Marina Käfer

Você ainda escolhe seus looks ou só aprova o que a IA sugere?

A colunista Marina Käfer reflete sobre o impacto dos algoritmos nas nossas escolhas de estilo e como manter a autenticidade no vestir

Aplicativos de estilo prometem facilidade, mas colunista Marina Käfer alerta para o desafio de manter a autenticidade na era digital
Aplicativos de estilo prometem facilidade, mas colunista Marina Käfer alerta para o desafio de manter a autenticidade na era digital Foto : Magnific / Divulgação / CP

Existe uma nova figura silenciosa participando das suas escolhas diárias e não, não é uma stylist, nem uma revista, nem uma tendência clara. É algo muito mais difuso: a inteligência artificial.

Ela não chega impondo. Pelo contrário, ela facilita sua vida.

Hoje, aplicativos organizam seu guarda-roupa, cruzam informações com clima, agenda e tendências, e entregam combinações prontas. O feed aprende o que você gosta, repete essa estética até ela parecer natural, e elimina o que não encaixa. Plataformas sugerem, refinam, ajustam.

E, de repente, vestir-se deixa de ser um processo e vira uma resposta a tudo que você vê on-line.

Nunca foi tão fácil acertar.

Mas desde quando estilo é só sobre acertar?

O problema não está no uso dessas ferramentas. Está no que elas estão substituindo. Porque, antes da sugestão pronta, existia um intervalo: olhar, testar, estranhar, insistir, errar. Existia construção. Hoje, existe aprovação.

Você não pensa mais o look você decide se concorda com ele ou não.

E isso muda tudo.

A inteligência artificial não apenas ajuda a escolher. Ela molda o próprio desejo. Ao repetir referências, ao filtrar excessos, ao priorizar o que funciona, ela cria uma sensação de gosto pessoal que, muitas vezes, não nasceu em você foi condicionado.

O gesto mais comum da moda contemporânea talvez não seja vestir-se, mas salvar. Salvar um look, salvar uma ideia, salvar uma fórmula. E depois, reproduzir o mais fiel possível. Sem ajuste, sem ruído, sem interpretação.

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Mesmo sem apps específicos, você já está sendo “estilizada” no feed:

  1. o algoritmo entende o que você salva
  2. repete a mesma estética
  3. elimina o que foge do padrão

Porque quando tudo é otimizado, o erro desaparece. E sem erro, não existe descoberta. Sem descoberta, não existe identidade, só repetição bem executada.

A promessa da tecnologia sempre foi facilitar a vida. E, de fato, ela facilita. Mas talvez estejamos abrindo mão de algo no processo: o esforço de construir um olhar próprio. Você acha que está escolhendo… mas está só reconhecendo.

Isso cria um efeito sutil: seu gosto deixa de ser construído e passa a ser condicionado. A pergunta, então, deixa de ser estética e passa a ser quase intelectual: você ainda está escolhendo, ou apenas validando o que já foi escolhido por você?

Porque, no fim, o maior risco não é a inteligência artificial definir o que você veste. É você parar de pensar sobre isso e esquecer que a imagem fala sobre você.

E quando ninguém mais pensa, o estilo deixa de ser expressão e vira apenas mais um sistema eficiente de cópia.

Antes: você olhava, experimentava, errava, ajustava.

Agora: você recebe uma resposta.

Já pensou nisso?

Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.