais tinham que cuidar, como parte de um programa de prevenção à gravidez na adolescência. Assim, instintivamente, ela cria a sua própria boneca. Não, ela não vai a uma maternidade de bebês reborn adquirir seu exemplar, mas imprime um amontoado de dúvidas sobre ter um filho e amassa os papeis. Esta é sua filha.
Julia não lembra o nome do filme mencionado no livro, mas confirma que ele é real: deve ser uma produção dos anos 1980 ou 1990, que ela viu na televisão. Afinal, Julia, assim como sua personagem, tem quase 40 anos. Não descobrimos qual é o filme, mas outro exemplo da ficção nos aponta que a prática de cuidar de bonecos (ou outros objetos) talvez seja comum nos programas de educação sexual de colégios norte-americanos.
👀Mais estranho que a ficção
Em um episódio da série “Todo mundo odeia o Chris”, exibida no Brasil pela Rede Record, o protagonista deve zelar por um frágil ovo, tarefa que se torna mais complexa com a intervenção da mãe, que, afinal, não quer “criar neto nenhum”. Porém, enquanto Rochelle, mãe de três adolescentes, não quer mais bebês em casa, a narradora criada por Julia sequer sabe se quer ter um. Ela voluntariamente carrega a boneca, que parece demandar mais energia até que sua cachorra, a quem de fato precisa levar para passear e pesquisar hospedagem em hotel para poder viajar.
A boneca de papel amassado é, na estética, bem diferente dos bebês hiper realistas, cujas histórias vêm dominando a Internet nas últimas semanas. Mas, assim como os relatos sobre quem leva seu reborn a toda a parte, de encontros no parque a consultas médicas, a narradora de Julia decide carregar seu bebê consigo, mantê-lo à vista e aquecido. Ela quer testar a existência do bebê em sua rotina, não muito diferente do que alegam algumas famosas que “adotaram” os reborn para “treinar a maternidade”, como Gracyanne Barbosa e Nicole Bahls. “A personagem está tentando descobrir se um nenê caberia na vida dela, na rotina dela. A boneca cumpre esse papel, talvez não tanto de treinar habilidades, mas de ensaiar para ver se dá para abrir esse espaço na vida. Talvez os bonecos reborn também tenham isso”, avalia a escritora.
Dilema feminino
Julia não esperava uma comparação entre a nova febre do momento e a criação de sua narradora. “O que a personagem faz é o total oposto de ultra realismo, é um papel amassado!”, diverte-se. Mas topou conversar com a gente para tentarmos traçar um paralelo entre as experiências com a boneca do livro e com o bebê reborn, analisar o caráter consumista dessa moda e frisar as diferenças que marcam o desejo - ou não - de ter filhos entre homens e mulheres. Confira a entrevista:
Correio do Povo: Você está a par da nova febre de bonecos realistas de bebês, os chamados reborn?
Julia Dantas: De bebês reborn eu não sei nada, só sei que é febre. De repente virou um assunto, viralizou, pauta de programa de TV. Vi alguma matéria que falava de uns encontros de pessoas que têm os bebês reborn. E ouvi toda uma polêmica de alguém, supostamente, tentar levar no posto de saúde, que eu nem sei se é verdade ou não, me pareceu coisa de Internet. Me pareceu fake. Mas vi que o tema aconteceu, que de repente era assunto.
CP: Já tinha feito ou ouvido alguma analogia com a experiência da narradora de "A mulher de dois esqueletos"?
Julia: Não, não não. É a primeira…
CP: Você foi uma visionária…
Julia: Ah, mas a minha é completamente diferente, né. Porque, enfim, reborn é ultra realista. E o que a personagem faz é o total oposto de ultra realismo, é um papel amassado! (risos)
CP: Algumas pessoas têm usado bebês reborn para treinar habilidades parentais e compartilhado essas experiências, seja em encontros presenciais ou no mundo virtual. Já no livro, a personagem atribui a função de bebê a uma boneca, improvisada de papel com uma lista de dúvidas. A experiência parece mais intimista, voltada para si, mas a boneca “feia” causa estranhamento. Você acha que ela seria melhor compreendida “maternando” uma boneca realista?
