Depois de anos de produtos sem glúten, sem lactose e sem açúcar, a indústria alimentícia encontrou uma nova maneira de atrair consumidores interessados em saúde. Agora, a aposta está nos alimentos enriquecidos com proteínas, fibras e outros nutrientes. A tendência chegou até aos refrigerantes e expõe uma mudança na relação com a comida, marcada pela busca constante de opções consideradas mais saudáveis.
Nos Estados Unidos, a Coca-Cola lançou uma linha de refrigerantes prebióticos, Simply Pop, com fibras, vitamina C e zinco, acompanhando o crescimento do mercado de bebidas funcionais. A novidade ilustra uma transformação no discurso sobre alimentação. Se antes o consumidor era incentivado a retirar determinados ingredientes do cardápio, agora é estimulado a acrescentar nutrientes, mesmo em produtos tradicionalmente associados ao consumo ocasional.
Para a nutricionista Sophie Deram, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar, essa mudança merece atenção. Embora o interesse pela composição dos alimentos possa contribuir para escolhas mais conscientes, a preocupação excessiva com nutrientes isolados pode provocar insegurança e culpa na hora de comer.
- Viver em estado de alerta: o custo invisível de nunca desligar
- Agenda do Bella Mais: novembro de feiras e brechós em POA
- Jornada Feminina e Black Beauty se unem em evento em Porto Alegre
Produtos com proteína adicionada chegam a 12,8 milhões de lares
Os números do varejo brasileiro mostram que o interesse por alimentos enriquecidos vai além de uma estratégia de marketing. Levantamento da Worldpanel by Numerator, divulgado em outubro de 2026, revela que produtos com proteína adicionada já são comprados por 12,8 milhões de domicílios, o equivalente a 21% dos lares brasileiros. No ano móvel encerrado no primeiro trimestre de 2026, as vendas da categoria cresceram 12% em valor, enquanto 4,1 milhões de novos lares passaram a consumir esses produtos.
A expansão também aparece em categorias tradicionais da alimentação. Dados da Scanntech, em parceria com a McKinsey, mostram que, entre janeiro e outubro de 2025, as vendas de cereais proteicos cresceram 21% em volume, enquanto os iogurtes com proteína avançaram 16% e os leites saborizados enriquecidos com o nutriente registraram alta de 14%. No mesmo período, o whey protein apresentou crescimento de 124%, indicando que o interesse por proteínas também se estende ao mercado de suplementos.
A preocupação com a composição dos alimentos aparece nas pesquisas de comportamento. Segundo o estudo Estilos de Vida 2024, da NielsenIQ, 51% dos consumidores brasileiros entrevistados afirmaram procurar produtos com fibras e vitaminas em suas compras frequentes. O levantamento também identificou que 45% dos participantes haviam reduzido o consumo de produtos industrializados, indicando que a busca por opções enriquecidas convive com o interesse por mudanças mais amplas na alimentação.
Para Sophie, esses movimentos revelam como ingredientes específicos passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões alimentares, muitas vezes sem que o consumidor considere o alimento em seu conjunto. “Parece que estamos sempre procurando alguma coisa para retirar da alimentação ou acrescentar a ela. Primeiro, determinados ingredientes são tratados como vilões; depois, outros aparecem como soluções. E essa busca constante pode fazer com que comer se torne uma fonte de preocupação, em vez de algo que faça parte da vida com mais naturalidade e prazer”, observa.
Ter mais nutrientes não significa ser mais saudável
A popularização de alimentos enriquecidos também levanta dúvidas sobre a forma como seus benefícios são apresentados. A adição de fibras, proteínas ou vitaminas pode melhorar determinadas características nutricionais de um produto, mas não garante, isoladamente, que ele seja a melhor escolha. A avaliação depende da composição completa, das quantidades consumidas e das necessidades individuais.
