Cara leitora,
Saudade! Quando foi a última vez que esteve verdadeiramente consigo? Já parou para pensar que estamos quase sempre rodeados de pessoas? Seja no trabalho, em casa, em eventos, no vai e vem do dia a dia.
Há pouco mais de dois anos, fiz minha primeira viagem sozinha, (e não a trabalho!) em mais de uma década. Tirei férias. De verdade.
A viagem não foi exatamente planejada. Não tinha como objetivo fugir de nada nem de ninguém. Foi uma oportunidade que apareceu e que, num raro momento de coragem sem cálculo, eu abracei. E que maravilha!
De repente, lá estava eu: sozinha em um avião cruzando o Atlântico, disposta a “desbravar novos mundos”, reencontrar amigos, conhecer gente nova, criar memórias inéditas e, sobretudo, me permitir estar na minha própria companhia.
Enquanto o avião sobrevoava o oceano, não foram poucas as vezes em que me peguei pensando: “Pra quê?”, “Por quê?”, “Como vai ser?”. O coração acelerava, o estômago gelava. Medo? Sim. Mas aprendi que o medo só aparece quando a gente se importa. E eu, claro, havia deixado tudo o que tenho de mais precioso aqui. Os dois primeiros dias foram estranhos, aquela sensação de quem não fazia nada semelhante há tanto tempo.
Mas, passado esse primeiro momento, algo dentro de mim começou a florescer.
Foram dias maravilhosos. Dias em que aprendi que o silêncio é um bom companheiro e que a liberdade tem outro sabor quando não é imposta, mas escolhida. Andar pelas ruas sem destino, sem horário para nada, dançar, cantar, rir, quando desse vontade. Parar para almoçar em um bom restaurante, com uma bela taça de vinho, e em minha companhia.
Em vários momentos, me lembrei do filme Sob o Sol da Toscana, que adoro. A história de uma mulher que, depois de um divórcio, decide recomeçar a vida comprando uma casa antiga na Itália. Uma escritora, assim como eu, tentando reescrever a própria história, no papel e na vida.
O que me encanta nesse filme é a forma como ele traduz as incertezas do recomeço. Frances, a protagonista, não tinha todas as respostas. Aliás, não tinha quase nenhuma. Mas tinha coragem o suficiente para confiar no movimento da vida. Aos poucos, ela e aquela casa em ruínas vão se transformando. Tijolo por tijolo, ela vai se reconstruindo por dentro, enquanto a casa é refeita por fora.
Mas tem uma cena específica que me marcou: a amiga da protagonista dança numa fonte, no centro da cidadezinha, com uma alegria espontânea que remete aos filmes de Fellini. Um momento de entrega e encantamento que parecia dizer: “estou viva, e isso basta”. Pois é. Eu também dancei numa fonte. E, por incrível que pareça, não parecia fora do lugar. Era como se aquele gesto simbólico selasse o meu reencontro comigo mesma.
Foi ali que entendi: melhor do que dançar na fonte é beber da fonte da vida.
Essa viagem foi muito mais do que turismo, foi uma imersão. Um resgate. Descobri, com uma clareza quase brutal, que muitas vezes estamos mais sós quando acompanhados do que quando estamos, de fato, na nossa própria companhia.
Voltei diferente. Ou talvez só tenha voltado mais inteira. Descobri que estava morrendo de saudades de mim, e desde então, nunca mais me permiti me perder.
Então, humildemente deixo um conselho: não se perca de você a ponto de sentir saudade.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
