Cara a leitora,
Passei a semana pensando num post que circulou pelas redes e me reconheci nele. O tema: a filha que resolve tudo. Meu primeiro impulso foi transformá-lo numa reflexão só sobre mulheres. Mas o ponto, percebi, é maior do que isso.
Existe um tipo de pessoa que, sem perceber, virou função antes de continuar sendo gente.
Não necessariamente é filha, nem é mulher. Pode ser o colega que todo mundo aciona numa crise. O amigo que está sempre disponível. A pessoa que mantém a estrutura em pé, familiar ou profissional, enquanto todo mundo ao redor simplesmente vive.
Quando algo acontece, todo mundo liga para ela. Mas quando ela desaba, ela não sabe nem para quem ligar.
Compartilhei esse post com a Sheila Maria Prates, escritora por quem nutro enorme admiração. E em vez de só comentar, fiz o que toda pessoa que resolve tudo deveria aprender a fazer mais: pedi ajuda. A convidei para escrevermos juntas.
Esse papel, o do forte, raramente foi escolhido. Ele é construído. Às vezes pela família. Às vezes pelo ambiente de trabalho. Às vezes porque aquela pessoa percebeu cedo, muito cedo, que alguém precisava manter tudo de pé, e ela tinha jeito, ou não tinha saída mesmo.
Ninguém acorda um dia e decide ser forte. A força aparece quando a escolha desaparece. E aí nasce um mecanismo silencioso: ela passa a existir através da capacidade de sustentar os outros. Organiza, antecipa, protege, resolve, acalma. E vai perdendo, aos poucos, o direito simbólico de fraquejar.
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Pedir ajuda ameaça a identidade inteira que foi construída em torno da estabilidade. Então ela não pede.A Sheila sabe disso. Eu também sei. E agora a palavra é dela.
O tempo me ensinou cedo que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e que as circunstâncias impactam o tipo de força que desenvolvemos na vida. Sina se ensina. Algumas pessoas, como eu, por amor ou por necessidade, acabam abrindo precocemente mão da vida que os outros esperam que elas vivam.
Estar sempre disponível, no front da vida, abre feridas, mas também abre a mente e, com sabedoria, o coração. Lendo e escrevendo biografias de pessoas transformadoras, percebo que nenhuma delas era necessariamente mais inteligente ou talentosa. Estavam apenas onde ninguém queria estar. Não por acaso, "vencedor" e "empreendedor" carregam "dor".
Conviver é uma arte...marcial. Sempre vi a força como aquela bela imagem de tapeçaria, mas que ao avesso esconde nós e fios emaranhados por mãos nem sempre nossas. Aprendi que gentileza nem sempre gera gentileza. Aprendi que às vezes ser ponte é importante, mas ser muro é essencial. As terras onde habitam a minha dignidade, a minha paz e autoestima, não podem ser invadidas, precisam erguer fronteiras. Nestes limites, dizer "não" ao outro é dizer "sim" para mim mesma. Em algumas histórias eu serei a heroína, em outras, a vilã. É o preço que aprendi a aceitar.
A velejadora Tamara Klink disse em uma entrevista que "é incrível quanto tempo sobra quando a gente só precisa ajudar a si mesmo". Ajudar apenas a si mesmo, sem culpa, será possível? O que eu sei é que o mar que me levará para as minhas melhores e futuras experiências tem o tamanho da força que construo para encarar os tsunamis da jornada. Sigo navegando, às vezes em solitário, porque a segurança do porto não pertence aos realizadores.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