Julia: (Risos) Boa pergunta, eu não sei, mas a sensação que eu tenho é que as pessoas acham esquisito isso da boneca reborn, que nem acham esquisito o que a personagem faz. As pessoas que lêem me dizem: “Ela tá doida”. As pessoas estranham [a de papel] e acho que também estranham os bonecos reborn, acham esquisito mesmo. Eu acho esquisito também, na real. Mas talvez ela estivesse mais dentro da cultura se fosse uma boneca reborn. Tem uma coisa até mais dentro do capitalismo, ir lá e comprar uma boneca hiper realista, e aí vai comprar as roupinhas e o que mais as pessoas compram para seus bonecos reborn, tem uma coisa consumista. E a personagem não, ela pega uns papeis quaisquer. Então acho que rola, sobretudo, essa diferença, o boneco reborn parece ser uma coisa meio fetiche de consumo. Isso olhando de fora, claro. Não conheço ninguém que tenha.
CP: Ninguém conhece ninguém que tenha, mas é o assunto do momento…
Julia: Louco isso também, né, porque deve ser uma coisa super de nicho e, enfim, virou um assunto.
CP: As mulheres têm sido criticadas por esse novo hobby, enquanto homens podem jogar videogame e colecionar bonecos action figure, e brincar ou ter uma devoção tipo fetiche e nem tirar da caixa. Parece que o errado sempre é ser mulher. Ao mesmo tempo, a sociedade estimula desde cedo as meninas a brincar de boneca, de casinha, “aprender” responsabilidades maternais e domésticas, enquanto os meninos são mais estimulados à aventura, ao esporte. Parece que esse é o papel feminino, mas que tem uma idade limite para brincar de boneca. E tem se passado cada vez mais tempo entre esse limite e a maternidade de fato, as mulheres têm tido filhos mais tarde. Será que a gente precisa retreinar, voltar a brincar de boneca na fase adulta?
Julia: Olha, tem algo ali. A personagem está tentando descobrir se um nenê caberia na vida dela, na rotina dela. A boneca cumpre esse papel, talvez não tanto de treinar habilidades, mas de ensaiar para ver se dá para abrir esse espaço na vida. Talvez os bonecos reborn também tenham isso. Não sei quantas pessoas compram pelo ensaio. Eu nem sei… Eles são bonecos realistas também de… eles mijam e sei lá…?
CP: Pelo que eu vi, não. É só a estética. A gente ainda tinha, nos anos 1990, aquelas bonecas que faziam xixi, falavam, né?
Julia: Existia isso, né? De dar mamadeira e apertar em algum lugar e ela fazia xixi, né? Mas eu não tive.
CP: E essa não é uma preocupação masculina.
Julia: Não, não é. Não é.
CP: No livro, o companheiro da narradora até respeita o experimento, acha graça da boneca, mas não se assume como pai daquele amontoado de dúvidas.
Julia: Ele não entra.
CP: Você coloca que é preciso muito para ser uma boa mãe, mas muito pouco para um bom pai. Além disso, os homens não têm esse limite de idade para se tornarem pais, eles não precisam correr contra o relógio biológico, e de certa forma também está implícito na nossa sociedade patriarcal que os cuidados com os filhos vão recair sobre a mulher.
Julia: Eles têm também - quer dizer, eu acho, né, claramente eu não sou homem -, liberdade, se sentem mais livres para fazer essa escolha, muito mais relaxados por saberem, mesmo que de algum modo meio inconsciente, mas eles sabem que têm a garantia da mulher. Eles sabem que se forem ruins nessa tarefa, ou desistirem, ou se separarem, se forem embora, tudo bem, porque eles têm a certeza de que tem alguém ali que eles sabem que vai dar conta. Porque é isso que as mulheres fazem sempre. Mesmo que o cara decida desaparecer no mundo, uma mãe vai estar ali dando conta daquele bebê. Então acho que é por isso que eles não se preocupam em ir atrás de um boneco, porque eles já têm a garantia.
CP: Então, a narradora não sabe se cabe um filho na sua vida, mas o companheiro, que ocupa espaço na casa dela e empilha louças na pia com uma desenvoltura toda masculina, não tem esse dilema. É um drama muito solitário dela.
