Andréa Fidelis

Cargo não faz líder: como se constrói autoridade no trabalho

Andréa Fidelis fala sobre as estratégias para mulheres que buscam respeito e reconhecimento, transformando o poder formal em influência real na equipe

Mulheres líderes aprenderam que a autoridade se constrói utilizando seu repertório de presença, diz Andréa Fidelis
Mulheres líderes aprenderam que a autoridade se constrói utilizando seu repertório de presença, diz Andréa Fidelis Foto : Magnific / Divulgação / CP

Puxa uma cadeira e vamos direto rever sua postura nas reuniões de equipe. Se na nossa última conversa nós rasgamos a fantasia da "boazinha", hoje precisamos enfrentar uma dor ainda mais profunda de quem chega a um cargo de coordenação: a dificuldade de algumas mulheres para se firmar como autoridade e conquistar o respeito da equipe.

Muitas líderes acreditam que a promoção oficial a um cargo de liderança seria suficiente para garantir o respeito do seu time e dos pares. Doce ilusão. Esse cargo confere poder formal, mas o poder formal sem autoridade conquistada gera apenas obediência por medo ou resistência silenciosa pelos corredores, principalmente quando essa líder tem homens em sua equipe.

Eu mesma passei por isso anos atrás quando assumi um cargo de coordenação de RH. Os funcionários (subordinados) mais antigos simplesmente faziam de conta que eu não estava lá. Quando precisavam de algo, se reportavam ao meu superior diretamente, passando por cima de mim. Pior que, muitas vezes, meu próprio superior também fazia isso, reforçando minha falta de “poder” na função.

Haviam fofocas, risinhos sarcásticos, olhares desdenhosos e boicotes claros frente às novas implementações de trabalho propostas por mim. Essa dificuldade que eu vivi e que muitas de vocês também já experimentaram não é falta de capacidade individual. É um fenômeno estrutural e tema frequente entre as maiores lideranças femininas de negócios.

Para chamar atenção sobre esse fenômeno, a CEO Luiza Helena Trajano e a socióloga Catherine Hakim já provocaram o mercado ao resgatar o conceito de Capital Erótico — que, longe de qualquer conotação vulgar, trata da combinação estratégica de atratividade física, charme social, vivacidade, elegância e inteligência emocional.

As mulheres líderes aprenderam que a autoridade não se constrói tentando imitar a truculência masculina, mas sim sabendo utilizar todo o seu repertório de presença, imagem e conexão relacional para liderar. Eu pessoalmente prefiro usar o termo Capital Relacional: que é justamente a habilidade de criar conexão com as pessoas, através do respeito mútuo e firmeza nas ações. Mas, convenhamos, a estratégia de usar a palavra ERÓTICO chama mais atenção, não é mesmo?

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Mas como mudar esse cenário? Tendo em vista que a autoridade imposta exige controle e a autoridade conquistada gera atração, você pode começar a treinar e aplicar essa autoridade positiva hoje mesmo, a partir de movimentos muito práticos:

Pesquisas da Harvard Business School mostram que a autoridade começa nos primeiros segundos de uma interação. Para conquistar respeito em reuniões dominadas pelo corporativismo tradicional:

Elimine as desculpas defensivas: Pare imediatamente de começar frases com "Desculpe interromper, mas..." ou "Posso dar uma opiniãozinha?". Troque por posicionamentos diretos: "Gostaria de acrescentar um ponto estratégico sobre essa meta". Use frases firmes, positivas que demonstram segurança!

Aplique a técnica da Amplificação: Construa alianças. Quando outra mulher ou colega competente (homem ou mulher) trouxer uma boa ideia, valide a fala citando o nome do autor ("Como a Ana acabou de pontuar muito bem..."). Isso impede o plágio de ideias na mesa e consolida a sua voz como uma liderança inteligente, que articula o grupo.

Nada destrói mais a autoridade conquistada do que a incoerência. Faça o que diz e siga seus valores! Você não pode pregar pontualidade, mas ser a primeira a atrasar a entrega de relatórios; ou exigir transparência da equipe, mas centraliza as informações no gabinete; ou ainda cobrar gestão de inteligência emocional, mas perde o controle ao ser contrariada.

Quando faz isso, o seu discurso vira piada interna e você perde toda a credibilidade. Imagine uma gestora que faz um discurso emocionante sobre "equilíbrio entre vida pessoal e trabalho", mas envia mensagens cobrando demandas no grupo do WhatsApp às 22h de um domingo. A equipe não vai respeitar o discurso belo; vai reagir à atitude incoerente. A autoridade mora na distância entre o que sai da sua boca e o que você faz no dia a dia.

A autoridade também é visual e sensorial. A forma como você veste a sua identidade profissional, as roupas que você usa no trabalho, a sua postura física ao sentar-se à mesa, o tom firme da sua voz e a capacidade de sustentar o olhar seguro sem piscar com hesitação são gatilhos biológicos de liderança.

Não se trata de nascer pronta. Trata-se de treinamento de presença executiva. O corpo fala antes mesmo de você abrir a boca para apresentar o primeiro gráfico da reunião. Por isso, ser boazinha (minha coluna anterior) informa que você é vulnerável e fácil de ser manipulada, por isso não “serve” para liderar uma equipe.

Firmeza e competência combinam com autoridade e capacidade. Boazinhas combinam com vulnerabilidade e "síndrome de Gabriela" com rigidez. O que você está informando com sua postura profissional? Quando realizo treinamentos de liderança e saúde organizacional nas empresas, vejo profissionais brilhantes tecnicamente serem apagadas na mesa de negociação simplesmente por não saberem projetar a própria voz, por encolherem a postura quando confrontadas ou por não alinharem a sua imagem ao nível estratégico que ocupam.

Estar no C-Level exige intenção em cada detalhe. A autoridade imposta pelo cargo cai na primeira crise; a autoridade conquistada pela sua presença, coerência e inteligência relacional permanece para sempre. Agora me conta aqui nos comentários: você já viveu na pele a falta de autoridade frente a sua equipe? Vamos conversar sobre como dar o próximo passo!

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).