A moda sempre gostou de se apresentar como criadora de tendências. Mas, na prática, quem dita o futuro do estilo muitas vezes não está na primeira fila de um desfile — está na rua, com o pé no asfalto, inventando códigos visuais que as marcas, depois, correm para traduzir.
Um dos movimentos mais fortes a surgir do cotidiano e ganhar status de alta moda tem nome e mensagem: Protect the Dolls.
O termo, nascido nas comunidades trans e travestis, significa literalmente “proteger as bonecas” — uma forma carinhosa de dizer “cuidar das nossas”. É ao mesmo tempo celebração da força e beleza das mulheres trans e exigência de respeito num mundo que tantas vezes tenta apagá-las. Essa energia migrou das esquinas, dos bailes e das redes sociais para as coleções de grandes grifes.
Nas passarelas de 2025, vimos jaquetas com frases de impacto. No Brasil, a camiseta com o lema “defenda as gatas” integra a campanha Defenda Quem Resiste, da ONG TODXS em parceria com a estilista Isaac Silva. No pop internacional, Mariah Carey apareceu no palco da Pride Brighton usando uma jaqueta com o slogan, transformando-o em hino visual.
A tendência traz vestidos com silhuetas inspiradas no clubwear das décadas passadas, maquiagens ousadas e acessórios que gritam: aqui estamos, lindas e vivas. É estética, sim — mas é também política. É transformar moda em manifesto. Não se trata de copiar um look; é sobre dar visibilidade e voz a quem sempre esteve na base da pirâmide fashion, mas raramente foi reconhecida como criadora.
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Essa migração do estilo urbano para a alta moda não é novidade. O streetwear, por exemplo, nasceu como uniforme de jovens negros e latinos nas ruas de Nova York e só virou luxo quando chegou ao calendário da Paris Fashion Week. A diferença agora é que a mensagem social não se dilui no caminho: ela chega intacta ao topo.
Designers não querem apenas inspiração; querem colaboração. E convidam modelos trans, estilistas independentes e artistas da cena ballroom para ocupar o lugar que sempre foi delas — o centro do palco.
A moda que vem das ruas não pede licença. É viva, direta e profundamente humana. E, quando vira alta-costura, não perde a alma — pelo contrário, ganha megafone. Protect the Dolls prova que a verdadeira elegância está em reconhecer e valorizar quem cria cultura todos os dias, muito antes de qualquer holofote se acender.
Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.