Julia: Acho que é isso. A coisa da idade é outra garantia dos homens. Eles podem ter filhos mais velhos - isso pode até gerar problemas de saúde que ninguém fala muito. Mas eles têm essa possibilidade. Então isso faz com que para eles o dilema ou a dúvida pode ser sempre adiado. E para as mulheres, não. Chega uma hora que, se tu quer filho biológico, quer engravidar, tem data. Isso muda muito a postura de abordar a coisa. Por que a minha personagem mesmo, se não fosse a questão da idade, talvez ela não estivesse pensando nisso. Ela ia investir na carreira dela, nas coisas que ela quer fazer e deixar para depois. Mas daí chega aquele momento que não dá. É uma imposição que vem, não de fora, mas do corpo, é uma imposição que está muito além da vontade dela, senão ela teria adiado mais dez anos, se fosse possível.
CP: O tempo é um gatilho para ela criar a boneca. No livro, a personagem está prestes a completar 40 anos. E mulheres também sofrem pressão social para se tornarem mães. Isso reflete uma inquietação sua, como autora: de se tornar mãe ou de ser pressionada nesse sentido?
Julia: Acho que eu sou privilegiada nesse sentido, de a minha família não ter isso, não tocar essa pressão. Mas a sociedade sempre exerce alguma força, alguma influência, embora ache que até cada vez menos. Pelo menos na nossa bolha, na nossa classe social, no nosso perfil demográfico: mulheres de classe média, profissionais. Acho que está cada vez mais normal não ter filhos e essa pressão está cada vez mais significativa. O que pega mesmo ainda é a questão da idade. Eu nem estava pensando nisso e, de repente, talvez eu devesse pensar, já que estou chegando aos 40 anos. Se eu quiser pensar nisso, é agora.
CP: Mas essa pressão ainda existe. Recentemente, a atriz Paolla Oliveira, que é uma mulher bem-sucedida, falou em entrevista que sofre questionamentos por não ser mãe, e comentou que já foi rejeitada por campanhas publicitárias por isso: como não tem filhos, não faz o perfil “família”. Ainda é um lugar que mesmo mulheres privilegiadas são pressionadas.
Julia: Acho que dependendo de onde tu vai circular isso realmente tem impacto. Eu circulo em meios mais progressistas, não na publicidade nacional, que é super conservadora. Mas, com certeza, ainda existe esse superconservadorismo.
CP: A personagem também tem uma cachorra. E ela até diz que, às vezes, quando sai para passear, perguntam “treinando para ser mãe?”, ao que ela responde “não, treinando para ter um cachorro”. E esse animal demanda cuidados bem reais e de ordem prática, como alimentação, saúde, higiene. A criação da boneca-bebê na história busca explicitar essa diferença de entendimento, entre ser tutora de pet e mãe? Porque tem gente que trata pet como filho também.
Julia: É, não fiz de modo tão consciente, mas eu acho, sim, que são coisas muito diferentes. É incomparável o grau de demanda de um pet e de um nenê. O cachorro é muito mais independente que um nenê, o cachorro fica sozinho em casa. Enfim. Não fiz de modo consciente, pensando em marcar a minha “crença social” de que são coisas diferentes. Mas eu acho que são. Eu não conseguiria colocar ela transformando aquele cachorro num substituto de filho. Acho que não teria a ver com ela e daí já viraria outro assunto, transformar um pet, que não é uma criança. E nem é bom para o pet ser transformado em uma criança. É outro universo.
CP: A boneca reflete muito a persona da narradora, que é escritora. Ela é uma boneca de papel amassado com seus textos. Mas a história começa num momento histórico bem específico e que todo mundo viveu, que foi a pandemia de Covid-19. Sua personagem passou a quarentena com o namorado. Nessa época, a gente começou a ficar muito tempo online e fazer muitas compras online. Se já houvesse a onda de bebês reborn, você acha que ela poderia ter pesquisado e comprado um?
Julia: Guria, talvez! (risos) Sei lá, né. É muito doido pensar, mas é uma época em que tava todo mundo meio maluco, na pandemia. Então acho que as pessoas estavam fazendo maluquices variadas. Tem gente que foi fazer pão, pode ter gente que comprou bonecos. Mas foi um período tão maluco que acho que qualquer prática de sobrevivência era bem-vinda. Qualquer coisa que se conseguisse ter, para manter um mínimo de sanidade, seria válido.
CP: E você? Teria um bebê reborn?
Julia: Não, de jeito nenhum. Nada contra quem tem, mas eu não vejo sentido. Nem como boneca nem como treino, não entendo muito a atração. Mas também não tenho os bonequinhos action figure, então apenas não sou da prática dos bonecos, não é do meu feitio.
