Elisa Fernandez

Quando tudo desaba, a culpa pode ser da percepção

Na coluna, Elisa Fernandez reflete sobre como a sobrecarga emocional altera a percepção e faz pequenos problemas parecerem maiores

A sobrecarga emocional pode alterar a percepção e ampliar a sensação de que tudo está dando errado ao mesmo tempo
A sobrecarga emocional pode alterar a percepção e ampliar a sensação de que tudo está dando errado ao mesmo tempo Foto : Freepik / Divulgação / CP

Cara leitora,

Será que tudo desaba, ou é a nossa percepção que colapsa? Tenho pensado muito nisso ultimamente. Sabe aqueles dias em que não é um problema isolado que aparece? É a sensação de que a vida inteira decidiu te cobrar ao mesmo tempo. Você olha para um lado: problema. Vira para o outro: problema. E de repente, até o que ainda estava de pé começa a parecer frágil.

Já passou por isso?

Nada específico para nomear, mas também nada leve o suficiente para ignorar. Um acúmulo silencioso de pequenos solavancos, atrasos, ruídos e desencontros que, de repente, parecem formar um bloco único e pesado demais para carregar. Aí vem a pergunta inevitável: por que, quando algo dá errado, parece que tudo resolve dar errado junto?

O psicólogo Daniel Kahneman, que dedicou a vida a estudar como tomamos decisões, explica que nós somos programados para dar muito mais atenção ao que está errado do que ao que está funcionando. É um mecanismo de sobrevivência.

O problema é que, em dias difíceis, esse mecanismo distorce a realidade.

Não é que tudo desabou. É que a sua percepção entrou em modo de alerta máximo. E aí sim, a sensação é de que tudo desabou mesmo, não é?

Quando isso acontece, o cérebro começa a fazer uma espécie de curadoria do caos. Ele seleciona evidências, conecta pontos, amplia incômodos. Pequenas falhas ganham proporções maiores. Coisas que você lidaria com facilidade em um dia bom passam a parecer insuportáveis.

Não porque mudaram, mas porque você mudou.

Existe também um outro fator, mais silencioso e menos falado: quando estamos emocionalmente sobrecarregados, nossa capacidade de resposta diminui. A gente se comunica pior, decide pior, reage pior. E isso, sim, pode criar um efeito cascata muito real.

Não é energia. É comportamento sob pressão.

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E talvez seja por isso que esses períodos dão a sensação de que tudo está desmoronando ao mesmo tempo. Não porque a vida resolveu testar seus limites, mas porque você está tentando sustentar muitas frentes já sem o mesmo recurso emocional de antes.

Sentir que está tudo dando errado não significa que está. Parece óbvio, mas, no meio do turbilhão, não é.

Talvez o que falte não seja força para resolver tudo, mas permissão para não resolver tudo ao mesmo tempo. Reduzir o campo de visão. Escolher um problema. Depois outro. E, principalmente, nomear o que está acontecendo com mais honestidade: isso não é fracasso. Isso é sobrecarga.

Existe uma diferença enorme entre os dois, mas, quando estamos cansados, eles se parecem perigosamente iguais. Ambos um fardo.

A gente não precisa romantizar esses dias. Eles são difíceis mesmo. Desconfortáveis. Às vezes solitários. Mas também não precisa acreditar em tudo o que a mente diz quando está no limite.

E quando a gente finalmente para de procurar a causa lá fora, na situação, nas pessoas, no momento, é que começa a aparecer algo mais incômodo e mais honesto: a percepção de si mesmo. Não como culpado. Como ponto de partida.

Isso não é fácil. Mas é o único lugar de onde algo pode, de fato, mudar.

Porque nem tudo está desabando. Mas, quando a gente está tentando segurar o mundo inteiro com as mãos já cansadas, qualquer peso parece grande demais.

E talvez, só talvez, o movimento mais inteligente não seja tentar segurar. Seja soltar o que não precisa ser carregado. Nem que seja só por hoje.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.