Elisa Fernandez

Nonnamaxxing: o movimento que desafia a cultura da pressa

Movimento no TikTok valoriza ritmo lento e hábitos de avós italianas para combater estresse e produtividade tóxica

Talvez o verdadeiro luxo de 2026 seja caminhar sem contar passos, explica Elisa Fernandez
Talvez o verdadeiro luxo de 2026 seja caminhar sem contar passos, explica Elisa Fernandez Foto : Magnific / Divulgação / CP

Cara leitora,

Você que acompanha minhas andanças semanalmente sabe que há pouco tempo estive na Itália. Foi lá em Sorrento que conheci Nino e Giuseppe, escrevi sobre fé, andanças e presença. Ainda influenciada pela viagem, venho falar sobre o nonnamaxxing. Você sabe o que é nonnamaxxing?

Nonnamaxxing é uma das tendências comportamentais mais comentadas de 2026, nascida no TikTok e no Instagram. A ideia central é abraçar o ritmo mais lento e intencional de uma avó italiana, a "nonna", incorporando hábitos como cozinhar do zero, caminhar, ter refeições longas em família e reduzir o tempo de tela.

A origem e o embasamento do nonnamaxxing

O conceito ganhou força quando a marca de skincare @tallowtwins publicou um carrossel no Instagram, em fevereiro de 2026, apresentando esse estilo de vida como um antídoto à vida americana contemporânea. Mas o sentimento já circulava antes: um post muito compartilhado no X (antigo Twitter) dizia, em síntese, que enquanto todo mundo faz coisas absurdas para viver mais, existe uma nonna de 102 anos em uma aldeia costeira italiana comendo macarrão artesanal e tomando uma taça de vinho no jantar, completamente tranquila.

Mas não pense que estamos falando de mais uma terminologia criada nas redes sociais. Estamos falando de algo com embasamento científico, e é isso que diferencia esse comportamento da maioria dos modismos atuais.

A Itália é consistentemente um dos países com maior longevidade do mundo. A Sardenha é uma das cinco Zonas Azuis do planeta, aonde pessoas chegam regularmente aos 100 anos. Pesquisas ligam esse estilo de vida, sem pressa, comunitário e fisicamente ativo por default, a menores taxas de doenças crônicas, função cognitiva mais aguçada na velhice e maior bem-estar.

Por que o nonnamaxxing importa hoje

Não é apenas uma moda curiosa, é um reflexo do nosso tempo. Uma pesquisa da MetLife, realizada em 2025, mostrou que 46% dos trabalhadores da Geração Z convivem regularmente com o estresse. Por isso, o estilo de vida inspirado nas nonnas italianas vai muito além da estética. Representa uma reação ao cansaço e à pressão da produtividade constante. Segundo um psicólogo ouvido pela revista SELF, o nonnamaxxing tem menos relação com as avós italianas de verdade e mais com o desejo dessa geração de desacelerar.

Descobri, com certa ironia, que o nonnamaxxing é o que já pratico nos meus melhores dias. Só não sabia que tinha nome.

Talvez o verdadeiro luxo de 2026 não seja morar em uma casa maior, trocar de carro ou descobrir o próximo aplicativo que promete otimizar a vida. Talvez seja conseguir almoçar sem olhar para o celular. Caminhar sem contar passos. Cozinhar sem pressa. Conversar sem conferir notificações.

A ironia de uma vida mais simples

As nonnas nunca chamaram isso de fenômeno. Chamavam simplesmente de viver.

E talvez essa seja a maior ironia do nonnamaxxing: a geração que cresceu acreditando que precisava acelerar para chegar mais longe agora atravessa o oceano para pedir conselhos a senhoras que jamais ouviram falar em algoritmo, produtividade tóxica ou biohacking.

Se uma avó italiana pudesse dar apenas um conselho, provavelmente não seria "vá atrás dos seus sonhos". Seria algo muito mais desconcertante: "Senta. Come primeiro. Depois você vê."

E desconfio que faz tempo que a vida tenta nos dizer exatamente a mesma coisa.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.