Andréa Fidelis

O mito da Mulher Maravilha: pare de tentar dar conta de tudo

Andréa Fidelis mostra como a cobrança para dar conta de carreira, família, casa e autocuidado alimenta uma busca impossível por perfeição

A nossa busca exaustiva pela perfeição nos impede de viver com leveza, diz a colunista Andréa Fidelis
A nossa busca exaustiva pela perfeição nos impede de viver com leveza, diz a colunista Andréa Fidelis Foto : Magnific / Divulgação / CP

Pare um pouquinho e me escuta: respira fundo e tira o peso dos ombros por cinco minutos. Vamos falar da maior mentira que a sociedade moderna nos vendeu e que nós, ingenuamente, compramos: a ilusão de que a mulher moderna precisa ser uma Mulher Maravilha, aquela que é linda, magra, inteligente e dá conta de tudo.

Você pensa que não se trata de mim ou de você? Na verdade trata-se de todas nós, mulheres contemporâneas. Olha a lista surreal que jogaram no nosso colo e que aceitamos de bom grado porque achamos natural: nós nos esforçamos para ser uma profissional em ascensão, fazer pós-graduação, liderar equipes, ser uma mãe presente e amorosa, manter a casa organizada, dar atenção ao marido, comer comida saudável, treinar três vezes por semana, estar com a pele em dia, o cabelo impecável, unhas feitas, ser e estar magra e ainda sorrir e ser agradável para todos em volta.

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Eu te pergunto com toda a sinceridade do mundo: em que planeta isso é humanamente possível? A conta simplesmente não fecha. Algo vai falhar. E sabe de uma coisa? Está tudo bem!

Ninguém consegue, ser uma Mulher Maravilha e equilibrar todos esses pratos no ar ao mesmo tempo sem que alguns caiam e se despedacem no chão todos os dias. Afinal de contas, a Mulher Maravilha é um mito e não uma mulher real. Até porque, no mundo da Mulher Maravilha, a juventude era eterna e não existiam homens, casamento e filhos.

Na nossa realidade de overdose de responsabilidades e trabalho, há dias em que você vai focar em ser uma mãe presente, sentar no chão e brincar com seu filho, e tudo bem se a louça acumular na pia ou se a planilha do trabalho ficar para amanhã, ou depois.

Há semanas em que o projeto corporativo vai exigir 100% da sua energia e a sua casa vai virar um caos temporário, com comida pedida pelo aplicativo, roupas espalhadas pelo chão, sem pasta de dente no banheiro. Outras semanas vai encarar a dieta e exercícos como se não houvesse amanhã. Vai acordar as 5h40min da madrugada (pra mim é madrugada), ir para academia e passar comendo alface em todas as refeições.

Terá dias que você vai chegar em casa e não vai ler histórias pras crianças, não vai querer passar creme no rosto e muito menos ter uma noite romântica. Nesses dias a cama será seu maior sonho de consumo. E ainda terá momentos que baixa a ”Maria” e você organiza toda a sua casa como uma louca da limpeza. E, também haverá momentos em que você vai precisar focar só em você, deixando o resto girar no piloto automático.

Mas levar tudo junto ao mesmo tempo é impossível Mulher Maravilha. A nossa busca exaustiva pela perfeição nos impede de viver com leveza. Tentar fazer tudo com excelência máxima só gera frustração, ansiedade e uma culpa paralisante por não atingir uma meta que sequer é humana.

Mas, antes de continuar eu te pergunto: quem nos cobra ser 100%, 100% do tempo? Lembre-se sempre de uma verdade dolorosa: tudo na vida tem um preço a se pagar.

Você pode escolher pagar o preço de ter uma casa não tão impecável ou de não estar na sua versão mais fit. Mas o que você não pode aceitar de forma alguma é que o preço da perfeição seja a sua própria vida.

A vida real é sobre escolhas e prioridades momentâneas. Se você não desacelerar e aprender a renunciar ao controle, a sua existência vai passar como um checklist infinito. E quando você se der conta, não viveu, não sentiu, não sorriu — apenas cumpriu uma lista interminável de afazeres para agradar aos olhos dos outros.

Aprenda a fazer pazes com o que ficou pendente. Solte o prato que está pesado demais. E você, qual prato decidiu deixar cair hoje para conseguir respirar? Me conta aqui nos comentários, quero muito saber a sua experiência!

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).