Pedir a um chatbot um cardápio para emagrecer, calcular nutrientes de uma refeição ou sugerir substituições para determinados alimentos já faz parte da rotina de muitas pessoas. No Brasil, 57% dos consumidores afirmam que se sentiriam confortáveis em utilizar inteligência artificial generativa para criar planos personalizados de dieta e nutrição, segundo a pesquisa Voz do Consumidor 2025, da PwC, realizada com 1.002 brasileiros.
A facilidade de receber uma resposta em poucos segundos amplia o acesso à informação, mas também levanta uma questão importante: até onde a inteligência artificial pode ajudar quando o assunto envolve alimentação e saúde?
Para Bruna Makluf, nutricionista, mestre em Saúde e diretora de Nutrição da healthtech WeFit, a tecnologia pode ser uma aliada para organizar informações e acompanhar hábitos, mas não deve ser confundida com uma avaliação clínica. “A inteligência artificial pode organizar informações, reconhecer padrões e facilitar escolhas durante a rotina, mas não substitui o conhecimento do nutricionista. É o profissional quem consegue cruzar exames, histórico clínico, medicamentos, comportamento alimentar e objetivos para entender o que aquela pessoa realmente precisa”, afirma.
A presença da tecnologia também cresce dentro das instituições de saúde. Dados da TIC Saúde 2025, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e pelo Cetic.br, mostram que 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros utilizavam inteligência artificial. Entre aqueles que adotavam a tecnologia, 76% faziam uso de modelos generativos de linguagem.
Onde a inteligência artificial pode ajudar
A IA pode assumir algumas tarefas práticas e ampliar a quantidade de informações disponíveis sobre a rotina de uma pessoa. O cuidado é não transformar estimativas ou sugestões automatizadas em diagnóstico ou prescrição.
Entre as possibilidades estão:
- Organizar a alimentação: ferramentas podem registrar refeições, sugerir preparações, estruturar horários e reunir informações sobre a rotina.
- Analisar a composição do prato: alguns sistemas conseguem identificar alimentos por meio de imagens e estimar a presença de carboidratos, proteínas, gorduras e outros componentes de uma refeição.
- Identificar padrões: registros frequentes de alimentação, sono e atividade física podem ajudar a perceber comportamentos que passariam despercebidos entre uma consulta e outra.
- Apoiar escolhas cotidianas: a tecnologia pode explicar a composição de alimentos, apresentar possibilidades de substituição e responder dúvidas durante o dia.
O limite aparece quando é necessário interpretar o organismo de uma pessoa. Avaliação nutricional, análise de exames, indicação de suplementação, definição de estratégias alimentares e identificação de riscos exigem conhecimento técnico e consideração do histórico clínico.
“A resposta pode parecer personalizada porque considera peso, idade e objetivo, mas isso representa apenas uma pequena parte do paciente. Duas pessoas com características semelhantes podem responder de maneiras completamente diferentes à mesma estratégia. A IA reúne dados. O nutricionista interpreta o que esses dados significam dentro de uma história clínica”, explica Bruna.
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Foto do prato não conta toda a história
Aplicativos que analisam refeições a partir de fotografias são um exemplo de como a inteligência artificial pode participar do acompanhamento alimentar. A tecnologia consegue reconhecer determinados alimentos e estimar a composição do prato, oferecendo informações que podem ser úteis para o monitoramento da rotina.
Na WeFit, por exemplo, o aplicativo permite fotografar uma refeição para obter uma análise da composição e possíveis pontos de atenção. A plataforma também reúne receitas, registros e outras informações que podem posteriormente ser avaliadas pela equipe de nutrição.
O acompanhamento profissional ganha ainda mais importância em situações como emagrecimento, alterações metabólicas, mudança da composição corporal ou presença de doenças crônicas. Isso porque a resposta do organismo não depende exclusivamente da quantidade de calorias consumidas.
Sono, metabolismo, funcionamento intestinal, comportamento alimentar, medicamentos utilizados e alterações em exames laboratoriais também podem interferir nos resultados. “A inteligência artificial consegue reunir informações em uma velocidade e frequência que seriam difíceis de reproduzir manualmente. Isso pode tornar o acompanhamento mais completo, mas alguém precisa avaliar o que é relevante, identificar riscos e decidir o que deve ou não mudar. A tecnologia amplia o trabalho do nutricionista, não substitui seu conhecimento”, destaca Bruna.
Quando o chatbot vira fonte de orientação
A popularização das ferramentas generativas também mudou a forma como muitas pessoas chegam às consultas. Cardápios, cálculos de calorias, listas de alimentos e recomendações produzidas por aplicativos e chatbots já podem fazer parte das dúvidas levadas ao profissional.
Nesse cenário, o desafio passa a ser diferenciar informações gerais de uma estratégia realmente adequada às necessidades individuais. A inteligência artificial pode ajudar a organizar registros, sugerir receitas, explicar conceitos e identificar padrões. Mas uma orientação nutricional envolve fatores que uma conversa isolada com um chatbot nem sempre consegue conhecer ou interpretar adequadamente.
