Elisa Fernandez

"Onde não puderes amar, não te demores”: o convite de Frida Kahlo à lucidez afetiva

Elisa Fernandez destaca a importância de reconhecer quando o amor está ausente e saber partir sem culpa, transformando a saudade em criação

Assim como fez Frida, é possível transformar a saudade em uma ponte criativa de volta para si mesmo
Assim como fez Frida, é possível transformar a saudade em uma ponte criativa de volta para si mesmo Foto : Sincerely Media / Unsplash

Cara leitora,

“Onde não puderes amar, não te demores.”

A frase de Frida Kahlo — uma das mulheres mais intensas e representativas de todos os tempos — é quase um sussurro ao ouvido. Uma convocação para viver com verdade e não desperdiçar energia onde não há reciprocidade, nem brilho no olhar.

Tenho refletido tanto sobre isso que resolvi trazer o tema — falar sobre inspirar e explorar nuances do amor — não só o amor romântico, mas o amor-próprio, o amor que sangra e cicatriza, e no caso de Frida, transformou dor em arte.

Aos seis anos, ela teve poliomielite, que deixou uma sequela na perna. Aos dezoito, sofreu um grave acidente de ônibus, onde um ferro atravessou seu corpo. Isso mudou o rumo de sua vida para sempre. A medicina, que era seu sonho inicial, ficou de lado, e a pintura tornou-se seu remédio, seu diário íntimo e sua libertação.

Frida foi uma mulher de paixões inteiras. Seu amor por Diego Rivera, embora conturbado, é parte central de sua biografia. Casaram-se em 1929, separaram-se e casaram-se novamente. Um amor cheio de contradições, mas também de profundidade. Ela o amava intensamente, mas também se amava o suficiente para reconhecer suas próprias dores e limites. É aí que sua frase faz todo sentido.

Frida amou outros homens e mulheres. Viveu sua sexualidade com liberdade e autenticidade em uma época em que isso era um escândalo. Não se conteve. Amava com a alma, com o corpo ferido e com o coração sempre pronto para mais uma tentativa.

Mas não era só sobre o amor ao outro. Frida é um símbolo do amor radical por si mesma, mesmo cheia de dores físicas e emocionais. Ela se autorretratou dezenas de vezes — não por vaidade, mas porque era quem ela mais conhecia. Sua imagem era sua armadura e sua vulnerabilidade.

Essa ideia de não se demorar onde o amor não floresce é um convite à lucidez afetiva. Um grito de autocuidado. De não insistir em amores que nos diminuem, lugares onde não somos vistos, relações em que o sentimento é unilateral.

Precisamos aceitar a importância de reconhecer quando o amor está ausente e saber partir sem culpa. É quase como uma bússola para o coração: se não houver reciprocidade, verdade ou presença, é melhor recolher velas e buscar outro vento. Mas isso não significa que a travessia será fácil — o amor pode acabar, mas a saudade costuma ficar um pouco mais.

Partir sem culpa é diferente de partir sem dor. A dor pode vir — e virá — mas quando a gente parte por amor-próprio, há uma paz que acompanha o passo.

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Agora, sobre o que fazer se a saudade bater — e ela vai bater, porque é humana e porque somos feitos de lembranças — aqui vai uma sugestão com a alma de Frida: transforme a saudade em criação. A saudade não precisa virar prisão; ela pode virar ponte. Uma ponte de volta para si. Ou, quem sabe, um reencontro com algo que também era amor e estava esquecido: você.

E se a saudade vier, ofereça uma cadeira, mas não um quarto inteiro. Deixe que ela conte sua história, mas não que decida o final.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.