Pare agora de fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo e foca nessa leitura. Vamos juntas fazer um momento de silêncio interno: quando foi a última vez que você realmente descansou? Não estou falando de deitar na cama com o celular na mão respondendo e-mail ou pensando na lista do supermercado da manhã seguinte. Estou falando de desligar o radar. De relaxar os ombros sem a sensação incômoda de que você esqueceu de fazer alguma coisa.
Se essa sensação parece um artigo de luxo distante, você provavelmente está vivendo em estado de alerta constante. Na psicologia e na neurociência, chamamos isso de hipervigilância. O cérebro opera em modo contínuo de sobrevivência, como se uma ameaça invisível estivesse prestes a explodir a qualquer instante.
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O problema é que o corpo não foi projetado para sustentar níveis crônicos de cortisol e adrenalina 24 horas por dia. A fatura desse estado de vigília ininterrupto chega sem piedade: estresse ocupacional, transtornos de ansiedade generalizada, insônia e o temido Burnout. Quer saber se você já está operando no limite? Faça um checklist rápido dos sinais do seu corpo e da sua mente:
- Mandíbula travada ao acordar ou dentes cerrados durante o dia (bruxismo);
- Ombros tensos e dores musculares constantes no pescoço e nas costas;
- Dores de cabeças semanais;
- Tremores nas palpebras:
- Sono entrecortado, com despertares noturnos em que a cabeça já acorda repassando listas de tarefas;
- Dificuldade de concentração e falhas frequentes de memória para coisas simples;
- Sensação permanente de urgência e irritabilidade por qualquer imprevisto;
- Fazer tudo rápido porque sabe que tem uma lista te esperando depois
- Sensação de que não vai dar conta de todas as pendências que precisa realizar
- Fazer sempre mais de uma coisa ao mesmo tempo (responder emais durante uma reunião ou simplesmente ouvir áudios do whatsapp enquanto faz o almoço).
- Ter fome de doce, ter fome sempre e ter dificuldade de emagrecer;
- Incapacidade de relaxar nos fins de semana sem sentir uma culpa corrosiva de "estar à toa".
- E por que nós, mulheres, somos as maiores vítimas dessa engrenagem?
A resposta não é biológica, é cultural e estrutural. Pesquisas de sociologia do trabalho e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mulheres casadas e com filhos têm um tempo de lazer e descanso significativamente menor do que os homens. A emancipação profissional feminina nos colocou no mercado de trabalho, mas a gestão da vida privada continuou intacta sob as nossas asas.
É a mulher quem antecipa o cardápio da semana, monitora o que está faltando na despensa, está atenta a educação dos filhos, agenda os médicos, cuida da casa e da roupa limpa, organiza a logística escolar, secretaria o marido nas agendas de aniversários, presentes, contribui na manutenção das relações com os amigos em comum e ainda gerencia o clima emocional da casa.
Aos homens, com frequência – quase sendo norma, é reservado o cômodo e benevolente papel de "ajudante". Eles perguntam: precisa de ajuda? Se precisar é só pedir!!! Mas sejamos muito honestas: quem "ajuda" não assume a responsabilidade; apenas cumpre uma ordem previamente elaborada por alguém.
Se você precisa mandar, fiscalizar se foi feito e lembrar o outro de colocar o lixo para fora ou de dar o remédio da criança, você não tem um parceiro na rotina — você tem um subordinado doméstico que você é obrigada a gerenciar. Ou seja, o parceiro é mais um custo operacional e emmocional que você precisa cuidar e gerenciar.
E no trabalho isso se repete. Além das tarefas do cargo, fica na responsabilidade invisível das mulheres organizar as relações sociais com os colegas, lembrar dos aniversários, fazer as festas de final de ano, organizar o ambiente e se desgastar com seus superiores pedindo para sair em diferentes horários para levar os filhos no médico, ir a reunião de escola ou buscá-los em algum local.
Pesquisas internacionais sobre carga cognitiva e saúde mental comprovam que o custo emocional e cognitivo de planejar, antecipar e gerir a rotina é brutalmente superior ao esforço físico de simplesmente executar uma tarefa mandada. Essa gestão invisível, que nunca tem fim nem folga aos domingos, drena a reserva psíquica da mulher tanto no trabalho quanto em casa.
O resultado é um exército de mulheres exaustas que acreditam que "dar conta de tudo" é sinônimo de força, quando na verdade é a rota expressa para o adoecimento. Preste atenção ao que a clínica nos ensina todos os dias: se você não aprender a dizer "não", a delegar de verdade, a desapegar do controle e a desacelerar a sua mente, o seu corpo e a sua mente entrarão em colapso. E aí não haverá escolha: você será parada à força.
Já parou para pensar sobre isso antes que seja o seu corpo a puxar o freio de mão? Quantos itens daquele checklist você marcou hoje? Vamos conversar nos comentários, quero saber se você tem cuidado dos teus momentos de pausa!
Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).