O mesmo cuidado vale para alimentos que destacam a ausência de ingredientes. Produtos sem glúten, por exemplo, são essenciais para pessoas com doença celíaca, mas a retirada dessa proteína não é uma recomendação universal. Da mesma forma, a exclusão da lactose deve considerar condições específicas, como a intolerância.
Sophie considera que a classificação dos alimentos entre bons e ruins pode reforçar restrições desnecessárias e criar expectativas equivocadas sobre os benefícios de determinados produtos. “Estamos criando uma espécie de terrorismo nutricional quando passamos a olhar para os alimentos com controle excessivo, como se existissem aqueles que podemos comer sem culpa e aqueles que deveríamos evitar a qualquer custo. A alimentação não deve ser dividida entre mocinhos e vilões”, afirma a nutricionista.
A especialista, que também trabalha com nutrição funcional e nutrigenômica, defende o uso do conhecimento científico para orientar as escolhas, mas questiona a transformação de informações sobre nutrientes em regras aplicáveis a todas as pessoas. Segundo ela, o excesso de recomendações também favorece a circulação de conteúdos sem comprovação científica.
“Eu trabalho com nutrição funcional e acredito na importância da ciência para compreendermos melhor o organismo e suas necessidades. Mas faço isso com ciência e consciência. Conhecer os efeitos de um nutriente é muito diferente de transformar esse conhecimento em uma regra para todo mundo ou em mais um motivo para ter medo de comer. Muitas informações que vemos hoje são, na verdade, pseudociência”, explica.
Quando comer deixa de ser uma experiência prazerosa
Além das questões nutricionais, a preocupação permanente com a composição dos alimentos pode interferir na maneira como as pessoas se relacionam com a comida. A necessidade de avaliar cada ingrediente, evitar determinadas preparações ou compensar escolhas consideradas inadequadas pode transformar refeições cotidianas em momentos de insegurança.
Esse comportamento tende a ganhar força em um ambiente marcado pela divulgação constante de dietas, descobertas científicas e produtos associados à saúde. Entre recomendações que mudam e lançamentos que prometem novos benefícios, o consumidor pode encontrar dificuldades para distinguir necessidades reais de tendências alimentares.
Na avaliação de Sophie, parte do problema está em reduzir os alimentos aos nutrientes que oferecem, deixando de lado o prazer, a cultura e as experiências que também fazem parte da alimentação. Uma cenoura, exemplifica a especialista, não representa apenas uma fonte de betacaroteno, fibras e vitaminas, mas pode estar associada a receitas familiares e lembranças afetivas.
“A nutrição reducionista, que olha individualmente para cada nutriente e não para o todo, acaba confundindo as pessoas na escolha que faz mais sentido para cada uma delas. Uma cenoura, por exemplo, não é apenas betacaroteno; ela tem fibras, vitaminas e pode ter, também, a lembrança do bolo de cenoura da vovó ou de uma salada gostosa que comeu em um restaurante em uma viagem especial. Alimentação é, também, contexto”, pontua Sophie.
Como equilibrar informação e escolhas alimentares
A maior oferta de produtos enriquecidos amplia as possibilidades de consumo, mas também exige atenção às informações presentes nas embalagens. Comparar a composição nutricional, observar as quantidades de cada nutriente e considerar o conjunto da alimentação são atitudes mais úteis do que escolher um produto apenas pela promessa destacada no rótulo.
Para Sophie, a ciência deve ajudar as pessoas a compreender melhor suas necessidades, sem transformar cada refeição em uma obrigação nutricional. Uma alimentação equilibrada também precisa considerar a rotina, as preferências individuais e a relação emocional com a comida.
“Não precisamos escolher entre ignorar a ciência e viver preocupados com cada coisa que comemos. Podemos usar o conhecimento para cuidar da saúde sem transformar a alimentação em uma lista interminável de proibições e obrigações. Comer bem não deveria ser motivo de preocupação, culpa, ansiedade. A ciência precisa nos ajudar a viver melhor e não a ter medo da comida”, diz Sophie.
