Elisa Fernandez

As Pontes de Madison: a coragem de ficar

Elisa Fernandez analisa a renúncia de Francesca, trazendo um debate sobre o amor que desperta, o peso da rotina e o preço das decisões mais difíceis

Como reflete Elisa Fernandez, a sequência da chuva mostra o exato momento em que Francesca decide qual perda conseguirá suportar
Como reflete Elisa Fernandez, a sequência da chuva mostra o exato momento em que Francesca decide qual perda conseguirá suportar Foto : Divulgação / CP

Cara leitora,

Dia desses li uma pergunta que me deixou curiosa: por que tanta gente foge do amor disponível? Para Freud, o inconsciente não escolhe a pessoa. Escolhe ficar longe do que ameaça a vida que já construímos.

Mas existe uma pergunta menos comentada: o que fazemos quando aparece alguém disponível, querendo ficar de verdade? Foi nela que pensei ao lembrar de um clássico do cinema de 1995, "As Pontes de Madison", um daqueles filmes que parecem simples, mas ficam ecoando por muito tempo depois que terminam.

O que faz esse filme ser um clássico não é apenas a história de amor. É o fato de desafiar uma ideia muito difundida: a de que o amor verdadeiro sempre termina com duas pessoas juntas.

Francesca, interpretada por Meryl Streep, não é uma mulher infeliz. Ela tem um marido decente, filhos, uma rotina construída ao longo de anos. Mas essa rotina também adormeceu uma parte dela. Ela deixou de ser apenas Francesca para ser esposa, mãe e dona de casa.

Então aparece Robert Kincaid, vivido por Clint Eastwood. Ele não chega para "salvá-la". Simplesmente enxerga quem ela ainda é. E faz com que ela volte a se enxergar. O filme não trata esse encontro como fuga. Trata como espelho: mostra o que significa ficar quando ficar também dói.

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Há uma frase que resume bem essa ideia: "esse tipo de certeza só acontece uma vez na vida." É uma declaração poderosa, mas também controversa. Será que existe apenas um grande amor? Ou existem amores que revelam versões diferentes de nós mesmos? O filme deixa essa pergunta em aberto.

Há uma sequência considerada uma das maiores da história do cinema romântico, a cena da chuva. Francesca está dentro da caminhonete com o marido. À frente, Robert espera no semáforo. Bastaria abrir a porta. Ela segura a maçaneta. Não abre.

Não há música dramática, nem discurso. Apenas uma mulher vivendo, em poucos segundos, a maior decisão da própria vida.

Quando revi esse filme anos depois, ele me pareceu completamente diferente. Na juventude, muita gente torce para que Francesca vá embora com Robert. Com mais experiência de vida, a pergunta muda. Não é "com quem ela deveria ficar?", mas "qual perda ela conseguiria suportar?".

Se fosse com Robert, perderia os filhos, a identidade construída, a estabilidade. Ficando, perderia um amor extraordinário. Não existe final feliz. Existe apenas a escolha cujo preço ela decidiu pagar.

Essa é a grande maturidade do roteiro. O amor aparece como força transformadora, mas não como autorização para abandonar tudo. Pessoas boas podem machucar outras pessoas mesmo agindo por amor, e fazer o que se considera certo não impede uma tristeza profunda.

Por isso, Meryl Streep entrega uma atuação tão extraordinária. Ela interpreta quase tudo no silêncio: um olhar, uma pausa, uma mão hesitando sobre uma maçaneta.

Talvez seja essa a razão de As Pontes de Madison continuar tão atual. Não fala sobre encontrar o amor da vida, mas sobre o que acontece quando o amor aparece depois que a vida já está construída. E fica a pergunta que devolvo a você: quando alguém disponível aparece, de verdade, querendo ficar, sabemos reconhecer? Ou já nos acostumamos tanto a fugir, que ficar virou o desafio maior?

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.