Elisa Fernandez

A responsabilidade é minha, a vitimização não

Elisa Fernandez reflete sobre o poder de assumir a própria vida e romper com os ciclos tóxicos

Assumir a responsabilidade significa reconhecer sua parcela de influência sobre aquilo que está reclamando ou desejando mudar
Assumir a responsabilidade significa reconhecer sua parcela de influência sobre aquilo que está reclamando ou desejando mudar Foto : Freepik

Cara leitora,

Domingo de chuva é o dia ideal para escrever a coluna, mas bom mesmo é quando você encontra o tema onde menos espera, no Instagram.

Em um vídeo que assisti, a jornalista e escritora Mônica Salgado questiona: “qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” A frase é de Freud, e o objetivo do vídeo era falar sobre autorresponsabilidade. Assim como o vídeo, a frase é provocativa e pode abrir muitos insights. Quer reflexão melhor?

Mas, para falar sobre essa autorresponsabilidade que ela traz de forma brilhante, foi inevitável pensar antes na vitimização. Sim, um tema que também mexe fundo porque todo mundo já passou, ou passa, por ela, ainda que em doses diferentes.

A vitimização é aquele padrão psicológico e comportamental em que a pessoa assume o papel de vítima de forma recorrente, colocando a causa de suas dores, frustrações e fracassos sempre em fatores externos: “os outros”, “o destino”, “o sistema”, “a vida”. Você conhece gente assim?

Claro que não estou falando aqui de situações em que alguém foi realmente vítima de violência, abuso ou injustiça, isso é legítimo. O que diferencia a vitimização é o estado de permanência, em que o indivíduo transfere a responsabilidade de sua vida para fora de si, repete narrativas de impotência e evita assumir o próprio protagonismo.

Olhar para fora é muito mais confortável do que olhar para dentro, afirma Mônica, e assumir a autorresponsabilidade significa reconhecer que você tem uma parcela de influência, de culpa, de poder, sobre aquilo que está reclamando ou desejando mudar.

A vitimização é olhar para o problema e esquivar-se de qualquer responsabilidade sobre ele, culpando o outro. Já a autorresponsabilidade é olhar para o mesmo problema e buscar a solução, pensar no que está ao seu alcance para mudar. A vitimização paralisa, autorresponsabilidade emancipa.

Vejo muita gente que se prende a esse padrão. É o amigo que culpa os pais pela falta de afeto, mas nunca buscou terapia ou formas de se curar. É o colega de trabalho que nunca assume riscos, mas culpa a empresa por não crescer. É a pessoa que vive reclamando do parceiro, mas não se dá conta de que também alimenta o ciclo.

Eu mesma escolhi não alimentar essa narrativa de vitimização. Prefiro encarar minhas escolhas de frente, sabendo que assumir responsabilidades dói, e não é pouco, mas liberta. No fim, quando olho para o copo meio cheio, vejo que é isso que me move para frente. Aprendi na prática que autorresponsabilidade não é fingir que a vida é fácil, mas decidir todos os dias o que vou fazer com o que me aconteceu.

No fim das contas, vitimização é como deixar a louça acumular na pia e reclamar do cheiro ruim. Autorresponsabilidade é arregaçar as mangas e lavar o prato. Simples assim. Você pode passar a vida inteira apontando culpados, mas ninguém vai viver a sua vida por você. A vida não devolve o tempo perdido, não repara injustiças, não pede desculpas. Mas sempre oferece uma escolha: ficar parado reclamando ou se levantar e agir.

Então, se a pergunta de Freud ecoa, “qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”, talvez a resposta mais honesta seja: a responsabilidade é minha!


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.