Elisa Fernandez

Entre o vidro e o desrespeito, um ataque à inteligência

Elisa Fernandez parte de um episódio recente para refletir sobre como mulheres ainda são subestimadas em muitos espaços, inclusive nos afetos

Ainda se espera que mulheres aceitem caladas o que não está certo
Ainda se espera que mulheres aceitem caladas o que não está certo Foto : Freepik

Cara leitora,

Na semana passada, vivi uma situação que me tirou do sério. Compartilhei nas redes, mas achei que valia trazer para cá também — porque o que parecia apenas um desabafo virou um ponto importante de reflexão. Principalmente porque não sou de me irritar com facilidade, e menos ainda de levantar bandeiras.

Mas talvez o que eu deteste ainda mais do que levantar bandeiras seja ter minha inteligência subestimada.

Tudo começou com uma pedrinha que atingiu o para-brisa do meu carro e provocou uma trinca. Agendei a troca com a seguradora, tudo certo. Levei o computador, fui até a loja e fiquei na salinha, tocando reuniões enquanto o serviço era feito.

Na chegada, já fui surpreendida com a tentativa de incluir um serviço extra — que não fazia parte do orçamento e nem tinha garantia de necessidade: “Pode ser que a câmera de ré precise ser recalibrada. Se for o caso, são R$ 500. Antecipado. Sem certeza de que será necessário.”

E se não fosse necessário? Bem... o prejuízo ficava comigo. Um ótimo negócio — para eles, claro.

Três horas depois, fui chamada. O vidro, trocado. Mas a borracha? Encolhida, mal encaixada, com cola aparente e claramente reaproveitada. Questionei. Vieram as desculpas: que não tinham a peça, que precisavam de autorização da seguradora, que era assim mesmo.
E um detalhe: durante todo esse tempo, ninguém me procurou para dar uma posição ou confirmar qualquer alteração no serviço.

Só esqueceram de um detalhe importante: a dona da corretora de seguros é minha amiga. E enquanto tentavam me enrolar, eu estava com ela ao telefone.
Sim, havia borracha.
Sim, havia autorização.
Sim, eles podiam — e deviam — ter feito certo desde o início.
Mas não fizeram.
Porque acharam que eu não ia perceber.
Porque, até hoje, existe essa mania de subestimar a inteligência da mulher em ambientes “masculinos”.

E não é sobre um erro técnico. É sobre a escolha consciente de entregar um serviço malfeito esperando que a cliente — mulher, sozinha — aceite calada.

E a gente vai somando essas pequenas indignações. Porque não é só na oficina. É no mercado, no hospital, na empresa.

E, sim, também nos relacionamentos.

Quando o questionamento sobre respeito é deturpado e rotulado como “ciúmes”.
Respeito não se exige — se oferece.

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Acredito que o que é bonito é para ser visto e admirado, de ambos os lados. Mas tem situações que ultrapassam o bom senso. Aquelas cenas clássicas: você está num restaurante, num evento, e o parceiro (ou parceira) flerta com alguém na sua frente.
Confesso: posso viver mil anos e ainda não vou entender esse tipo de comportamento. Mas claro que cada qual com suas regras. O acordado não sai caro.
Não pelo flerte em si — o vento sopra para todos os lados. Mas por maturidade, paz ou talvez por termos sido educadas, por muito tempo, a fingir que não vimos para evitar conflito.

E se você questiona, a resposta vem pronta: “Você está com ciúmes.”

Mas não é ciúmes. É radar. É percepção. É inteligência.

Existe uma diferença enorme entre ser ciumento (a) e ter percepção. E essa diferença mora nesse lugar afiado e silencioso de quem observa, conecta pontos e simplesmente sabe.

Subestimar a inteligência de alguém — seja na oficina ou no amor — não é só um erro. É, acima de tudo, um ato deselegante.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.