Andréa Fidelis

Batom vermelho e rock: você tem coragem de chocar para existir?

Celebrando o Dia do Rock, Andréa Fidelis convoca a energia disruptiva das mulheres da música para fortalecer a nossa autoestima no trabalho e na vida

As cantoras Cássia Eller e Pitty representam a força e a coragem da mulher no rock and roll brasileiro
As cantoras Cássia Eller e Pitty representam a força e a coragem da mulher no rock and roll brasileiro Foto : Montagem CP / CP Memória

Hoje é o Dia do Rock, por isso o nosso encontro pede um bom café ouvindo as mulheres roqueiras no volume máximo para recarregar as energias e sacudir a poeira. O nosso percurso aqui no Bella Mais tem sido sobre resgatar a nossa autonomia e autoestima no trabalho, e a melhor forma de fazer isso é convocando o espírito rebelde das mulheres que decidiram, sem pedir licença, romper o eterno "clube do Bolinha" do rock and roll.

Vocês sabem que o homem roqueiro é visto como o bad boy que vem denunciar o status quo da cultura, com suas roupas de couro, cabelos longos e letras fortes. Mas quando a roqueira é uma mulher, será que ela tem uma imagem positiva de bad girl? Ser roqueira é mais um espaço que somente algumas mulheres corajosas ousaram invadir para mostrar que o lugar da mulher é onde o coração mandar — e não onde a querem colocar por causa de seu gênero ou classe social.

Se o rock and roll tem uma missão de denúncia social, a mulher roqueira cumpre seu papel duplamente. O rock escrito e cantado por mulheres como Janis Joplin, Pink, Rita Lee, Cássia Eller e tantas outras teve a coragem de nos tirar daquele velho lugar onde insistem em nos colocar. Você sabe qual é? Claro que sim, pois tentaram nos convencer de que a natureza feminina é recatada, passiva e obediente. Tentaram nos dizer que a mulher de verdade é a "Amélia", aquela que passava fome e não tinha a menor vaidade.

Mas nos palcos do rock cantado por mulheres, nós viramos protagonistas da nossa própria história. Em outros estilos musicais dominados por homens, nós somos frequentemente reduzidas às traídas ou às traidoras, meros objetos sexuais para o prazer do outro. É o homem cantando que a mulher só corre atrás por causa de um "Camaro Amarelo" ou nos transformando na vilã fria da relação em hits de pagode e sertanejo que tocam no rádio todos os dias.

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O rock chuta esse balde. Olhem a coragem de Baby do Brasil, que se apresentava nos shows com o barrigão de grávida de fora, deixando todos perplexos. Ou a Rita Lee, cantando nos anos 80: "Me deixa de quatro no ato / Me enche de amor, me enche de amor...". Esse trecho é perfeito para ilustrar como ela falava abertamente de prazer, desejo e jogo de sedução, chocando a sociedade da época ao inverter os papéis tradicionais e colocar a mulher como alguém com desejo sexual e poder de escolha.

Logo depois veio Cássia Eller, rasgando a voz com aquela atitude que era o avesso da Cinderela dócil: "Quem sabe o príncipe virou um chato / Que eu quero viver na malandragem", porque "eu sou uma menina má". Era a mulher querendo viver a vida sob as suas próprias regras, com liberdade e sem roteiros prontos de "mulher boazinha" (e não boazuda!).

As roqueiras têm essa coragem de serem disruptivas, de assumir o posto de "ovelha negra" da família e do mercado se for preciso para defender quem são. E, olha, essa energia é mais necessária agora do que nunca. Estamos sob risco novamente: o cenário político e social recente tem flertado com retrocessos perigosos, com discursos que tentam minar direitos conquistados — como a nossa autonomia política —, afirmando que a mulher deve ser submissa ao homem e restringindo nosso papel ao lar, muitas vezes manipulando palavras e crenças de pessoas de boa fé.

Não podemos aceitar caixinhas confortáveis para a lógica alheia. Ainda causa espanto quando vemos uma mulher ocupando espaços ditos masculinos, seja como engenheira civil em canteiros de obras, delegada de polícia, juíza de futebol ou cirurgiã de alta performance. Mas o rock nos ensina que a mulher pode — e deve — ser o que ela escolher ser.

Ainda temos poucas roqueiras a denunciar essa sociedade cheia de preconceitos que nos afetam. A Pitty nos convida a ser essa mulher moderna que fita o espelho, passa um batom vermelho e se valoriza de fato, para não mais aceitar o estigma de submissa.

Por isso, te convido a trazer a alma roqueira para a vida. Diante de discursos que tentam nos apequenar, lembro de outro trecho eterno na voz de Cássia: "Palavras pequenas, palavras apenas / Palavras, palavras...". Que as palavras deles continuem sendo apenas palavras ao vento, enquanto nós colocamos as nossas em ação.

Vamos trazer a nossa voz para conversar com o mundo, com homens e mulheres, mostrando que o futuro se constrói com protagonismo e parceria, nunca com submissão. Faça a sua parte. Ocupe seu espaço, traga suas palavras, defenda sua inteligência e seu direito de ser e existir. Mostre para quem quiser ouvir: não provoque, porque nós somos cor de rosa choque.

Aumenta o som e me conta: qual música dessas roqueiras incríveis te inspira a SER? Vamos alcançar muitas mulheres para que isso vire assunto nas mesas de bar, de casa e do trabalho. Deixa o teu comentário aqui embaixo, vamos falar, cantar e nos ouvir!

Andréa Fidelis é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).